sábado, 30 de agosto de 2014

Religião e ciência – Por Ivan Maciel de Andrade

O papel das religiões no mundo atual tem sido objeto muito mais de acirradas polêmicas do que de análises objetivas, isentas, esclarecedoras. É que nessa área tudo está eivado de dogmatismo, paixão, intolerância.

A tentativa de usar qualquer argumento lógico é de modo geral infrutífera e algumas vezes desastrosa. Não se consegue nem mesmo ouvir ou fazer-se ouvir. A divergência é tratada como objeção mal-intencionada, blasfêmia, apostasia, obnubilado sinal de incompreensão. 

Não se abre, a não ser excepcionalmente, um espaço civilizado em que possam ser estabelecidos consensos e dissensos que conduzam a um diálogo sob o signo da sensatez, do bom senso, da lúcida confrontação de ideias e convicções. Sempre que isso se torna possível, no entanto, são descobertos, por extremados antagonistas, numerosos pontos de identidade que tornam possível uma convivência de equilibrado respeito mútuo e de parceria em obras humanitárias, como as de socorro a populações submetidas a uma crônica e secular miséria ou vítimas de catástrofes, de guerras e de epidemias.

O que se percebe é que predomina um irredutível e intransigente fundamentalismo: cada seita religiosa se considera a única detentora de princípios e ensinamentos verdadeiros e da legítima maneira de cultuar a Divindade. Daí os dirigentes religiosos terem sobressaído, ao longo da história, mais pela hostilidade e rivalidade com relação a outras crenças do que pelo combate à transgressão pelos próprios fiéis dos dogmas que lhes são impostos. 

Embora sejam bem conhecidos os excessos da Santa Inquisição medieval: só depois é que os “hereges” passaram a ser punidos pela Igreja Católica de forma mais branda, através da excomunhão. Mas ainda hoje há graves manifestações de beligerância entre as próprias religiões, o que tem levado a conflitos intermináveis, de insuperável, aterradora, requintada desumanidade. 

Afinal, o ódio entre adeptos de diferentes religiões parece ser maior do que entre religiosos e ateus. Será a força atávica do ódio entre Caim e Abel (Gênesis, 4)?

É preciso que se respeite incondicionalmente o direito de religiosos, seja qual for a sua religião e de ateus, agnósticos ou céticos dizerem o que pensam e agirem em total sintonia com as suas concepções. Qualquer tentativa de restringir o direito à religiosidade ou à antirreligiosidade é preconceituosa e inaceitável. 

Recentemente, surgiu um contraponto ao radicalismo religioso: cientistas que interpretam a teoria de Darwin como categórica negação de Deus vêm assumindo posições apaixonadas e intolerantes. Como é o caso de Richard Dawkins, autor de várias obras de sistemático e fervoroso ateísmo, entre as quais “Deus, um delírio” (2006), que vendeu milhões de exemplares e foi traduzida em 31 idiomas. 

O que irrita nesses fundamentalistas às avessas é a arrogância, o tom de escárnio assumido em relação a quem se atreve a admitir a possibilidade do Transcendente. 

Os pobres deístas são considerados mentecaptos, ridículos sobreviventes de épocas paleolíticas, tão desinformados sobre os modernos avanços científicos que não merecem ser incluídos na espécie do “homo sapiens”. O pior (ou melhor) é que as explicações científicas nada têm ainda de conclusivas.




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