segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O padre que desafiou a igreja - Por Ivan Longo


Conheça as ideias de Padre Beto, religioso de Bauru (SP) excomungado recentemente pelo Vaticano. 

Entre seus posicionamentos polêmicos está o apoio ao casamento homoafetivo e o questionamento à moral e dogmas da religião.

Há quinze anos no sacerdócio, o padre Roberto Francisco Daniel, mais conhecido como Padre Beto, amadureceu tanto sua visão de mundo ao longo do tempo que chegou ao ponto de não temer se expressar e colocar em risco sua reputação como religioso e sua posição dentro da igreja. E assim o fez. 

Natural de Bauru, no interior de São Paulo, onde exerce, desde o início, sua função como padre, o religioso se afastou das atividades eclesiásticas em abril do ano passado, quando começou a circular na internet o vídeo de uma entrevista em que ele se coloca a favor da união homossexual e questiona dogmas da igreja católica.

No dia 16 deste mês, a Diocese de Bauru publicou em seu site um comunicado que informava sobre a oficialização da excomunhão do padre, determinada pelo Vaticano. A partir de agora, ele fica proibido de rezar missas ou conduzir cerimônias religiosas em nome do catolicismo. 

“Nunca esperava por uma excomunhão. Por que a palavra excomunhão é muito forte. A excomunhão não é simplesmente a exclusão, é a pena capital. O excomunhado na idade média era executado. No século passado, era uma pessoa que não tinha vida social, não podia ser enterrado em cemitério normal”, diz.

Apesar de ter sido pego de surpresa pela punição, o padre não pretende voltar a falar em nome da igreja católica. “Para a igreja católica eu não volto mesmo”, afirma. 

Autor do livro: Jesus e a sexualidade, Revelações da Bíblia que você nunca viu, que afronta teses como a de que Jesus Cristo não tinha sexualidade e questiona a maneira como o catolicismo trabalha essas questões, o clérigo, agora não mais “oficial”, acredita que os tabus impostos pela religião contribuem para a intensificação da intolerância contra os homossexuais. 

“Mesmo aqueles que não frequentam a igreja, conhecem a doutrina católica e acabam sendo contaminados com isso no ambiente familiar”, coloca.  

“A postura da igreja católica é, portanto, homofóbica dissimulada. Ela diz assim: ‘eu aceito o homossexual, mas esse homossexual está convidado à castidade pois não aceitamos a homossexualidade’”, analisa.

O padre paulista, formado em Direito, História e Teologia e doutorado em Ética Social na Alemanha, acredita, contudo, que as questões de sexualidade serão mais discutidas dentro da igreja católica. 

“Ela terá que rever tudo isso para não se tornar, ainda mais, uma igreja contraditória. E não digo nem que deva ter preocupações de perder fiéis, mas a preocupação maior é a coerência. Veja bem, nós vivemos em um país onde mais de 50% das famílias são ‘famílias mosaico’, isto é, aquelas que não estão naquele molde familiar que a igreja prega”, conclui.

Confira a íntegra da entrevista:

Fórum – Você já tinha esse posicionamento em relação à união homossexual ou amadureceu depois que entrou no sacerdócio?

Padre Beto – Amadureci. No caso do casamento gay, foi mais tarde. Entrei para o seminário em 1989 e nessa época nós não tínhamos nos confrontado ainda com essa realidade. Tínhamos outras discussões como, por exemplo, o divórcio. Eu me lembro muito bem que, como seminarista, havia discutido de forma bem calorosa em sala de aula com o meu reitor: eu defendendo que os casais de segunda união tinham o direito de união religiosa, de recomeçar a vida, e ele defendendo que não. Então, nós tínhamos outras realidades da moral sexual da igreja, mas o casamento gay foi surgindo com o passar do tempo.

Tenho 15 anos de sacerdócio. Portanto, são 15 anos de confissão. E no catolicismo, normalmente, na confissão, o que vem à tona é relacionamento e sexualidade. Basicamente é isso. E aí a gente foi se confrontando também com essa realidade, de pessoas homossexuais que têm seus parceiros mas que se sentem em pecado. A contradição começou, então, a ficar muito clara: como essas pessoas podem se sentir em pecado se não estão praticando nenhum ato de desamor à vida e a elas próprias?

Fórum – Aqui em São Paulo, onde exerce seu sacerdócio, havia discussões internas na igreja em relação a isso?

Padre Beto - Na diocese em que trabalhei [Bauru] os padres nunca foram abertos a uma discussão interna. Acredito que muitos pensam como eu, mas têm um medo muito grande de expor suas ideias mesmo entre os seus e frente ao bispo. Então, nunca tivemos dentro do clero mesmo uma oportunidade de discussão dessas questões. Mas eu sempre procurei refletir – não modificar – com as pessoas de um modo geral, inclusive nas redes sociais. Porque acredito que a discussão não deve ficar reduzida a uma cúpula. A discussão tem que ser feita pela igreja de uma forma geral, pra que as pessoas amadureçam.

Fórum – O seu posicionamento teve mais repercussão no ano passado, depois do vídeo que circulou nas redes. Mas antes você já havia se posicionado publicamente sobre essa questão?

Padre Beto – Já, com certeza. A gente já vinha tocando em vários pontos. Até porque a moral sexual da igreja, não só em relação aos homossexuais, mas também em relação aos heterossexuais, é uma moral muito atrasada. Por exemplo, a igreja condena os métodos contraceptivos, a igreja condena a masturbação, a igreja condena o sexo antes do casamento, a igreja condena mesmo o sexo casual. Ela condena uma série de coisas que os leigos vivem, mas vivem numa hipocrisia. Vivem como se não vivessem.

Fórum – Por que, em sua opinião, a questão da sexualidade ocupa um papel de centralidade entre os dogmas da igreja?

Padre Beto - É uma pergunta que sempre me fiz. Porque a sexualidade e, especificamente, a homossexualidade, que é um tabu, é um tema mal discutido, mal resolvido dentro da igreja? Tenho a impressão de que a gente vem de uma herança que não vem de Jesus Cristo, mas é uma herança da filosofia histórica introduzida por Paulo, no cristianismo, e depois uma herança platônica, introduzida por Augustini. E essas teologias influenciadas por essas filosofias acabaram demonizando a sexualidade no ser humano, e então reduzindo essa sexualidade à heterossexualidade, não reconhecendo nenhuma forma de diversidade sexual. Isso foi passando de geração em geração sem ser conversado, debatido. E hoje temos sociedades mais abertas à discussão. Essa contradição, então, começa a vir à tona.

Fórum – Até que ponto você acredita que os dogmas da igreja contribuem para o acirramento da intolerância contra os homossexuais, inclusive fora do âmbito religioso?

Padre Beto - Contribuem totalmente pela força da religião em si. Mesmo aqueles que não frequentam a igreja conhecem a doutrina católica e acabam sendo contaminados com isso no ambiente familiar. A igreja católica contribui não para uma humanização da sociedade, mas para o cultivo de uma homofobia. Graças à criação católica que as pessoas recebem, mesmo não frequentando a igreja, acabam sendo homofóbicas. E o próprio homossexual acaba criando nele um conflito muito grande, porque ele acaba vendo dentro de si um demônio. Sua libido acaba se tornando uma doença.

A postura da igreja católica, nesse sentido, é uma postura homofóbica dissimulada. Por que ela diz assim: “eu aceito o homossexual, mas esse homossexual está convidado à castidade. Porque não aceitamos a homossexualidade”. É a mesma coisa que dizer para um negro: “Olha, nós aceitamos você mas não aceitamos a sua negritude, sua cor. Então você tem que fazer chapinha no cabelo, ter ‘alma branca’, se comportar como qualquer branco da sociedade”. É mais ou menos por aí. Uma homofobia dissimulada. Nós aceitamos a pessoa como se a pessoa tivesse dissociada de sua sexualidade.

Fórum – Desde que começou a expressar seu posicionamento e questionar dogmas da igreja, você esperava que isso pudesse o levar à excomunhão?

Padre Beto - Olha, nunca esperava uma excomunhão. Porque a palavra excomunhão é muito forte. A excomunhão não é simplesmente a exclusão, ela é a pena capital. O excomungado, na Idade Média, era executado, era queimado na fogueira. O excomungado no século passado era uma pessoa que não tinha vida social, não podia ser enterrado em cemitério normal, porque cemitério era “Campo Santo”. Então, a excomunhão tem um peso muito forte. Eu nunca esperaria da igreja uma excomunhão. Talvez um ano sabático, como a gente fala, para eu “repensar minhas ideias”, um afastamento do sacerdócio…. Mas nunca uma atitude tão drástica desse tipo.

Fórum – E agora o que você pretende para o seu futuro? Vai continuar atuando no âmbito religioso?

Padre Beto - Meu futuro está bem aberto. O que eu pretendo fazer é continuar como religioso. Eu me sinto padre, sou vocacionado para o sacerdócio, entrei com 27 anos e muito consciente da minha vocação. Então continuo sendo padre, só que fora da igreja católica. Eu não posso entrar numa igreja, participar de uma missa com um leigo normal. Por isso, não pretendo voltar à igreja católica mesmo. Essa ratificação do Vaticano não mudou em nada a postura que venho tendo desde o ano passado. Pretendo continuar atendendo as pessoas como padre, as pessoas me veem como padre, me convidam para celebrações de casamento… Continuo indo, não em nome da igreja católica, mas em nome de deus. Continuo atendendo as pessoas nos hospitais, atendendo velórios. Enfim, continuo meu ritmo normal de vida e trabalho como docente nas universidades. Esse é meu planejamento para um futuro próximo.

Fórum – Na sua paróquia de Bauru havia a frequência de homossexuais, até por saberem de sua posição?

Padre Beto - Sim. É difícil quantificar isso, mas existia, sim, a presença de homossexuais como também havia a presença de casais de segunda união. Porque nunca neguei a comunhão para esses casais. Sempre tentei tratar as pessoas como pessoas, ponto final. Não sou aquele que vai julgar as pessoas. Até porque o homossexual não precisa nem ser julgado. Mas no caso de segunda união dos heterossexuais, quem sou eu pra julgar o fim de uma união e o início de outra?

Fórum – Muitos têm o Papa Francisco como um Papa progressista, aberto aos diálogos com os mais diferentes setores da sociedade, o que sinalizaria uma igreja mais tolerante com minorias. Qual a sua opinião a respeito do Papa, uma vez que sua excomunhão foi ratificada pelo Vaticano? Acredita que essa atitude o faça entrar em contradição?

Padre Beto - Olha, realmente, o texto que saiu da Diocese me deixou com dúvidas. Porque quem assina o texto é o juiz que me julgou e ele cita somente a Santa Sé. Ele não cita a autoridade que ratificou minha excomunhão. Então, ficamos na dúvida se essa excomunhão foi assinada pelo Papa Francisco ou se ela foi assinada, mas não lida e investigada pelo Papa, ou se foi, de fato, assinada por ele. Não tive acesso ao documento ainda e nem sei se vou ter. Não recebi absolutamente nada da igreja comunicando minha excomunhão. Soube como vocês souberam.

Se o Papa Francisco realmente ratificou, acredito que ele está entrando em contradição, porque vem sinalizando, sim, talvez não uma igreja que vá abrir para o casamento homossexual, mas uma igreja que está aberta ao diálogo. Ele sempre fala que a igreja é família, uma família que acolhe, que não exclui, e uma família que visa o diálogo. Uma excomunhão é a atitude de quem não quer dialogar, não quer discutir, é de uma igreja que exclui. Então, aí ele estaria cometendo uma grande contradição.

Fórum – Tendo em vista esses novos debates e essas contradições, como enxerga o futuro da igreja católica?

Padre Beto - Fatalmente a igreja vai ter que rever tudo isso, vai ser obrigada. No século XXI, principalmente da década de 60 para cá, a evolução foi muito rápida e está sendo cada vez mais acelerada. Ela [a igreja] terá que rever tudo isso, senão, se tornará muito contraditória. E não digo nem que ela deva ter preocupações de perder fiéis, mas a preocupação maior é a coerência. Ela será uma igreja cada vez mais incoerente na medida em que exclui.

Veja bem: nós estamos em um país onde mais de 50% das famílias são “famílias mosaico”, não estão naquele molde familiar que a igreja prega. A igreja não está sabendo ver a realidade e conhecer melhor essa realidade, e fatalmente vai ter que fazer isso. Quanto ao caso dos homossexuais, vai ter que fazer isso. Não tenho dúvidas de que esse Papa ou, no máximo, o seu sucessor, vai chegar para o grupo LGBT e pedir perdão. Eu não tenho dúvidas. Só que até lá muitos homossexuais ainda vão morrer pela homofobia que existe no nosso país.





Nenhum comentário: