segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Para analistas, conservadorismo na campanha não é apenas religioso – Por Lúcia Müzell

Marina Silva acabou trazendo o tema do casamento gay para a campanha eleitoral.

A pouco menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, temas polêmicos da sociedade voltam, como em 2010, a ocupar um lugar de destaque na campanha eleitoral. 

Há quatro anos, o debate sobre o aborto concentrou as atenções, e agora é vez de os candidatos se explicarem sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia.

Na esteira da polêmica sobre as mudanças no programa de governo da candidata Marina Silva (PSB) sobre esses assuntos, uma pesquisa divulgada pelo Ibope na semana passada apontou que 53% dos brasileiros são contrários ao casamento gay e 79% se opõem à legalização do aborto e da maconha. 

Na avaliação do cientista político Paulo Sérgio Peres, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), a religiosidade da população explica apenas em parte o interesse por estes temas, na hora de o eleitor escolher um candidato.

“Os dados mostram um conservadorismo ligado às religiões, não apenas as pentecostais, embora elas sejam mais incisivas e militantes. Mas existe um conservadorismo que vai além do fator religioso. A sociedade se mostra bem dividida”, observa o pesquisador.

Para não desagradar nem uma parcela nem outra do eleitorado, os candidatos acabam tergiversando sobre as questões que envolvem a moral. 

“A dificuldade dos candidatos, principalmente o Aécio Neves e a Dilma Rousseff, é que se eles adotam uma postura mais incisiva, descontentam uma parcela gigantesca do eleitorado. Então eles ficam em um jogo dúbio”, afirma Peres. 

Ele lembra que, após o recuo de Marina Silva sobre os direitos dos homossexuais, a presidente agora defende a criminalização da homofobia, mesmo se a pauta.

Em cima do muro

O cientista político Francisco Fonseca, da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que o conservadorismo é uma marca do eleitorado brasileiro. Por isso, por mais que, pessoalmente, os candidatos defendam propostas diferentes das que apresentam, eles acabam obrigados a se inclinar ao que dizem as pesquisas de opinião sobre os temas polêmicos da sociedade.

“Há uma homofobia aberta e velada no país, assim como há racismo, machismo, embora tudo isso seja combatido por leis, instituições e movimentos sociais. As questões morais fazem parte do universo brasileiro. Não são o fator mais importante na escolha do voto, mas têm, sim, uma importância considerável para muitas pessoas”, afirma. 

Porém o professor sublinha que, ao mesmo tempo, há uma camada crescente da população urbana que adere às posições mais progressistas, fazendo um contraponto ao voto conservador. 

“É como se ainda houvesse dois mundos na sociedade brasileira: um marcado pela tradição conservadora e outro pós-moderno.”

Esse cenário, de uma sociedade em transformação, faz os candidatos “dançarem conforme a música”, em busca de mais votos. 

“O Brasil tem uma sociedade em mudanças, contraditória, complexa e que está passando por grandes transformações, a começar pela redução da miséria e a emergência da nova classe C. Tudo isso alimenta um embate político muito forte”, observa Fonseca. 

“A candidata Marina Silva reflete bem isso: ela é moderna em determinados segmentos, como a questão ambiental e o discurso da ‘nova política’. Mas ela e o seu programa são profundamente reacionários no que diz respeito a direitos civis e individuais.”

Ataque a adversários

Os dois especialistas avaliam que a economia ainda é o tema que mais suscita interesse do eleitorado brasileiro, mesmo que tenha de ser traduzido para o cotidiano da população de baixa escolaridade. 

Paulo Sérgio Peres ressalta que os assuntos de comportamento são inseridos na agenda como arma para demonstrar as fraquezas do adversário.

“Não há pesquisas que mostrem, de maneira muito clara, quais são os temas determinantes no comportamento eleitoral do brasileiro. Sabemos que a economia tem um peso fundamental e que o eleitor vota com o bolso, de certa forma”, afirma.


O professor da UFRGS lembra que, em 2010, os temas econômicos prevaleceram até que os temas de ordem moral vieram à tona, trazidos por José Serra, que sentia dificuldade em contestar os bons resultados econômico do governo Lula. 

“E agora isso está se repetindo: estamos vendo que as questões morais podem até reconfigurar a disputa. Mas agora é o PT quem está levantando essas questões, se aproveitando do escorregão da Marina sobre a homofobia e o casamento entre homossexuais.”




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