sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Patti Smith, a madrinha do punk, vai cantar no Vaticano. Devemos surpreender-nos? - Por Filipe d'Avillez


Cantou "Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus", mas foi convidada pelo Papa para cantar no Vaticano. 

Contradição? Talvez não: Patti Smith, que estará no Porto em 2015, tem a "Bíblia aberta", diz o pastor e músico Tiago Cavaco.


Quando foi tornado público que Patti Smith foi convidada pelo Papa para cantar no concerto de Natal do Vaticano, que se realiza no sábado, a reacção de grande parte dos mundos religioso e musical foi de choque.

Afinal, Patti Smith, conhecida como a madrinha do punk, tinha cantado em "Gloria", do álbum clássico "Horses" (1975): "Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus".

A ideia de Smith  a cantar para uma plateia recheada de cardeais, bispos e talvez até o Papa chegou a ser apresentada com um exercício de hipocrisia. 

Smith, que se encontrou com o Papa na Praça de S. Pedro, em 2013, não é, de forma alguma, anti-religiosa. Esse facto está patente não só na sua obra, recheada de imagens e letras religiosas, como nas suas próprias afirmações.

"Tive uma educação fortemente religiosa e a primeira palavra no meu primeiro LP é Jesus. Pensei muito. Não sou contra Jesus, mas tinha 20 anos e queria cometer os meus próprios erros, não queria que ninguém morresse por mim. Continuo a apoiar essa menina de 20 anos, mas evoluí", afirmou recentemente, quando questionada sobre a participação no concerto e a famosa frase sobre Jesus.

Antes, numa entrevista à revista "Rolling Stone", aprofundou mais a questão: "Na verdade era uma declaração de identidade e não tanto sobre Jesus. Ele era o veículo, mas estava a declarar a minha existência. Estava a definir o tipo de artista que estava a entrar no domínio do rock & roll e o tipo de artista que eu era". 

Pode-se dizer que Patti Smith é religiosa então? Isso depende de como entendemos o termo.

"Acredito que existem coisas boas em todas as religiões. Mas religião, política e negócios, todas estas coisas se tornaram tão corruptas e tão misturadas com o poder, que na verdade não me interesso por nada disso. Mas interesso-me muito pela condição humana", disse à "Rolling Stone" a artista.

A organização do Primavera Sound anunciou esta sexta-feira a presença de Patti Smith no festival, de 4 a 6 de Junho de 2015, no Porto.

Cantora de "Bíblia aberta" 

Educada como testemunha de Jeová, Smith deixou essa fé, mas continua a ler a Bíblia.

"Tem lá tudo, 
criação, traição, luxúria, poesia, profecia, sacrifício. Não interessa de que religião se é, ou se não se tem sequer religião: estas histórias continuam a ser relevantes para aquilo que as pessoas vivem agora e são passagens de escrita belíssima", disse a artista ao "New York Daily News". 

O músico português Tiago Cavaco, que é também pastor de uma Igreja Baptista e fã de punk rock, não vê qualquer contradição na ida de Patti Smith a Roma e associa-a a este interesse pela Bíblia.

"Nos Estados Unidos as pessoas estão habituadas a ir ao texto bíblico, nem que seja para se zangarem com ele. Mas isso é saudável: irmos ao texto bíblico nem que seja para nos zangarmos com ele. Mais tarde, traz encontros. Hoje a Patti Smith estar a tocar para o Papa tem, sem dúvida, a ver com o facto de ela ter a Bíblia aberta", diz.

Cavaco, que é fã de "Horses" e leu o livro de memórias: "Just Kids" (2010), vai mais longe: a proximidade da cantora com temas religiosos é natural, dado o seu percurso, defende.

"A Patti começou a escrever antes de fazer música e o cristianismo é por excelência uma fé da escrita. Portanto, alguém que escreva, mesmo que não creia, faz todo o sentido que tenha uma relação próxima com o cristianismo, mesmo que não seja uma relação de crença. Uma cantora que é escritora, como a Patti Smith, se aproxime da Igreja, nem que seja em coisas destas, acho absolutamente normal e natural", refere.

"O que me parece é que a Patti Smith é uma pessoa que se apercebe que a religião é uma coisa demasiado importante para ser rejeitada e descartada de maneira fácil", conclui.

Uma obra religiosa 

Não é possível ouvir a obra de Patti Smith sem dar conta das inúmeras referências bíblicas. "Horses" e "Easter". A temática religiosa atravessa a carreira de Smith

Um dos seus álbuns chama-se "Easter" (1978), que significa "Páscoa", e vem acompanhado, no livreto do disco, de uma citação de São Paulo: "Combati o bom combate, acabei a carreira…" 

Na passagem original da Bíblia, onde estão as reticências, lê-se: "Guardei a fé", que a artista poderá ter deixado de fora propositadamente.

No mesmo álbum há uma música inspirada no Salmo 23, cruzes desenhadas à mão por baixo do nome de cada artista que contribuiu para as músicas, bem como uma imagem de Rimbaud e do seu irmão no dia da primeira comunhão.

Noutra música, "Constantine’s Dream", a cantora narra um episódio que se passou durante uma estadia em Itália, quando teve um sonho apocalíptico em que via São Francisco de Assis a chorar. Ao acordar, foi até à igreja mais próxima, para rezar, só se apercebendo mais tarde que era precisamente uma basílica dedicada a São Francisco.

Fica assim claro o que Patti Smith diz em entrevista ao "Seattle Weekly", numa entrevista de 2010 quando questionada sobre o facto de ela e os artistas do seu círculo terem abordado temas religiosos: 

"A história de Cristo presta-se muito à expressão criativa. Quando se pensa nisso, quase todos os grandes artistas meteram Cristo na sua obra." 

E conclui, ressalvando que não tinham relação com nenhuma Igreja em particular: "Sempre tive a minha própria relação com Deus". 

O concerto do Vaticano realiza-se no sábado às 18h00, 19h00 em Roma, no auditório da Via Conciliazione. 

Para além de Patti Smith, que cantará com a sua filha Jesse Paris, actuam Bob Sinclar e a irmã Cristina, a freira que se tornou famosa no programa: "The Voice" de Itália. Os bilhetes custam entre 75 e 250 euros e os fundos revertem para fins caritativos.




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