segunda-feira, 14 de abril de 2014

Para Boff, espécie humana precisa de mudança radical para sobreviver – Por Natália Fernandjes

Um dos mais respeitados filósofos e teólogos do mundo, Leonardo Boff esteve no Teatro Municipal de Santo André para proferir palestra sobre os Desafios Ambientais para a Humanidade. 

Antes do evento, o pensador, que também é um dos iniciadores da teologia da libertação (movimento da Igreja Católica que defende a interpretação dos ensinamentos de Cristo voltados à resolução dos problemas sociais), recebeu a imprensa para coletiva.

Durante o diálogo, que durou pouco mais de uma hora e foi realizado em um hotel na região central da cidade, Boff convidou os presentes à discussão de temas considerados ainda pouco destacados, mas tidos como os principais problemas da atualidade: o aquecimento global e, consequentemente, a falta de água doce no planeta. Segundo ele, está claro que a causa das dificuldades é o sistema de desenvolvimento adotado pela sociedade, o capitalismo. O modo de produção é duramente criticado pelo pensador, tendo em vista seu caráter individualista e pelo fato de beneficiar apenas pequena parcela da sociedade.

A visita de Boff é resposta a um convite feito há pouco mais de um ano pelo MDDF (Movimento em Defesa dos Direitos dos Moradores em Favela) da região. Autor de inúmeros livros e vencedor de prêmios, o pensador e assessor de movimentos sociais participou da redação da Carta da Terra, declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, no século 21, de uma sociedade global justa. 

A partir dos anos 1980, começou a aprofundar a questão ecológica como prolongamento da teologia da libertação, já que, segundo ele, não somente se deve ouvir o grito do oprimido, mas também o grito da Terra, porque ambos devem ser libertados.

Quem observa o professor e conferencista de fala mansa, aos 76 anos, nem imagina que ele já chegou a ser condenado, em 1985, a um ano de silêncio obsequioso pelo ex-Santo Ofício por suas teses no livro: ‘Igreja: Carisma e Poder’ (Record). Apesar de ter deixado sua função de padre em 1992, nunca abandonou a teologia e se mostra otimista em relação ao papa Francisco. 

É por meio da religião, inclusive, que Boff acredita ser possível encontrar saída para a crise na qual se encontra a humanidade. “A função das religiões é dupla: a primeira é denunciar e a segunda, educar as pessoas com valores importantes, como o respeito”, ressalta. 

Confira a seguir os principais trechos da entrevista. 

DIÁRIO – Quais são os desafios ambientais observados atualmente?

LEONARDO BOFF – Acho que são dois os grandes desafios que a humanidade enfrenta. O primeiro é o aquecimento global, que mostra que a terra está buscando um novo equilíbrio depois de quatro séculos de superexploração. E a maneira de a Terra reagir é como todo doente, pela febre. O segundo problema, que pode até ser mais grave, é a falta de água doce. Só 3% de toda a água existente é doce e apenas 0,7% é acessível aos seres humanos. O risco é que haja guerra para garantir o acesso às fontes de água potável e de a espécie humana desaparecer, além de muitas outras espécies que estão desaparecendo porque não conseguem se adaptar às mudanças. 

DIÁRIO – Então o senhor acredita que capitalismo é o causador do problema?

BOFF – A partir do final dos anos 1960 ficou claro que a causa da doença é o tipo de desenvolvimento que nós temos, que produz duas injustiças: uma social porque cria população pequena com enormes riquezas e grande pobreza do outro lado, e outra ecológica, que degrada os ecossistemas por não respeitar seus limites. Dados atuais mostram que 175 pessoas possuem mais da metade da riqueza do mundo. No Brasil, 5.000 famílias detém 43% da riqueza nacional. Nós vivemos numa sociedade malvada, como disse Santo Agostinho. 

DIÁRIO – É preciso mudar o sistema econômico?

BOFF - A Carta da Terra diz: estamos num momento crítico da história, numa hora em que a humanidade deve escolher seu futuro. E a escolha é ou fazemos uma aliança global para cuidar da terra e cuidar uns dos outros ou então arriscamos a alcançar a nossa destruição e o fim da diversidade. O capitalismo não deu certo porque atinge a pequena minoria da humanidade, que vive no paraíso. O resto vive no inferno ou no purgatório. Não é um sistema humano. É uma das mais perversas invenções do homem. 

DIÁRIO – Estes temas já vêm sendo debatidos nos fóruns mundiais?

BOFF – Hoje acho que a resposta a isso seria uma governança mundial. Porque se os problemas são globais, vamos tratar globalmente. Agora, toda governança global implica que cada país renuncie um pouco à sua soberania. Nem a Rússia nem os Estados Unidos nem a China querem renunciar. Em nenhuma reunião mundial sobre a questão de água, alimentação e aquecimento global se chega ao mínimo consenso. Isso é grave. 

DIÁRIO – O senhor considera que falta vontade política?

BOFF – Acho que atrás da vontade política tem outro problema, que é de ordem antropológica. E quem está denunciando isso é o papa Francisco. Ele diz que a crise econômica e financeira que atingiu o mundo inteiro é uma crise antropológica. Porque você considera o ser humano uma mercadoria que se usa e descarta quando acabou de usar. O sistema do capital não ama as pessoas. Ama as habilidades e não a pessoa. Enquanto perdurar essa compreensão, nós efetivamente não temos saída. Nós temos que mudar. Nós estamos nas bordas da crise, ainda não estamos no coração da crise. 

DIÁRIO – De que forma essa mudança é possível?

BOFF – Nós temos que resgatar a inteligência mais ancestral dos seres humanos, a inteligência emocional. A revolução é por pessoas sensíveis, afetivas, que se empenham com a vida. Tem que ser como São Francisco (de Assis), que tinha relação de afeto, de carinho, cuidado e proteção com a natureza. A cultura ocidental perdeu a capacidade de sentir e se fez incapaz de chorar. Até 2008 havia 800 milhões de famintos e, com a crise, subiu para 1,2 bilhão. Ninguém se move nos países a fazer um fundo para ajudar. Essa mentalidade é suicida.

DIÁRIO – A partir desse cenário é possível ter esperança?

BOFF – Eu acho que sim. Se nós olharmos a história da humanidade, ela passou por 15 grandes crises e sempre a vida triunfou. Acho que não será agora que nós vamos sucumbir.Temos tecnologia, meios econômicos, só que nos falta o sentimento, o coração para fazer. A alternativa que estão criando é que haja prosperidade, com crescimento para os países pobres e a Europa e os Estados Unidos, que já cresceram, poderiam investir na qualidade de vida. 

DIÁRIO – Qual é o papel da Igreja neste processo?

BOFF – A função das religiões é dupla e esse papa está fazendo bem isso. A primeira é denunciar os riscos. E segundo ela pode educar as pessoas com valores importantes da religião, como o respeito. O papa, inclusive, já declarou que vai convocar uma assembléia mundial das religiões sobre o tema vida no planeta. As igrejas estão despertando para as suas responsabilidades. A marca registrada da teoria da libertação é ‘sou pelos pobres e contra a pobreza’. O pobre é aquele que menos direitos tem. Por isso, defendo os direitos humanos a partir dos pobres. O maior biólogo vivo hoje, Edward Wilson, diz em seu último livro que nós só nos salvamos se unirmos as duas forças maiores, que é a ciência e as religiões.





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