terça-feira, 29 de abril de 2014

Escola de samba: fé na vida e religiosidade – Por Helena Theodoro

Refletindo sobre nossa paixão pelo samba, constatamos que os diferentes elementos que se relacionam e que compõem uma escola de samba, revelam que os cultos afro-brasileiros, com seus rituais e sua religiosidade, constituem a base desta instituição cultural. 

Pensando no próprio espaço de encontro das escolas, que hoje chamamos de quadra, no inicio era chamado de terreiro. Mas o que é o Terreiro? É o nome dado às casas de candomblé em todo o país no início do século, local de transmissão de conhecimentos, rituais de integração e de encontro com amigos, familiares e agregados. 

Por conta das tias baianas festeiras da Praça XI, como Tia Ciata, foi estendido ao espaço sócio-cultural do samba, que pode ser entendido como o quintal dos sambistas. 

A ideia de terreiro nas escolas de samba se prende ao grupo estruturador da escola, que criou melodias que identificam e representam a escola, sendo o grupo que exerce um papel fundamental na roda de samba de cada agremiação como conta Monarco no Samba velho amigo:

Samba

Velho amigo e companheiro
Alegria dos nossos terreiros
Há muitos anos atrás
É este o mesmo samba verdadeiro
Que partiu para o estrangeiro
E penetrou nas camadas sociais
Samba do Estácio e Ismael
De Cartola e Mestre Paulo
Bide, Mano Rubem e Noel
Estácio, Mangueira e Portela
Tijuca, Favela
Os professores do morro
Nos mesmos ideais
Fizeram a grande alegria
Dos carnavais
Foi aí que o samba evoluiu

Religiosidade nas escolas de samba

A relação entre a religiosidade, os valores comunitários e a trajetória das escolas de samba foi inevitável. Segundo Rego (1996) "inúmeras coreografias do samba são algumas vezes idênticas, outras assemelhadas ao domínio da dança dos Orixás." 

Esta influência de sacralização vai se refletir não apenas no ritmo, mas também, na coreografia e na indicação das cores das agremiações de samba que surgem a partir dos anos trinta no Rio de Janeiro.

Rubem Confete, sambista, mangueirense, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1936 como Rubem dos Santos, primo do Aniceto do Império, dá seu depoimento sobre samba e religiosidade:

"Considero fundamental a declaração do samba como patrimônio cultural brasileiro por situar o samba como a maior expressão musical do mundo fora da linha editorial. Todos os gêneros musicais contaram sempre com a preocupação dos editores de mostrar, defender e vender as suas partituras. Com o samba isto não ocorreu. Ele veio subindo, pegando força e quando eles acordaram, o samba estava aí. Isto foi há muitos anos. Hoje os editores estão reproduzindo na Europa gravações de anos atrás e toda a Europa curte o samba em nossos dias. Agora, qual a grande estrela do samba? Não temos. Os ingleses tiveram os Beatles, mas o samba foi de uma abrangência enorme, contando com a participação de pessoas das mais variadas classes sociais. É um fenômeno que tem uma explicação na energia que vem das casas de omolokô, da tradição religiosa de base africana, que juntou o culto às almas, da gira de Preto Velho e Caboclo e vai até o culto aos orixás. Foi lá que nasceu a Portela, da energia de Seu Napoleão Nascimento, que era o pai do Natal. No Estácio, foi da energia de Tancredo da Silva, grande pai de santo de omolokô. Na Mangueira, Dona Maria da Fé estimulada por Elói Antero Dias para que criassem uma escola de samba. Antes de fundar o Império Serrano Sr. Elói fundou o Deixa Malhar, no Baixo Tijuca, onde é hoje a rua Almirante Candido Brasil. O Elói Antero Dias, que assessorava Getúlio Vargas com alguns outros país de santo, foi incentivado por Getúlio a criar uma escola de samba para competir com Paulo da Portela que tinha entrado para o partido comunista, querendo provar que o samba era um gênero musical de sociabilidade. Quem me contou esta história foi o João Saldanha quando perguntado por que ele era portelense. O Império Serrano foi uma escola sindicalista. O Salgueiro também contou com a liderança do Calça Larga e dos pais de santo para a criação da escola. O samba se tornou uma grande força sem grandes estrelas. Acho importante o reconhecimento da necessidade de preservação das casas de culto omolokô, de onde partiu a energia primeira, que ainda está aí. Não se pode desassociar o aspecto religioso da preservação do samba carioca. Eu fiz uma primeira matéria sobre o assunto falando do jongo entre julho e agosto de 1975, entrevistando Vó Teresa, mãe de Fuleiro, além de haver conversado com Vovó Joana Rezadeira, mãe do Darci do Jongo. Dançavam o jongo Fuleiro, Sr. Antonio Rufino, fundador da Portela e Dona Maria. É a coroação de nossa luta".

A dança da reza: Mestre-sala e porta-bandeira

Durante os ensaios nas quadras os diretores de harmonia abrem um espaço no meio da multidão, criando uma grande roda no meio do salão, bem em frente à bateria e ao palanque dos puxadores, que se alonga até as extremidades à direita e à esquerda, para permitir que Mestre-Sala e Porta-bandeira, seguidos de baianas e passistas, possam energizar o ambiente. Eles entram em comunhão com o cosmos que está em movimento.

O samba é a dança da reza, das relações com a ancestralidade africana, criando um momento de encantamento na quadra ou na avenida, onde as matrizes africanas, conjugadas com a herança europeia, construíram uma forma própria de dança voltada para um estilo próprio de música: o samba-enredo, que é "oriki" ou o brasão oral da escola.

A dança do Mestre-sala e Porta-bandeira é uma celebração que se relaciona à participação do grupo, à magia do momento e à religião dos ancestrais. É a festa do amor à vida com uma forma muito própria de existir.

Bateria

A bateria é o coração da escola de samba. Através dela a cadência e o ritmo do samba são marcados, para contagiar os passistas, foliões e integrantes da escola, a fim de que façam uma linda apresentação. Nela, os três tambores do terreiro, o rum, o rumpi e lê se tornam trezentos e fazem a comunicação entre todos os membros da comunidade. 

Quando a bateria entra na avenida, a pulsação dos aparelhos de percussão, do surdo de primeira, responsável pela marcação principal; do surdo de segunda e do surdo de terceira; tamborim, prato, repique, chocalho, caixa de guerra, cuíca, agogô, reco-reco, pandeiro e triângulo, emocionam a todos que assistem ao espetáculo, levando animação, fazendo com que ninguém consiga ficar parado.

Podemos constatar que a influência de sacralização nas escolas de samba vai se refletir não apenas no ritmo das baterias, que eram tocadas por ogãs dos terreiros, mas também, na coreografia do samba e até na indicação das cores das escolas.

Helena Theodoro

Carioca, escritora, doutora em Filosofia, mestre em Educação, pesquisadora de cultura afro-brasileira, coordenadora do curso de Pós-graduação de Figurino e Carnaval da UVA.

Fonte: http://www.sidneyrezende.com



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