sábado, 4 de abril de 2015

Igrejas de Niterói preservam séculos de história e fé - Por Marcelo Almeida


Fundada há mais de 400 anos, Niterói guarda em suas igrejas marcas da colonização portuguesa e acervo de grande valor cultural, além do registro de fé dos milhares de fiéis.

Com 441 anos, Niterói é uma das mais antigas cidades do Brasil e, com isso, a sua história remete ao período colonial, ainda no Século XVI. Como toda cidade do período de colonização portuguesa, de um catolicismo muito forte, Niterói crescia ao redor dos templos. Assim, a Cidade Sorriso tem muitas igrejas históricas que hoje dividem espaço com construções modernas.

Para o arcebispo de Niterói, Dom José Francisco Resende Dias, as igrejas históricas de Niterói revelam a caminhada de evangelização que foi acontecendo, em nossa região, no decorrer da história. 

“Temos a bela igreja de São Lourenço dos Índios, que teve a graça de ouvir a pregação de São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil. As várias igrejas bonitas que temos são sinais fortes de fé, dedicação e amor do povo para com Deus, no decorrer de nossa história”, diz.

De acordo com o historiador Francisco Javier Muller, coordenador do Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de Niterói, o mais antigo templo de Niterói e local considerado como o marco inicial da cidade é a Igreja de São Lourenço dos Índios, situada no Morro de São Lourenço, na Zona Norte. “A História nos conta que foi ali que os índios temiminós, tribo do índio Arariboia, viveram e construíram a primeira capela da cidade”, contou. 

Hoje quem cuida do templo é Egídio Perpétuo, que nega o título de historiador, mas sabe de todos os detalhes do templo. “Às vezes a importância da igreja parece um pouco esquecida pela população. Foi aqui que Niterói nasceu, quando Arariboia, já batizado de Martim Afonso de Souza, pediu que os portugueses lhe dessem uma sesmaria nas ‘Bandas do Além’ do Rio de Janeiro. Ele então fixou a aldeia aqui nesse morro e construiu uma capelinha de taipa”, contou.

A igreja que existe hoje foi construída no século XVII, com paredes feitas com óleo de baleia, pedra e cal. Da mesma época são as igrejas de São Francisco Xavier, na Zona Sul; Santa Bárbara e Nossa Senhora de Boa Viagem, essas duas estão sob administração da Marinha e possuem fortificações militares que serviam como destacamento na época imperial do Brasil.

Todas foram erguidas a mando de padres jesuítas e a memória desta época está presente com uma imagem de São José de Anchieta ao lado do altar de São Lourenço. Na Igreja de São Francisco, uma pintura de Anchieta conversando com os índios lembra o trabalho de evangelização feito pela ordem.

Outro templo que nos remete à família de Arariboia é o templo de São Domingos. O terreno onde está a igreja foi doado por Dona Violante Soares, que era casada com Domingos de Araújo, que pediu para que a esposa, descendente de Martim Afonso, para que mantivesse a devoção ao santo. 

“A pequena capelinha se foi e depois ergueram este templo que temos hoje. No fim do século XIX começou uma reforma gerida pelo arquiteto Bianor Mendonça, que morreu um ano após a inauguração do templo e ele está sepultado aqui, ao lado do altar”, lembrou o cônego Elídio Robaina, pároco de São Domingos. 

Outras igrejas de Niterói ganharam importância conforme a cidade se expandia para o que hoje são o Centro e a Zona Sul. “Se formos ver a relevância histórica dos templos para o crescimento de Niterói, os templos centrais são de extrema importância, pois era onde a elite da cidade circulava. A partir da Era Pombalina, século XVIII, as igrejas passaram a ter padres morando nas paróquias, antes eram visitadas umas duas vezes ao ano, e os registros de nascimento, casamento e óbito ficam mais fiéis”, disse o historiador Francisco Muller.

Ainda segundo Muller, uma paróquia muito antiga, porém nunca lembrada, é a Igreja de São Sebastião de Itaipu, na Região Oceânica, e está sendo reformada atualmente. “A área em torno do templo foi declarada sítio arqueológico, pois ali foram encontrados artefatos do século XVIII e peças de arte sacra bem antigas”, disse Muller.

Ele conta que um fato curioso da paróquia de Itaipu é que todas as nove capelas que foram erguidas foram feitas pelo português Francisco da Cruz Nunes, que hoje dá nome à principal via da região. 

“Nas viagens entre Portugal e o Brasil, muitas pessoas morriam e ele fez uma promessa de construir uma capela para cada membro de sua família que chegasse vivo na América, um total de sete pessoas. Como todos chegaram vivos, ele acabou fazendo mais igrejas do que o número de pessoas que chegaram aqui, construindo nove capelas”, lembra. 

Outra curiosidade que poucos sabem é que a Catedral de São João Batista, hoje no Centro, era localizada em Icaraí ainda no século XVII, mas um desabamento destruiu o templo e ele foi reconstruído onde está, já no século XIX. 

“Um novo templo em homenagem a São João vai ser erguido no Caminho Niemeyer. Também o considero uma Igreja histórica, pois a história não vive apenas de passado. Essa é a história que estamos escrevendo hoje”, afirmou Muller.

Dom José Francisco acredita que os niteroienses poderão “fazer história” com a nova catedral. “Somos chamados a fazer história e a deixar a nossa marca de fé colaborando e participando na construção da nova catedral de São João Batista, em Niterói, com oração, divulgação e contribuição nessa obra de fé”, declarou.

Relíquias

As igrejas de Niterói também guardam tesouros valiosos. Não financeiros, mas relíquias religiosas que representam a fé do povo. Um deles é um Relicário da Cruz de Cristo, selado pelo Vaticano, trazido de Portugal para a Igreja da Nossa Senhora da Conceição, no Centro da cidade. Ao lado da igreja foi construído o primeiro cemitério de Niterói, depois transferido para o Maruí, no Barreto. 

Na mais antiga congregação dos Salesianos no Brasil, a Basílica Nossa Senhora Auxiliadora, em Santa Rosa, também há um tesouro: o maior órgão de tubos da América Latina e o quinto maior do mundo. Um similar, porém em menores dimensões, fica na Catedral de São João Batista. 

“Dizem que havia um padre que sabia tocar muito bem, mas depois que ele morreu não tem alguém que saiba tocar tão bem. É um instrumento difícil de aprender e foi trazido da Europa e montado aqui novamente, realmente uma relíquia religiosa e musical”, contou Francisco Muller. 

O historiador lembra que uma das imagens mais antigas trazidas de Portugal para a cidade se perdeu de uma forma curiosa. Trata-se de uma imagem de São Sebastião, padroeiro da cidade, que caiu durante uma procissão e se quebrou. 

“Embora os inúmeros pedidos para que o povo não levasse os pedaços para casa, a multidão não deu ouvidos e cada um que estava na procissão acabou levando o seu pedaço da ‘relíquia’”, lembrou. 

Talvez a mais significativa obra de arte guardada nos templos de Niterói esteja na Igreja de São Francisco Xavier, na Zona Sul. O templo tem imagens de santos em estilo barroco, feitos em pedra sabão, que são atribuídas ao escultor Aleijadinho. De congregação jesuíta, a igreja traz emblemas da associação religiosa em vários pontos. 

“O mais importante, além das relíquias e igrejas em si, são as histórias que podemos contar a partir das devoções que existem nessas comunidades. São muitos relatos de curas, milagres e graças alcançadas que encontramos nos arquivos da igreja”, disse Francisco Muller.

A Igreja de São Lourenço dos Índios também tem suas relíquias, com um acervo de pedaços de ossos, pregos, fechaduras que foram descobertos em escavações e datam de vários séculos, além de uma imagem de São Lourenço, trazida de Portugal, e um lavabo de pedra portuguesa embutido na parede da sacristia, do século XVI.







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