segunda-feira, 2 de março de 2015

Entendê-los ou extraditá-los? - Moisés Naím


Supor que existem soluções óbvias para o terrorismo islâmico é um erro perigoso.

A Europa está aterrorizada e perplexa pelos assassinatos de inocentes nas mãos de extremistas islâmicos. Por que isso está acontecendo? O que fazer? A maioria das pessoas não tem respostas a estas perguntas. A maioria, mas não todos. 

Há grupos que têm perfeitamente claro por que isto acontece e o que deve ser feito a respeito. Há dois grupos em particular que têm visões extremas e totalmente contrapostas das causas do terrorismo islâmico e de quais deveriam ser os remédios. Apesar de que ambos representam minorias, seus pontos de vista aparecem cada vez mais nos debates sobre estes temas. A uns, eu chamo de contextualistas, e a outros, de isolacionistas.

Para os contextualistas, a causa do terrorismo que fustiga a Europa é a conduta, passada e presente, dos Governos europeus e dos EUA. Para uns, isto começou nas cruzadas ou no período colonial, enquanto que outros sustentam que o terrorismo islâmico se nutre de agressões e humilhações mais recentes, como a guerra no Iraque, os vínculos com as ditaduras petroleiras do Oriente Médio, aliadas do Ocidente, e o apoio a Israel no conflito com os palestinos.

Também no fracasso europeu em integrar os imigrantes, no alto desemprego de jovens muçulmanos, na discriminação que sofrem, na desesperança e na falta de identidade, tudo que os transforma em presas fáceis de uma causa religiosa mal interpretada, revanchista e beligerante que promete lhes dar dignidade e encher muitos de seus vazios vitais. Um bom exemplo da perspectiva dos contextualistas foi oferecido recentemente por Henry Rousell, um dos fundadores de Charlie Hebdo, no Nouvel Observateur, ao comentar o atentado contra o semanário: 

“O ataque pode ser visto à luz das guerras nas quais a França se envolveu, conflitos onde sua participação não era necessária, onde piores massacres que o de Charlie Hebdo acontecem todos os dias, várias vezes ao dia, onde nossos bombardeiros acumulam mortes sobre mortes na esperança de salvar poderosos que se sentem ameaçados e que não são melhores do que aqueles que os ameaçam”.

Os isolacionistas não veem a coisa assim. Segundo eles, a responsabilidade por este terrorismo não deve ser buscada no contexto, mas naqueles que cometem estas atrocidades e nos líderes religiosos que manipulam os jovens do Oriente Médio e da África do Norte ou europeus filhos de imigrantes dessas regiões, que são convertidos em terroristas suicidas. Segundo esta perspectiva, o problema não é o contexto, mas a numerosa imigração de muçulmanos e os que eles chamam de “islamificação” da Europa. 

Opinam que a Europa está sendo “invadida” por uma multidão de muçulmanos que não chegam para se integrar na sociedade, mas para transformá-la de acordo com sua religião. Consideram que o islamismo é incompatível com valores fundamentais para os europeus, como a separação entre Estado e religião, o trato igualitário das mulheres e a tolerância em relação a outras crenças. 

Os isolacionistas opinam que a solução ao terrorismo deve ter como base, além das atuações policiais preventivas mais eficazes, políticas migratórias mais restritivas e no reforço das fronteiras. Em toda a Europa surgiram partidos políticos e agrupações que propõem severas medidas contra os imigrantes ilegais e outras iniciativas destinadas a conter a expansão do islamismo radical.

As fronteiras sempre foram porosas e as de hoje, mais que nunca. Os custos e esforços por fechá-las, em relação com seus poucos benefícios e duvidosa eficácia, não projetam bons resultados.

Tanto os contextualistas quanto os isolacionistas não possuem respostas sólidas a perguntas importantes. Se o problema é o contexto, a história e a discriminação que existe contra os imigrantes, por que não existem terroristas suicidas latinos? 

Os imigrantes latino-americanos na Europa não vivem em condições significativamente melhores que os imigrantes árabes. Apesar disso, o terrorismo religioso não existe entre os latinos. Por que a Índia ou a Indonésia, os dois países com a maior população muçulmana do mundo, não produzem tantos terroristas suicidas quanto os países árabes?

Por outro lado, os isolacionistas tampouco têm boas respostas à realidade de que, em um mundo tão globalizado, conectado e integrado como o do hoje, os bloqueios não funcionam. 

As fronteiras sempre foram porosas e as de hoje, mais que nunca. Os custos e esforços por fechá-las, em relação com seus poucos benefícios e duvidosa eficácia, não projetam bons resultados. 

Outro problema é que a percepção da “invasão” de imigrantes é exagerada. Segundo a pesquisadora IPSOS Mori, os franceses acreditam que em seu país os imigrantes são 24% da população quando na realidade são apenas 11%. Na Espanha opinam que são 24%, mas na verdade, são a metade disso, 12%. A diferença é igual em outros países europeus.

O terrorismo islâmico é uma ameaça terrível e um fenômeno novo, apesar de seus anúncios medievais. Supor que o entendemos e que existem soluções óbvias é um erro perigoso.





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