quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Música, Cinema e Religião - as principais práticas culturais do brasileiro

Estudo realizado durante o biênio 2013-2014, o Panorama Setorial da Cultura Brasileira, traz o cenário do consumo de cultura no Brasil.

A indústria criativa está entre os mais dinâmicos setores do comércio mundial, segundo relatório lançado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD). 

Sua atividade econômica, a chamada 'Economia Criativa', é considerada eixo estratégico de desenvolvimento para diversos países, entre eles o Brasil, que hoje conta com a Secretaria da Economia Criativa, ligada ao Ministério da Cultura. 

Os agentes produtivos dessa cadeia, no entanto, muitas vezes estão tão imersos na prática que acabam por criar sem conhecer seu público, levando a um círculo vicioso de produção segmentada e descolada da realidade, ou ainda, restrita a alguns nichos. 

Tendo em vista o fomento ao desenvolvimento desse setor produtivo, a partir de informações e dados sólidos que possam apontar caminhos, tendências e realidades mais consistentes para os produtores culturais, as pesquisadoras Giselle Jordão e Renata Allucci, com o apoio do Ministério da Cultura e da Vale, produziram a segunda edição do Panorama Setorial da Cultura Brasileira, voltado para o estudo dos hábitos do consumidor de cultura no Brasil.

Na pesquisa atual chama a atenção o fato de que, pelos dados interpretados e de forma geral, o consumo de atividades culturais ainda é realidade distante da maior parte dos brasileiros. 

Por exemplo, quando perguntados sobre as práticas culturais realizadas fora de casa no último um ano, menos da metade da amostra respondeu ter realizado alguma atividade fora de casa, sendo que apenas 5% responderam ter frequentado bibliotecas, 6% visitado cidades ou igrejas históricas e apenas 9% foram ao teatro. 

Já entre as atividades culturais mais citadas, a campeã é frequentar alguma religião, resposta de 42% dos entrevistados, seguido de cinema, com 38%.  

De certa forma, o estudo conclui que a prática religiosa realiza as necessidades de inclusão social e, pela representatividade na pesquisa, reforça diretamente sua concorrência com as práticas culturais. Essa constatação é interessante, mas revela apenas uma parte da realidade do consumo de cultura no país. 

Algo interessante de se observar no extenso e profundo estudo realizado pelas autoras Gisele Jordão e Renata Allucci, é a ênfase nas atividades culturais realizadas fora de casa, como idas ao cinema/teatro, restaurantes, festas religiosas e shows. 

O que chama a atenção é que a pesquisa sobre o consumo de cultura através de radiodifusão ou internet não estava em foco no estudo, apesar de essa ser uma realidade em um país que, por conta da baixa renda da população e da distância dos grandes centros urbanos, tem nesses meios um importante canal de acesso não só à informação mas ao entretenimento cultural. 

Das atividades praticadas, 'Ouvir música' é a mais apreciada (36% no Brasil), seguida 'Ir ao Cinema' (35%), 'Assistir à TV' (31%), 'Ouvir rádio' (26%) e 'Acessar a internet' (22%). Todas as atividades realizadas fora de casa vem depois, lideradas por 'Ir a Shows de música popular' (19%). 

Também relevante nos dados da pesquisa é a constatação da forte e decisiva influência familiar nos praticantes de cultura, sendo o inverso também verdadeiro. Ou seja, quanto mais incentivo ou exemplo familiar se tem, infinitamente maiores as chances de hábitos com a cultura. 

Atrelado à isso, os benefícios esperados de uma atividade cultural pelo consumidor refletem a característica de "sociabilidade" promovida por uma prática cultural, tendo como principais fatores 'Ser divertido' (21%) e 'Provocar fortes emoções' (20%). 

O caráter social das práticas culturais pode explicar o enfoque da pesquisa em atividades realizadas fora de casa e, possivelmente, mais identificadas como "coletivas" em portanto, mais "divertidas" pelos entrevistados. 

Ao mesmo tempo, o estudo reforça que a cultura não é associada à diversão ou à informação, sendo ainda muito associada à erudição para a maioria dos entrevistados. Isso reflete uma realidade de constante distinção, infundada, entre a "alta" e a "baixa" cultura no Brasil, e que não nos permite avançar na produção cultural em vários aspectos, dado que ainda debatemos o que é ou não valor cultural em dada prática ou produto. 

Certamente, o Panorama trará luz para essa discussão, não só com novos e importantes números relacionados ao consumo de cultura no Brasil, mas também com as contribuições de nomes de peso como Bernhard Lahire, Ana Rosas Mantecón e John Sinclair, entre outros, cujos Ensaios constituem quase metade da íntegra do estudo.


disponível através do link-http://www.panoramadacultura.com.br




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