terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Intolerância Religiosa


Apesar de no Brasil existir uma miscigenação de credos distintos, consequência da formação do povo brasileiro, não raro, episódios de intolerância religiosa ganha às páginas dos jornais. 

As agressões vão de manifestações de preconceito em ambientes como: trabalho, escola a danificação de imagens e até destruição de terreiros.

No ano de 95 um episódio de intolerância religiosa ofendeu a fé dos católicos brasileiros, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, em rede nacional, desferiu socos e chutes a imagem da Senhora Aparecida. A agressão provocou forte indignação nos católicos e em seguidores de outras religiões, inclusive evangélicas.

Para a professora do Programa de Pós Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Irene Dias de Oliveira as religiões em si não pregam e não fomentam a violência e o preconceito. 

De acordo com ela, são as pessoas (adeptos, teólogos, pastores, sacerdotes, sacerdotisas, comunidades religiosas em geral) que interpretam as doutrinas, os textos sagrados e agem de acordo com suas respectivas interpretações.

“A intolerância existe entre os membros, os adeptos de suas respectivas crenças. As religiões que se baseiam em um texto sagrado como o alcorão e a Bíblia tendem a ser mais intolerantes que outras que se baseiam nas tradições orais. Por isso é mais comum que os adeptos das confissões que se baseiam num texto sagrado sejam mais intolerantes em relação às religiões afro-brasileiras”, afirma.

Na opinião do advogado Valteude Guimarães Ferreira, 60 anos, estudioso de cultos afro-brasileiros as crenças que mais sofrem preconceito no Brasil é a Umbanda e o Candomblé, que de acordo com o Censo 2010 representa aproximadamente 600 mil brasileiros adeptos. 

Informações da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República dão conta que de cada 53 denúncias de intolerância religiosa recebidas pelo Disque 100, 22 são contra fiéis da umbanda e do candomblé.

“Por serem cultos de matriz africana e serem professados por pessoas de cor negra traz, por parte de algumas pessoas, certa rejeição. Daí que nasce a intolerância religiosa. Mas parto do princípio constitucional de que é livre o culto no Brasil, ou seja, qualquer pessoa pode praticar um culto desde que não transgrida a lei. O culto é livre, e é crime quem desfaz da crença” afirma Valteude que é estudioso de cultos afro-brasileiros e filho de Santo do Candomblé.

Levando em consideração que todas as religiões ou seitas adoram um criador soberano, o Padre, Luiz Augusto Ferreira da Silva acrescenta que a intolerância religiosa está ligada a um excessivo e equivocado “zelo”, fanatismo religioso. Sendo esta uma adesão cega e passional, que desvincula a fé num único Deus e verdadeiro, que é amor, e a coloca em um determinado líder religioso e/ou filosofia de vida. 

“A intolerância conduz à idolatria, e não respeita nem tolera a liberdade religiosa, porque existe uma falsa compreensão da fé”, define.

Princípios Distintos

Algumas das diferenças presentes nos cultos prestados, por exemplo, por religiões que fazem parte do cristianismo diferem apenas em alguns aspectos. Como no caso das igrejas católica, evangélicas e espiritas que acreditam que Jesus é o filho de Deus, criador do mundo e veio à Terra para salvar a humanidade.

Mas as mesmas diferem em alguns aspectos como os católicos que seguem os ensinamentos do papa (autoridade máxima da igreja) e cultuam Maria (mãe de Jesus na Terra) e alguns santos. 

Já os evangélicos que através do teólogo alemão Martinho Lutero rompeu com a Igreja Católica rejeitam crenças como a autoridade do papa e o culto à Maria e aos santos.

Como os católicos e os protestantes, os espíritas também acreditam que Jesus Cristo é o filho de Deus, entretanto eles seguem a Bíblia para explicar como funciona o mundo espiritual. 

Os espíritas acreditam que podem nascer e renascer na terra por várias encarnações até atingirem a perfeição. Além disso, creem que os vivos podem se comunicar com mortos por meio de médiuns.

Fora isso, eles recebem passes de membros mais sensitivos que os harmonizam, removendo as vibrações negativas e substituindo-as por bons fluidos. Essa crença foi fundada pelo professor francês Allan Kardec em 1857 no Livro dos Espíritos.

O estudioso de cultos afro-brasileiros, Valteude Ferreira observa que as crenças que são consideradas religiões no Brasil são o catolicismo, protestantismo e o espiritismo. As demais são ajuizadas como seitas, “embora em outros pais sejam reconhecidas como religiões”, diz. Como o candomblé e a umbanda que são diferentes, mas também possuem algumas similaridades.

Ambas as doutrinas (candomblé e a umbanda) acreditam em orixás, que são deuses das nações africanas que criam e governam o mundo por ordem de olorum (a divindade máxima). Fora isso é por meio dos búzios que os pais ou mães de santo se comunicam com os orixás.

Valteude explica que a umbanda foi criada no rio de janeiro no século 20 e une crenças e rituais africanos e acredita em entidades guias que são incorporadas por iniciados. 

“Em minha opinião a Umbanda é originariamente brasileira e considerada uma religião. Embora poucas pessoas a aceite como religião”, lamenta.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que as principais religiões do Brasil são: a Católica Apostólica Romana com 64,6% de fiéis, Evangélicas com 22,2%, Espírita com 2% e a Umbanda e Candomblé com 0,3% de público seguidor. 

Todas estas religiões seitas estão centradas em ‘seus fundamentos’ que são corretos, certos e inequívocos para seus adeptos.

Para a doutora em Ciências da Religião, Irene Dias os adeptos de uma determinada confissão religiosa tendem a acreditar que seu núcleo de verdade, suas normas, doutrinas, suas divindades e referências sagradas são melhores e mais importantes; e a sua “verdade” única, absoluta e válida para todos.

“Esta pretensão, a de que ‘a minha religião e os conteúdos da minha fé são mais verdadeiros do que a de outras religiões’, pode levar as pessoas a se sentirem superiores, mais importantes, privilegiadas, dignas da benevolência divina, da salvação e da ‘terra prometida’ entre outras possíveis escolhas. Estas atitudes são perigosas, intransigentes e estão grávidas de preconceitos”, alerta Irene.

Visão Fundamentalista das Religiões

De acordo com Irene Dias doutora em Ciências da Religião, toda experiência religiosa se submete à fé, à força do sentir e do viver religioso. E que, portanto, certo ‘fundamentalismo’ é conatural à pertença religiosa. 

“Toda religião pretende ser verdadeira e estar na verdade. Sendo assim toda religião está centrada em ‘seus fundamentos’ que são corretos, certos e inequívocos para seus adeptos”, esclarece.

Ela acrescenta que por isso toda grande experiência religiosa possui critérios hermenêuticos e autolegitimadores de sua posição e não há nada de errado nisso. Alerta que o risco está quando uma determinada religião pretende impor com força e violência suas convicções e crenças e não reconhece a legitimidade das outras experiências religiosas especialmente numa realidade cada vez mais plural como a das sociedades atuais.

“Eu posso e devo, sem algum problema, acreditar que a minha religião me possibilita ser uma pessoa melhor, me dá as respostas necessárias para a minha vida e que ela é verdadeira. O que eu não posso é pretender e acreditar que esta experiência deva ser imposta a outras pessoas, comunidades e grupos e achar que se estes não a acolherem são piores, pecadores ou devem ser simplesmente eliminados em nome de Deus ou de meus princípios religiosos. Não há nada que justifique o preconceito, a discriminação e as diferentes formas de violência em nome de Deus!”

Para o teólogo e Pastor evangélico, da Igreja Assembleia de Deus Ministério Fama, Cláudio Henrique Ferreira Chaves teologicamente falando na maioria das religiões existem um grupo de igrejas ou pessoas que são fundamentalistas. 

Mas ele observa que “há também nas igrejas evangélicas grupos liberais, ou seja, pessoas que adaptam a realidade da Bíblia a realidade dos nossos dias”, assegura.


Ele observa que a função da religião não é brigar uma com a outra, e sim ligar as pessoas a Deus. 

“A religião em si não prega a intolerância, as pessoas que por causa de suas vontades e desejos cometem atrocidades Qualquer religião que busca a oposição à outra não deve ser considera correta. Isso quer dizer que nenhuma religião é melhor que a outra, mas cada uma tem seus princípios”, reafirma.



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