sábado, 13 de setembro de 2014

Artigo convoca fiéis de matriz africana à política - Por Walmir Damasceno*


Walmir Damasceno, jornalista, bacharel em Direito, especialista em Educação para as Relações Étnico-Raciais e pai de santo de candomblé de matriz congo-angola, escreve artigo para o Favela 247 reiterando o caráter laico do Estado e pedindo para os povos e comunidades tradicionais de matriz africana se atentarem ao discurso dos políticos nessas eleições: 

"Mas claro é que, enquanto Estadista, se espera que saiba diferenciar suas posições pessoais daquelas que adota como política de Estado e de Governo. E que tampouco dê asas às tendências religiosas que diminuam as demais, bem como adotem qualquer comportamento hostil a outras religiosidades divergentes".

O sagrado espaço da espiritualidade, seja de qual tendência ou credo em que colocarmos nossa atenção, é ambiente onde muitas pessoas rejeitam de forma tácita, ou mesmo explícita, os debates de natureza política e profana. Seja por aversão à tendência excessivamente acalorada que os interesses conflitantes nesses embates geram, seja por considerarem que todo o tema é de fato indigno de atenção.

Porém, queiramos ou não, tais assuntos e interesses permeiam a vida de todas as pessoas, e a falta de posicionamento já é uma posição que penderá para a maioria, ou seja, reforçando a tendência política que prevalecer.

Do ponto de vista do ordenamento jurídico e formal, o Estado deve ser laico, ou seja: tratar com equanimidade todas as religiões, sem parcialidade ou privilégio a qualquer que seja. Porém, distante desta posição é a do Estadista em seu foro íntimo, que pode adotar qualquer tendência religiosa.

Mas claro é que, enquanto Estadista, se espera que saiba diferenciar suas posições pessoais daquelas que adota como política de Estado e de Governo. E que tampouco dê asas às tendências religiosas que diminuam as demais, bem como adotem qualquer comportamento hostil a outras religiosidades divergentes.

Este é o caráter laico que se espera de um governante. Porém, não se pode dizer o mesmo das agremiações religiosas particulares, que enquanto agrupamento de pessoas deverão aderir às tendências que mais se assemelhem com seus ideais.

Aqui finalmente chegamos ao grupo que nos interessa particularmente, e a quem dirigimos nossas palavras: o dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana. Nossos irmãos de fé, que também se diferenciam entre si em diversos matizes, precisam adotar a nosso ver uma posição mais participativa e aderente às correntes que disputam o poder central da política brasileira.

Importante analisar agora quais as particularidades de pensamento e de comportamento que parecem caracterizar tais postulantes. Se inspiram o ideal de liberdade, de igualdade e de equanimidade que nosso país necessita para a manutenção de um amplo espectro democrático no campo das liberdades religiosas. Se dão plena garantia de que serão governantes aptos a realizar esta divisão entre a esfera pessoal e a esfera governamental.

É importante neste momento refletir para além dos interesses imediatos e pensar no mais amplo interesse, que, do ponto de vista religioso, pode ser traduzido num profundo respeito às mais diferentes crenças e plena liberdade de expressão das diferentes tradições religiosas.

Essa é nossa opinião, de que nenhum plano de governo, nenhuma tendência deveria receber respeito e apoio, se não estiver sustentada por essa real característica de respeito ao seu povo, o respeito pelas diferentes crenças que o inspira no seu sentimento do sagrado.

*Walmir Damasceno, 51, é jornalista e bacharel em Direito, especialista em Educação para as Relações Étnico-Raciais, ex-coordenador de Politicas de Promoção da Igualdade Racial do Município de Itapecerica da Serra-SP, ex-assessor especial do Gabinete do Secretário de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia. É Taata Kwa Nkisi Katuvanjesi (pai de santo), dirigente tradicional de Terreiro de Matriz Africana Bantu (candomblé congo-angola) e coordenador nacional do Ilabantu.





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