sexta-feira, 26 de junho de 2015

Romi Bencke, secretária-geral do CONIC, fala sobre ideologia de gênero


A ideologia de gênero é um dos temas que está mais em voga nos últimos debates públicos a respeito da educação. 

Em entrevista à jornalista Cristina Fontenele, da Adital, a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, expõe sua visão sobre o assunto e traz uma reflexão mais profunda acerca do assunto, por vezes tratado de forma sensacionalista pelas lideranças políticas e meios de comunicação. 

“São frequentes os relatos de crianças que pedem para seus pais mudá-las de escola ou que, simplesmente, não querem mais frequentar a escola por causa das discriminações que sofrem”, pondera Romi.

Sancionado em junho de 2014, o Plano Nacional de Educação (PNE) define as diretrizes e metas a serem alcançadas pelos próximos 10 anos. No entanto, a inclusão da ideologia de gênero nas escolas tem gerado polêmica dentro dos grupos religiosos brasileiros. 

Setores mais conservadores consideram o tema um ataque ao conceito de família, enquanto os movimentos sociais pedem a discussão da temática para evitar mais violência e evasão escolar. Os estados e municípios brasileiros têm até o próximo dia 24 de junho para aprovarem leis que criam os planos estaduais (PEE) e municipais de educação (PME).

Em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirma que a ideologia de gênero desconstrói o conceito de família, fundamentado na união entre homem e mulher, e que a abordagem do assunto pela prática pedagógica trará "consequências desastrosas” para a vida das crianças. O documento destaca que é "grave” incluir a ideologia de gênero nos planos de educação sem discutir o assunto com pais, educadores e sociedade civil.

Já para a organização Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), a violência de gênero impede que as crianças desenvolvam seu potencial intelectual. Em boletim, a entidade afirma que a população LGBTI [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais] enfrenta uma situação "gravíssima” pelo não acesso à escola e pela evasão escolar. "Além de sofrerem discriminação e violência nas ruas e, muitas vezes, na família, são alvo de violência dentro das escolas”.

A Iniciativa De Olho nos Planos, que reúne entidades ligadas à educação, divulgou uma nota pública em defesa da promoção igualdade de gênero nos planos de educação. A entidade considera "extremamente grave” as manifestações de "intolerância e proselitismo religioso nos processos públicos”, bem como a atuação de determinados grupos que vêm propagando "preconceitos e desinformação”, inviabilizando o debate público.

Há estudos que indicam que a violência de gênero em instituições acadêmicas pode gerar um aumento do absenteísmo, fraco desempenho, desistência escolar, baixa autoestima e até depressão.

Em entrevista à Adital, a pastora Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), explica o conceito de ideologia de gênero e qual a importância da discussão do assunto dentro das escolas. Ela comenta ainda sobre as relações de poder da família patriarcal e a importância de se recuperar o processo civilizatório no Brasil.

Adital: Em que consiste a ideologia de gênero?

Romi Bencke: Importante é recuperar o próprio conceito de ideologia, que tem a ver com ideias e crenças que integram a visão de mundo de grupos sociais ou classe social. Muito comum, em tempos não tão distantes, era utilizar a expressão ideologia burguesa ou ideologia de classes para problematizar a dominação exercida, por meio de valores e ideias do grupo econômica e politicamente dominante sobre os trabalhadores e trabalhadoras.

A perspectiva de gênero tem, exatamente, a função de problematizar as construções sociais de ser homem e ser mulher, além de chamar a atenção para aspectos das relações sociais, que buscam manter a dominação de um gênero sobre o outro. Gênero é um conceito. Ele também é um instrumento metodológico, que auxilia na análise das formas como são estabelecidas as relações e os papéis sociais entre homens e mulheres. As diferenças entre homens e mulheres não são apenas biológicas. Elas também são sociais, econômicas e políticas, considerando que as mulheres quase não ocupam espaços de poder, basta resgatar a decisão do Congresso Nacional que, no dia 16 de junho último, rejeitou a reserva de cotas para mulheres no Parlamento.

Há alguns anos, nos trabalhos com grupos populares, era muito comum abordar as diferenças de gênero através da realização de dinâmicas simples, do tipo convidar o grupo para falar dos papéis desempenhados por homens e mulheres na família. A conversa rumava também para as diferenças na educação entre meninos e meninas. Os meninos ensinados a serem fortes e autônomos e as meninas frágeis e dependentes. A partir do conceito de gênero, passamos a ler a bíblia com outros olhos, recuperando as mulheres presentes nos diferentes relatos bíblicos e os papéis desempenhados por elas. No âmbito da Teologia, esse conceito é muito importante para as mulheres teólogas. A teologia mesma passa a ser lida e elaborada de outra forma a partir desse conceito. Acredito que muitos participaram dessas discussões.

A sociedade é dinâmica, rapidamente ela se tornou mais plural. O conceito de gênero torna-se cada vez mais importante e complexo, para chamar a atenção para as rupturas entre noção biológica de sexo e noção de gênero enquanto construção social de ser homem e/ou mulher. É um conceito que nasceu no movimento feminista. É um conceito que incomoda porque questiona e problematiza as relações de poder.

Adital: Qual a importância dessa discussão dentro das escolas?

RB: O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. A ONU Mulheres divulgou uma Nota Pública condenando o estupro coletivo ocorrido em Castelo, Piauí. A Nota destaca que ocorrem, por ano, no Brasil, 50 mil estupros e 5 mil assassinatos de mulheres. Entre os anos de 1980 e 2011, a taxa de assassinatos de mulheres dobrou. No Brasil, pode-se dizer que uma mulher é assassinada a cada duas horas, a maioria delas por homens com os quais elas têm relações íntimas. Somos o sétimo país com as maiores taxas de feminicídios. A violência contra LGBTs segue no mesmo rumo, ou seja, acontece em casa. Os agressores são conhecidos das vítimas. Os números são igualmente altos. No ano de 2013, foram 321 assassinatos. O Brasil é campeão mundial em crimes homo-transfóbicos, 40% de assassinatos de travestis, ocorridos no mundo, foram aqui, no Brasil. Isso sem falar nas humilhações, hostilidades, etc.

Acho que isso já explica a importância de se levantar essas discussões nas escolas. Temos instrumentos importantes para coibirem e penalizarem o assassinato de mulheres, a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Mas, juntamente com as leis, precisamos de uma profunda mudança cultural. Esses números deveriam, no mínimo, gerar desconforto. Só que são violências naturalizadas. Elas não chocam. Ao contrário, muitos comentários acabam culpabilizando as vítimas. Será que a vida dessas pessoas não tem valor? Uma vale mais e a outra menos?

A escola tem a função fundamental de formação das pessoas. Não uma formação instrumentalizadora, do tipo preparar para o concurso público ou para um bom emprego. Precisamos de uma formação capaz de humanizar. Precisamos, urgentemente, recuperar um processo civilizatório no Brasil!

Adital: Em entrevistas, a senhora comentou que violência e a evasão escolar são consequências da discriminação de gênero. Como percebe o tratamento dessa situação pelas escolas?

RB: A evasão escolar tem múltiplas causas. Os casos de bullying, por exemplo, têm a ver com não saber lidar com as diferenças, neste caso, não só de gênero, mas também racial, física, entre outras. O relato da mãe do menino Rafael Barbosa de Melo, de Cariacica, que foi assassinado a pedradas, é muito impactante. Ela falou que implicavam com o jeito do menino ser.

A menina Kailane Campos, que foi apedrejada ao sair de um culto do Candomblé, faz outro relato impactante: medo de sair na rua. Isso deveria provocar uma reflexão sobre o que estamos fazendo em nome de Deus, que está enjaulado. O que é contraditório, pois o Espírito de Deus é livre e, muitas vezes, nos provoca e desestabiliza.

São frequentes os relatos de crianças que pedem para seus pais mudá-las de escola ou que, simplesmente, não querem mais frequentar a escola por causa das discriminações que sofrem. Relatos de crianças que são de religiões de matriz africana mostram que, em função dos preconceitos, preferem não frequentar mais as aulas. Da mesma forma, crianças e jovens obesos ou com algum tipo de deficiência.

Adital: Como avalia o posicionamento das igrejas cristãs mais conservadoras sobre as discussões de gênero?

RB: Sou da opinião de que o conservadorismo está presente em toda a sociedade e, por isso, em todas as Igrejas. Acho que essa é uma primeira constatação a ser feita. A questão é como as Igrejas lidam com isso. Algumas conseguem promover espaços de reflexão e diálogo sobre as diferenças. Cito o caso da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil que, desde o ano passado, tem desenvolvido uma série de reflexões sobre modelos de família e sexualidades. Estão, agora, na segunda etapa dessas jornadas de reflexão nos grupos comunitários.

A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil coloca entre os seus valores: dignidade, liberdade, gratuidade. Na diversidade estão: diversidade de gênero, espiritualidade, diaconia, etnia, família, entre outras. A diversidade integra uma das formas da Igreja viver seu testemunho. Além disso, no âmbito nacional da Igreja, temos uma Coordenação de Gênero, Gerações e Etnia. A Fundação Luterana de Diaconia tem um projeto chamado "Lar nem tão doce lar”, que reproduz um ambiente doméstico em que a violência está presente. É muito interessante. As pessoas começam a debaterem os temas de tensão dentro do ambiente familiar.

Na Igreja Católica Romana, muitas pastorais sociais promovem espaços importantes de reflexão sobre o tema de gênero. As Comunidades Eclesiais de Base têm uma preocupação legítima em valorizarem as diferenças.

No âmbito ecumênico, lembro da Campanha da Koinonia "O amor lança fora todo o medo”, que tem como objetivo desconstituir os preconceitos contra mulheres, LGBTs e outros grupos. O Centro de Estudos Bíblicos promove a leitura popular da bíblia que busca iluminar a realidade a partir da leitura bíblica. Com isso, fazem uma análise interessante sobre valores religiosos, que contribuem para legitimar as muitas desigualdades, inclusive, de gênero. Mas também recuperam valores religiosos que promovem o convívio entre diferentes.

Importante dizer que muitos, no âmbito dessas Igrejas e grupos ecumênicos, criticam, reclamam dessas iniciativas, mas o espaço de reflexão não é suprimido. Isso é importante. Não se pode perder a capacidade de diálogo.

Adital: Alguns grupos religiosos comentam que a discussão sobre gênero nas escolas poderia submeter crianças e jovens a um esvaziamento de valores. Como avalia esse posicionamento?

RB: Não sei como isso pode acontecer. O que esvazia valores são as relações violentas e de discriminação a que as crianças e jovens estão expostos. O que ameaça mais uma criança: as agressões, a violência ou uma boa conversa e uma boa história? As crianças são muito perspicazes, inteligentes.

Adital: Por que alguns grupos entendem a discussão de gênero como uma ameaça à família?

Creio que isso ocorre porque não conseguem lidar com essas mudanças. Sentem-se inseguros, desestabilizados. Em tempos de rápidas transformações, crescem os movimentos de reafirmação de certezas. É uma reação. Por isso, sempre de novo, se reafirma o modelo de família patriarcal, construído com relações de poder e de controle. Há a necessidade de restaurar o que foi aparentemente corrompido.

Acho que grande ameaça à família é a violência entre quatro paredes. Do pai que bate na mãe, do familiar que assedia a menina ou o menino.

Adital: Deseja acrescentar algo mais?

RB: Se olharmos para o Jesus histórico, percebemos que ele foi extremamente inconformado com o seu tempo e nunca deixou de expressar seus inconformismos. O que teria acontecido com a mulher que estava para ser apedrejada se Jesus não tivesse questionado os "cuidadores dos bons costumes” daquela época? Ela teria sido vítima da violência patriarcal. Teria morrido! A fé deve levar a posturas de inquietação. Precisamos reaprender a exercitar a compaixão e a misericórdia. Libertarmo-nos das nossas certezas engessadas. Não há fé sem dúvida. Uma é irmã da outra. Crescermos com isso.






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