segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O desterro da teologia – Por Frei Bento Domingues

Agradecendo a hospitalidade do Público, retomo estas crónicas, de registo teológico, marcadas pelas vicissitudes do Evangelho no tempo, nos labirintos da história. 

Calcula-se que os seres humanos, como animais diferentes, dotados de autoconsciência, de capacidade ética e estética, de linguagem simbólica e abstracta, surgiram muito tarde, num universo com 13 biliões de anos.

Ao contrário dos outros animais, manifestaram-se não apenas com espírito crítico, vigilante, mas como seres religiosos, rebeldes contra o destino, pouco adaptados à morte e preocupados com a sorte dos mortos. A religião surge como a suprema rebeldia contra o destino. A consciência do limite é uma fonte de boas ou conflituosas relações com a natureza, com os outros e com o fundo misterioso de tudo, com o Transcendente.

Ao falar de registo teológico é para dizer que não tenho a fé de um ateu, nem a resignação de um agnóstico, atitudes altamente respeitáveis. Sei que a palavra Deus precisa de ser continuamente lavada e resgatada dos seus repetidos usos ridículos e criminosos, tanto no passado como no presente, mas não renuncio a ela. Na nossa cultura, o melhor e o pior é sugerido por essa palavra e por nenhuma outra com a mesma eficácia.

O grande filósofo do uso moderno da razão, I. Kant (1724 -1804), depois da crítica das chamadas “provas da existência de Deus”, reconheceu que a razão não é tudo no conhecimento humano. Esta tem a estranha particularidade de suscitar questões que não pode resolver. No final da Crítica da Razão Pura deixou-nos este testemunho: 

“A fé num Deus e num outro mundo está tão entrelaçada com o meu carácter moral, que se corro pouco perigo de perder este último, tão-pouco receio que a primeira me possa ser alguma vez ser arrancada”.   

Tenho amigos que lamentam a minha teimosia em me manter fiel ao registo teológico, mesmo depois de já ter feito repetidas apologias da chamada teologia negativa que só consente afirmações acompanhadas de negações radicais, assim como da ideia de Tomás de Aquino: Deus só é “conhecido como desconhecido”. 

Eu deveria escolher o registo da espiritualidade e da mística, menos contaminado pelas juras de ortodoxia à doutrina católica oficial e aos seus dogmas.

Não vou por aí. É verdade que nunca aceitei situar a minha modesta prática teológica sob o manto da teologia dogmática ou sistemática. Nunca me esqueci da confissão de Tomás de Aquino, místico, poeta, biblista, filósofo e teólogo, no fim da sua vida breve e extraordinariamente fecunda: “parece-me palha tudo que escrevi”.

Não me sinto mal no caminho da “teologia do fragmento”, do provisório. Sou alérgico às declarações classificadas como definitivas, irreformáveis de certo estilo de magistério eclesiástico. 

Em sentido contrário, não sou menos alérgico ao relativismo, ao vale tudo! Somos filhos do tempo, na escola de todas as épocas, lugares e culturas. 

O Verbo fez-se e continua a fazer-se “carne”, fragilidade humana no tecido dos múltiplos e contraditórios sinais dos tempos antigos e no mundo contemporâneo.

É talvez por isso que nunca me resignei ao “desterro da teologia”. Esta consiste no esforço de pensar e questionar as representações fé e da moral, para não se cair na idolatria das suas fórmulas e práticas. A teologia deve ajudar a criar, no espaço eclesial, condições para que a palavra seja reconhecida a todos e não confiscada por nenhuma hierarquia. Todos somos Igreja.

Se a teologia foi “desterrada” da cultura moderna é por ter sido considerada inimiga da razão, da filosofia e de todos os modos de criatividade humana. Nas Igrejas, ao ser instrumentalizada pelo poder eclesiástico, perdeu o carácter de instância da liberdade da fé e das suas expressões mais genuínas. O autoritarismo desvirtuou a sua função na Igreja e tornou-a incapaz de dialogar com a sociedade, de a fecundar e ser fecundada por ela.

Ch. Duquoc descreveu e discutiu as condições para que a teologia possa enfrentar o desafio da sua sobrevivência na cultura contemporânea [1].

 O cristianismo não se reduz a uma moral social ou política. Morrerá ao resignar-se a ser unicamente uma forma de validar religiosamente os princípios que a grande maioria aprova e pouco pratica. 

Desmarcar-se, sem desprezar, profetizar sem condenar, definir um território original sem se fechar ao intercâmbio democrático, manter-se próximo e respeitador das vítimas, muitas vezes trágicas, do sofrimento e da injustiça, abster-se de formular uma cosmovisão global ou uma explicação totalitária, assinalar a insatisfação dos desejos e do vazio no coração da vida pessoal e da história, não como factos negativos, mas como incitamentos à criação, podem ser tarefas da teologia.

O  teólogo tem de abandonar a mania dos monopólios. É uma voz entre outras. Não deve renunciar à sua originalidade nem ao seu desejo de não atraiçoar a revelação bíblica. Espera que o desterro da teologia não o encerre numa solidão estéril. 

Estas crónicas têm vivido sempre no espaço laico, com a liberdade que o Público lhes oferece e com a liberdade cristã a que não renuncio. 

[1] Christian Duquoc, O.P., La théologie en exile. Le défi de sa survie dans la culture contermporaine. Bayar, Paris, 2006.



Nenhum comentário: