domingo, 30 de agosto de 2015

Entenda as diferenças entre xiitas e sunitas


Em termos de lei, ambos os grupos islâmicos seguem a Sharia, mas Estados têm interpretações diferentes sobre as punições.

Fundado por Maomé (570-632) no século VII, o Islamismo foi dividido predominantemente entre xiitas e sunitas após a morte do líder religioso, quando foi iniciada uma disputa sobre quem ocuparia a posição de principal liderança da comunidade islâmica mundial. 

Mas apesar de esses grupos corresponderem a vertentes distintas da religião, eles ainda compartilham de crenças e práticas fundamentalistas, como a fé no Alcorão e a regência da Sharia, código de leis do islamismo.

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Milícias xiitas massacram sunitas em ações de vingança no Iraque. Há cerca de 900 milhões de sunitas no mundo e ao menos 120 milhões de xiitas, sugerem estudos. Hoje, cerca de 90% dos muçulmanos, ou 900 milhões deles, são sunitas. Já os xiitas são compostos por uma média de 120 e 170 milhões, como explica a docente do programa de ciências da religião da Universidade Mackenzie Lidice Meyer Pinto Ribeiro. 

"Diferentemente dos evangélicos e católicos, por exemplo, os muçulmanos não enumeram os seguidores nas mesquitas. Então é difícil precisar seu número de seguidores", afirma. 

Essa divisão sectária tem gerado inúmeros conflitos ao longo da história, principalmente em países como o Líbano, a Síria, o Iraque e o Paquistão. Mas embora pareça hoje que as seitas não coexistem, elas ainda compõem comunidades em várias partes do mundo. Em áreas urbanas do Iraque, por exemplo, uniões entre sunitas e xiitas eram, até bem recentemente, bastante comuns.

Quem são os xiitas?

Os xiitas surgiram após o assassinato do quarto sucessor de Maomé, o califa Ali (601-661), também primo e genro do profeta. Como Maomé não indicou um sucessor, os califas, chefes de Estado, assumiram a liderança da comunidade muçulmana. Depois da controversa posse de Ali, porém, uma parte dos muçulmanos, os autodenominados "shiat Ali", ou "partidários de Ali", em tradução livre, passou a defender que a única liderança legítima para o Islã deveria vir da linhagem direta de Maomé. 

Em meio à violência e rede de intrigas que dominou o curto reinado de Ali, o assassinato do califa rendeu uma série de outras tragédias entre os herdeiros de Maomé. Seus netos, Hassan e Hussein, foram mortos em diferentes circunstâncias: Hassan teria sido envenenado por Muawiyah, o primeiro califa da dinastia Umayyad, e Hussein foi vítima de uma conspiração em uma batalha. Esses eventos deram origem ao conceito xiita do martírio e rituais de luto.

Estimativas mostram que muçulmanos xiitas são maioria no Irã, Iraque, Bahrein, Azerbaijão e Iêmen. Há também grandes comunidades no Afeganistão, Índia, Kuwait, Líbano, Paquistão, Qatar, Síria, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes.

Já os sunitas, termo que deriva da palavra Sunna, documento sagrado que narra as experiências de Maomé em vida, assumiram uma visão mais ortodoxa e pragmática do Islã após a morte do profeta. Diferentemente dos xiitas, eles reconhecem a liderança dos primeiros califas que assumiram a liderança da comunidade islâmica após 632, e não apenas Ali, genro e primo do profeta.

A seita defende ainda que a religião e o Estado devem ser uma coisa só e acreditam que os quatro califas que sucederam a Maomé lideraram a comunidade legitimamente e seguiram governando o mundo árabe até o fim do Império Otomano, depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). 

Diferenças e semelhanças

Em termos de lei, ambas as seitas seguem a Sharia, mas com interpretações diferentes. De acordo com um relatório do Council of Foreign Relations, cada país tenta conciliar os costumes locais com o Islã, o que diferencia o peso que cada uma aplica à forma como a sharia é interpretada.

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Quando o assunto é casamento ou divórcio, as leis de ambas as seitas são bem parecidas, mas diferem expressivamente sobre as leis criminais. No Irã, que é xiita, a pena capital mais aplicada é a forca. Já na Arábia Saudita, sunita, as sentenças variam. Por apostasia, abandono da fé, por exemplo, o condenado é decapitado com uma espada, enquanto, por adultério, a pena é a morte por apedrejamento.

Geralmente, os sunitas são mais abertos em termos religiosos e políticos do que os xiitas. "Igrejas xiitas no Brasil são feitas somente para descendentes de árabes. Um brasileiro não pode se converter e ser bem recebido numa mesquita xiita. Porque você não é visto como alguém que pertença ao grupo", explica Lidice Meyer Pinto Ribeiro.

Os terroristas do Estado Islâmico, que se definem como grupo sunita, não seguem nenhuma vertente conhecida do Islã, mas uma corrente nova que aplica as leis da Sharia e do Alcorão conforme a visão do líder e fundador do EI, Abu Bakr al-baghdadi, como explica o chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser.


"Quando o Estado Islâmico realiza ataques no Oriente Médio, mata xiitas, sunitas e outros grupos religiosos. Eles não são sunitas, criaram para eles mesmos uma justificativa para o terror", avalia.




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