quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Entidades católicas procuram não religiosos para gestão – Por Anna Carolina Oliveira


Quando Regina Protmann, aos 19 anos, decidiu abandonar o conforto de seu lar para auxiliar os mais necessitados, sua família não gostou da decisão. 

Nascida em 1552, na cidade de Braunsberg, na Alemanha, Regina era devota de Santa Catarina de Alexandria e, juntamente com duas amigas, deixou a vida burguesa para morar em uma casa simples, onde passaram a se dedicar à oração e às obras sociais.

Assim começou a Congregação das Irmãs de Santa Catarina, em 1571. De lá até os dias atuais, as obras se multiplicaram e a missão cristã se espalhou por 13 países. Apesar disso, o número de freiras formadas tem caído ano a ano. 

Segundo o Censo Anual da Igreja, do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), a queda foi de 10 677 religiosas em 2012 em relação ao ano anterior.

A escassez de freiras e padres vem forçando as instituições católicas a atrair e reter profissionais sem formação cristã para perpetuar sua obra. 

A Associação Congregação de Santa Catarina (ACSC), entidade que congrega todas as obras sociais da Congregação das Irmãs de Santa Catarina, passou por um reposicionamento em sua estrutura, que reúne atualmente 15 000 trabalhadores no Brasil.

“Mantemos as irmãs onde ainda é possível, mas algumas pessoas sem formação religiosa estão sendo preparadas para ocupar os cargos de liderança”, diz irmã Penha, integrante do conselho de administração da ACSC.

O processo de transformação começou há três anos. “Foram trazidos dois conselheiros externos para o conselho de administração, antes formado exclusivamente por irmãs”, afirma José Luiz Bichuetti, superintendente da associação e um exemplo de leigo (como os funcionários de formação religiosa se referem aos que não usam batina ou hábito) incorporado na nova estrutura.

Até o momento, todos os 216 executivos da ACSC nos níveis de diretoria passaram por entrevistas presenciais conduzidas por uma consultoria. A etapa faz parte de um processo de assessment, que visa identificar competências dos potenciais sucessores e desenvolver as habilidades técnicas e a vocação espiritual deles.

“Madre Regina era uma pessoa de doação, preocupada com o outro. Essas características precisam fazer parte da liderança”, diz Helena Bonetti, diretora de desenvolvimento organizacional da consultoria Wepeople, que tem auxiliado nesse processo.

A formação de discípulos

A perpetuação dos valores é a maior preocupação das entidades religiosas. Ao eleger um leigo a um cargo de confiança, é preciso acreditar que ele propagará o carisma, a cultura e a vocação de bem servir. 

“Enquanto uma empresa tradicional escreve seus valores depois de fundada, essas instituições nascem em torno deles”, diz Victor Baez, sócio-fundador da consultoria Heartman House.

Por isso, embora não religioso, o sucessor deverá seguir certos ensinamentos. Na Congregação de Santa Catarina, o exemplo é madre Regina. 

No Grupo Marista, a referência é São Marcelino Champagnat, padre que em 1871 fundou na comuna francesa La Valla o Instituto dos Irmãozinhos de Maria, que mais tarde seria o Instituto dos Irmãos Maristas.

“Quanto mais bebermos da fonte e conhecermos nossa origem, menor o risco de que a missão se desvirtue, mesmo com a maior presença de não religiosos”, diz o irmão Vanderlei Siqueira dos Santos, diretor-geral da rede de colégios do Grupo Marista, que administra escolas e universidades como a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

O Grupo Marista começou a estruturar seu processo de sucessão há cerca de dois anos, quando notou a diminuição no número de irmãos. 

“Nós precisamos de pessoas que deem resultado, mas, acima disso, temos de respeitar o jeito marista”, diz Renata Portela, diretora de desenvolvimento humano e organizacional, que entrou na instituição em 2012.

Os irmãos foram convidados a entender melhor os processos corporativos, enquanto aos não religiosos coube o fortalecimento dos valores. Hoje, o Grupo Marista já está no segundo ciclo de mapeamento, e escolas historicamente dirigidas por religiosos, como o Colégio Marista Arquidiocesano, de São Paulo, passaram a ter um leigo no comando.

A Companhia de Jesus vem adotando outra tática. “Os jesuítas vinham se ocupando muito das funções burocráticas e faltava tempo para cuidar do carisma. Por isso, os funcionários passam a assumir cada vez mais a direção, e nós nos voltamos para a missão”, explica o padre Carlos Fritzen, administrador da Associação Nacional de Educação e Assistência Social (Aneas) da companhia.

Segundo o padre Carlos Fritzen, nos últimos 50 anos o número de jesuítas no mundo despencou de 36 000 para 17 000. “Apesar disso, ampliamos nossas obras. Esse já é o resultado da participação significativa e crescente dos trabalhadores na missão”, afirma.

Igreja x Estado

Trazer consultorias, programas de gestão de pessoas e práticas do mercado para dentro de um contexto religioso pode ser realmente complicado. Afinal, existe o receio de misturar o sagrado com o “profano” e, então, desviar-se do caminho.

“Nossa vocação é o trabalho direto com as pessoas, mas, com o tempo, fomos assumindo funções burocráticas dentro dessas estruturas”, diz o padre Jaldemir Vitório, presidente da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter).

Para ele, o ideal é saber aproveitar a inevitável participação dos leigos. “Eles têm certa liberdade de comandar que, muitas vezes, falta nos padres e nas freiras”, diz. 

“Existe uma confusão de que, por sermos religiosos, não podemos corrigir ou dar voz de comando, como se essa postura fosse contrária à natureza espiritual.”

Segundo Helena Bonetti, da Wepeople, não é só o religioso que vê com maus olhos a contaminação do espiritual pelo mundano. Quem está do lado de fora também desconfia quando uma associação começa a profissionalizar sua gestão, o que, em sua análise, é um enorme equívoco, já que a missão dessas entidades está preservada na medida em que a preocupação com os valores apareça nos processos, como os de seleção e promoção de pessoas.

“Não adianta indicarmos alguém com foco no resultado para gerente financeiro. O que elas querem saber é se ele compartilha dos mesmos valores”, diz.

Por isso, antes de buscar candidatos no mercado, Elizabeth Leonetti, diretora de gestão de pessoas da Associação Congregação de Santa Catarina, toma o cuidado de pedir indicações para as freiras. 

“O exercício de recrutamento tem sido compartilhado. É a junção das ferramentas de RH com o olhar diferenciado das irmãs”, diz Elizabeth.

Para a profissional de RH, que teve passagem por empresas como Net e Fnac, a maior dificuldade, contudo, não é o alinhamento de valores, mas a atração de mão de obra.

“Nem todo mundo sabe que somos uma organização profissional, e isso é uma barreira para o candidato chegar”, diz.






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