quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Cemitérios proíbem cultos afro – Por Francisco Edson Alves



As administrações de cemitérios do Rio de Janeiro estão orientando seus funcionários a não permitir que adeptos de religiões de matrizes africanas façam cultos nos túmulos em homenagem a seus parentes. 

A denúncia, constatada nesta quarta-feira pelo DIA , é da mãe de santo Rosiane Rodrigues, de 42 anos, que no domingo, conforme vídeo postado em seu perfil numa rede social, foi barrada por um servidor no portão do Cemitério de Ricardo de Albuquerque. 

No local, em companhia de duas filhas, ela iria fazer uma oferenda nos jazigos perpétuos de seus avós e da mãe, enterrados lá desde 1950. 

A orientação desobedece o Decreto Municipal 39.094, assinado pelo prefeito Eduardo Paes no dia 12 de agosto deste ano, no qual, em um de seus artigos, o 3º, lê-se: “Nos cemitérios não se permitirá (...) o desrespeito aos sentimentos alheios e a convicções religiosas”.

Praticante do candomblé, Rosiane não entendeu a proibição: “Para minha surpresa, quando fui entrar com comidas caseiras, frutas, canjica, pipoca, velas e refrigerantes, o funcionário trancou o portão, disse que eu não podia entrar, ‘por ordem superior’. Fiquei arrasada, pois há anos faço o mesmo ritual. Me senti humilhada.” 

Ela percebeu que outras pessoas também tinham sofrido o mesmo tipo de impedimento. “O funcionário é inocente, só obedece ordens”, esclareceu. 

Rosiane conta que, indignada, ligou para a Polícia Militar (190), conforme o protocolo 30112014/16889. “Mas o atendente disse que ‘era assim mesmo’, insinuando que eu deveria me conformar com a situação. Esperei a viatura por horas, ninguém apareceu”, revela Rosiane. Hoje, ela deverá formalizar a denúncia do ocorrido junto ao Ministério Público. 

O vídeo produzido por uma amiga dela, de um minuto e seis segundos, já tinha ontem à noite mais de 56,8 mil visualizações e centenas de comentários numa rede social, repudiando a situação. Um funcionário do Cemitério de Ricardo de Albuquerque atendeu a ligação do DIA e confirmou a orientação de impedir a realização de cultos afro: 

“Existe essa recomendação (de barrar oferendas), sim, mas só os administradores, que não estão no momento (início da noite), podem falar”, argumentou o funcionário.

Outros locais também têm restrição

A restrição dos cemitérios a rituais religiosos de origem africana foi comprovada em ligações feitas pelo DIA. Num dos maiores cemitérios da América Latina, o São Francisco Xavier, no Caju, um funcionário, sem saber que estava falando com a reportagem, deu informações sobre a proibição e ainda orientou como um grupo poderia agir para enganar os seguranças particulares. 

“Se eles (seguranças) virem pessoas (vestidas) de branco, não vão consentir. Mas faz o seguinte: entrem separados, com as oferendas em sacolas discretas. Lá no final do cemitério tem o cruzeiro das almas. Aí façam (as homenagens) por lá. Ou então tente falar com a chefia da segurança”, comentou ele. 

Especializada no estudo de relações étnico-raciais, Rosiane Rodrigues, que também é professora e jornalista, lembrou dos esforços que a maioria das religiões têm feito contra a intolerância religiosa no Rio de Janeiro. 

“Temos conseguido grandes avanços através do diálogo, da compreensão, da unidade. A Sétima Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, em setembro, reuniu cerca de duas mil pessoas na orla de Copacabana. Não podemos sofrer um retrocesso desse porte”, disse. 

Rosiane faz crítica ainda à lenta aplicação da legislação federal que obriga a inclusão do ensino da história das culturas afro-brasileiras e indígena no currículo das escolas. O tema é abordado no livro: ‘Nós do Brasil’, que ela lançou em maio.

A denúncia feita por Rosiane Rodrigues causou indignação e revolta nos líderes de religiões de matrizes africanas. O babalorixá Jorge Luiz Amaral, mais conhecido como Pai Omulu, presidente do grupo Axé Xapanã, disse que a intolerância, a discriminação e o constrangimento têm sido violências enfrentadas constantemente pelos adeptos dessas crenças. 

“Já sofremos demais com a perseguição de traficantes, de parte da polícia e de pessoas intolerantes nos terreiros e encruzilhadas. Mas isso é culpa principalmente dos nossos governantes, que não investem em um trabalho educacional sobre o respeito entre os praticantes da vasta quantidade de religiões que temos. Isso forma nosso maravilhoso sincretismo religioso”, desabafou. 

Jorge Mattoso, secretário da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, convidou Rosiane para ser ouvida pelos membros da entidade na semana que vem: “Vamos, inclusive, denunciar o caso internacionalmente”, adiantou.

Santa Casa não responde 

A assessoria do Consórcio Reviver, que venceu recentemente licitação para cuidar de sete cemitérios públicos, entre eles o de Ricardo de Albuquerque, argumentou que a empresa não poderia comentar o assunto, pois oficialmente ainda não assumiu o controle das concessões. 

Francisco Horta, novo provedor da Santa Casa de Misericórdia, que perdeu a administração dos cemitérios depois de décadas, mas que ainda responde por eles durante o atual período de transição, disse que não poderia dar entrevista pois estava “em reunião”. A advogada da instituição, Paula Araújo, não retornou os recados deixados na caixa postal de seu telefone celular. 


Já a Polícia Militar, questionada sobre a conduta do agente que atendeu Rosiane Rodrigues no domingo pelo 190, deverá responder hoje se vai abrir inquérito ou não para apurar o fato. Segundo a corporação, os policiais são sempre orientados a atender com presteza e rapidez qualquer tipo de chamada pelo telefone 190.



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