sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A morte e a perspectiva teológica - Por Padre Robison Inácio


A fé nos situa no mundo de modo diferenciado e nos capacita para compreender a impotência humana frente ao mistério da morte. 

Vivemos em uma época marcada pelo materialismo e pelo apego a tudo o que é fugaz.

É crescente o número de pessoas que têm pavor só de ouvir falar sobre a morte. Na verdade, o medo de falar sobre a morte revela uma certa inaceitação diante desse mistério inevitável. Esse medo revela também a tentativa de ignorar uma passagem importantíssima, que não é apêndice, mas sim fecho, acabamento da vida terrena. 

Quem não pensa sobre o fim da vida terrena não tem condições de desenvolver a existência, em vista da plenitude. Um olhar espiritual lançado sobre a realidade terrena nos permite dizer que o provisório deste mundo nos prepara para a eternidade do mundo vindouro. Para os crentes, a vida neste mundo consiste na aceitação da constante tensão entre o provisório e o eterno.

Só Deus pode nos levar ao céu e nos fazer convivas do Banquete Eterno. Somos salvos pela graça, que torna possível o que as nossas boas obras, isoladamente, não conseguiriam lucrar. No caminho em direção ao céu somos ajudados por Aquele que é Senhor do céu e da terra e estabeleceu seu Filho Unigênito como pontífice (ponte) entre a realidade terrena e a realidade celeste. 

Deus nos quer salvos, nos quer em estado de céu, por isso Ele se dispõe a nos tomar pela mão e a nos levar. Nossa atitude deve ser a de entrega não relutante, serena e tranquila. 

Diante do mistério da morte e do mal, o crente não resiste, não reluta. Sua confiança no Deus que liberta e ressuscita aos que O amam o leva a aceitar esses mistérios com serenidade. Só o crente, provado na fé, é capaz de aceitar a morte com resignação. 

A Bíblia nos ensina que a morte, após a o pecado de nossos primeiros pais, tornou-se a conclusão natural da etapa terrena da existência e que não temos morada definitiva aqui neste mundo (Hb 13, 14).

Na Comemoração dos Fiéis Defuntos faz-se necessário dizer que nós cristãos católicos, consideramos a afirmação de Santo Agostinho: “não cultuamos os mortos, mas sim a memória deles.” 

Na liturgia da Igreja experimentamos a realidade da comunhão dos santos e celebramos a memória dos mortos na eterna memória de Deus. O filósofo francês, de tradição protestante, Paul Ricoeur afirma, em uma de suas obras, que “ressuscitar é permanecer vivo na memória de Deus.” 

Certos de que a Ressurreição de Jesus é um fato, celebremos a morte com pesar e com espírito de penitência; e esperemos pelo fato que marcará, positivamente, a consumação de nossa história pessoal, no dia juízo final: a Ressurreição.

Enfim, quando compreendemos a teologia do mistério da morte, entendemos que a morte possui uma dimensão natural e outra sobrenatural e torna-se mais razoável aceitá-la. 

Nesse gradual trabalho de aceitação, a fé torna-se indispensável, embora ela não nos isente de sentir a dor ocasionada pela morte de uma pessoa que nos é querida. 

A fé, enquanto virtude teologal, nos ajuda a compreender e a aceitar a provisória separação entre nós, que aqui estamos, e aqueles que já fizeram a passagem definitiva para eternidade. Que os fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz! 





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