terça-feira, 6 de maio de 2014

“Um pai espiritual”, define frei Betto sobre relação com dom Tomás – Por Helton Lenine

A dedicação de dom Tomás Balduíno às causas sociais, culturais e políticas foi lembrada como um dos seus principais legados por religiosos e amigos. 

O escritor e teólogo frei Betto definiu dom Tomás Balduíno, morto na última sexta-feira, como “um pai espiritual” que o orientou em sua vida dominicana. 

Enquanto frades, dom Tomás Balduíno e frei Betto frequentaram, juntos, os dois encontros anuais realizados pelos missionários em São Paulo, onde conviviam e compartilhavam experiências não só religiosas, mas também sociais e políticas. 

"Ele era um bispo muito identificado pelos excluídos. Como frade, dedicou sua vida aos sem-terra e aos povos indígenas, sem querer fazer destes católicos. Ele respeitava a religião dos índios, acreditava conter ali o Evangelho. Falava a língua deles. Inclusive, foi lhe doado, por amigos, um avião para que realizasse suas visitas às aldeias", relembra o escritor. 

"Após encerrar seu período como bispo, aos 75 anos, dom Tomás voltou a morar no convento dos dominicanos como um frade comum. Ele sempre foi um homem simples, da linha, aliás, do papa Francisco."

Na esfera política, frei Betto destaca a atuação de dom Tomás Balduíno na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). "Ele cobrava um posicionamento da CNBB em relação à ditadura militar. Foi muito perseguido, sofreu ameaças", afirma.

Em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) manifesta pesar pelo falecimento de dom Tomás Balduíno No último sábado, os bispos participantes da 52ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil celebraram, no Santuário Nacional de Aparecida (SP), missa em intenção de dom Tomás. 

No texto, o presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis (arcebispo de Aparecida-SP) ressalta a atuação de dom Tomás. 

"Este nosso irmão dedicou sua vida e ministério ao serviço do povo de Deus e à defesa dos direitos humanos, especialmente à causa dos pequenos agricultores e povos indígenas. Inspirado por seu lema episcopal 'Homines Capiens' (Pescador de Homens), aprendeu a língua dos índios xicrin, do grupo bacajá e kayapó e também se tornou piloto de avião para melhor atender as comunidades indígenas", diz a nota.

Personagem fundamental no processo de criação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em 1972, dom Tomás Balduíno ganhou destaque no mundo religioso por sua responsabilidade social engajada. Quem corrobora é o padre Jesus Hortal, ex-reitor da PUC-Rio. 

"Era sua missão se interessar pelas questões relativas aos índios. Quando morei em Goiânia por dois anos, atuando como subsecretário da CNBB, nos encontrávamos com frequência. Pude perceber que, além de todas estas ações sociais, Balduíno tinha uma bondade natural. Sempre tranquilo e disposto a dialogar", relata.

Em nota, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), fundada por dom Tomás, entre outros religiosos, lembrou a preocupação constante do frade com as causas sociais.

"Nem mesmo com a saúde debilitada e internado no hospital, ele deixava de se preocupar com a questão da terra e pedia, em conversas, para saber o que estava acontecendo no mundo", diz o texto.

Membro da Coordenação Nacional da CPT, Isolete Wichinieski destacou que dom Tomás sempre atuou em coerência com suas causas, mantendo-se como um homem simples: 

"Ele sempre foi um homem do povo. E, acima de tudo, um homem simples. Ele não se incomodava de ficar em um acampamento, de tomar um café com os camponeses, de ficar na casa das pessoas, de ir para a roça e pisar na terra. São sinais que mostram a coerência e unidade de sua luta cotidiana pela reforma agrária."

O MST divulgou um poema de Pedro Tierra intitulado "Calou-se uma voz dos oprimidos" em homenagem ao religioso:

"Calou-se a voz de Tomás Balduíno,/ nessa noite de 2 de maio/ Uma voz que nunca quis ser sozinha,/ sábia, desde os anos de chumbo:/ uma voz solitária não suspende a manhã/ Quis ser uma voz entre vozes,/ ergueu sua voz dentro do vasto coro dos oprimidos:/ os índios, os posseiros, os lavradores,/ os retirantes da seca e da cerca (...)"

Em 1978, dom Tomás Balduíno não só prestou depoimento ao cineasta Zelito Viana, durante as filmagens de "Terra dos índios", como ajudou-o a formar a equipe que estrelaria na produção. 

"Ele me indicou os índios que dariam entrevistas e sugeriu locais de gravação", comenta Viana, sobre a obra que contou ainda com Darcy Ribeiro e Fernanda Montenegro. "Éramos muito amigos. Toda vez que ele vinha ao Rio ficava em minha casa. Viajei muito com ele de avião Brasil afora", lembra Zelito Viana.

"Uma vez, sobrevoando a Amazônia, ele me perguntou "o que dá nesta terra?" O próprio respondeu: "Nesta terra não dá nada não, só projeto", conta o cineasta.


Para Viana, que afirma não entender nada de índios até conhecer dom Tomás, o dominicano era um santo. "Um homem fora do normal. Um ser humano iluminado", referenda o cineasta, enfatizando do lado engajado do religioso. 

"Estávamos em uma aldeia Tapirapé quando ele perguntou para um dos índios quem havia dado aquele lago à tribo. O índio disse que era Deus, e dom Tomás rebateu: "Foi Deus o que menino, foi tapirapé com arma na mão tomando de branco". (Com informações do jornal O Globo).



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