quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Teólogos defendem reforma ‘feita de baixo’ e maior protagonismo das mulheres na Igreja – Por Marcela Belchior

Uma reforma da Igreja Católica com vistas a superar discriminações, exclusões por razões de gênero, religião, cultura, etnia, classe social, orientação e opção sexual, procedência geográfica e relações de casais; que crie uma comunidade acolhedora, solidária e samaritana, onde caibam todas e todos. 

Estas são as propostas dos teólogos reunidos no 34° Congresso de Teologia, realizado de 04 a 07 de setembro, em Madrid, capital da Espanha, com o tema: 

"A reforma da Igreja a partir da opção pelos pobres”

O evento reuniu pessoas de diversos países e continentes, culturas e religiões, que construíram uma reflexão conjunta e experienciaram uma convivência fraterno-sororal, diálogo e troca de ideias. No documento final do Congresso, a comunidade participante aponta caminhos para uma renovação da instituição religiosa, a partir da seguinte indagação: "Jesus fundou a Igreja?”. 

"A resposta é que iniciou uma comunidade de iguais, um movimento de homens e de mulheres, que o acompanharam e se comprometeram na construção do Reino de Deus como Boa Notícia para os Empobrecidos”, expõe o documento.

Esse movimento, destaca o documento, continuou em comunidades cristãs com responsabilidades compartilhadas e especial protagonismo das mulheres. Eram elas que tomavam as decisões com a deliberação de todos os membros e se tinha como ideal a comunidade de bens. 

"Com o passar do tempo, esse ideal foi desfigurando-se até desembocar em uma Igreja aliada ao poder, clerical, piramidal e patriarcal, embora houvesse sempre coletivos que trabalharam pela reforma e o retorno ao ideal evangélico de vida”, aponta.

A reforma da Igreja seria uma resposta aos desafios do nosso tempo, requerendo a prática da democracia, o reconhecimento e exercício dos direitos humanos, entre estes os direitos sexuais e reprodutivos. Indica como primordial também a retomada de um governo sinodal, vigente durante os primeiros 10 séculos do Cristianismo, com a participação da comunidade laica, que é a base da Igreja.

Atuações no compromisso com os vulneráveis

Esses princípios, de acordo com o documento final do Congresso, seriam traduzidos no respeito à laicidade, na crítica do poder e no compromisso com os setores mais vulneráveis. 

Seria convertido ainda na denúncia do neoliberalismo, que o Papa Francisco tem qualificado de "injusto em sua raiz” e que fomenta uma economia de exclusão, uma globalização da indiferença, uma nova idolatria do dinheiro, um meio ambiente indefeso diante dos interesses do mercado divinizado, além de uma incapacidade para compadecer-se diante dos clamores dos outros.

Soma-se a isso o apoio a alternativas políticas e econômicas propostas pelos fóruns sociais. 

"A reforma tem de ser feita desde baixo, desde a base social e eclesial, e exige uma nova localização: situar-se no lugar e ao lado dos excluídos do sistema, que são escandalosamente maioria na população mundial e que estão crescendo por razão da crise. Requer, da mesma maneira, um horizonte que a oriente: a Igreja dos pobres, e um princípio ético-evangélico a seguir: a opção pelos pobres”, aponta.

O 34° Congresso de Teologia reuniu opiniões, testemunhos e interpelações das igrejas do Pólo Sul mundial, sobretudo as procedentes da África e da América Latina, que refletem sua riqueza cultural, seu potencial libertador e suas propostas de reforma. Essa escuta, para a organização do Congresso, implica numa mudança na maneira de pensar, de viver, de produzir, de relacionar-se o Norte com o Sul do planeta, criando uma relação não opressora e não colonizadora, mas de cooperação mútua.






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