quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A outra encíclica: Declaração Islâmica sobre a mudança climática – Por Gustavo Duch



Ocorrido durante quase todo o mês de agosto, em Istambul, num simpósio, um grupo de acadêmicas e acadêmicos elaboraram, em sintonia com a Laudato Si’, a Declaração islâmica sobre a mudança climática. 

Que esta iniciativa favoreça avanços no diálogo inter-religioso, a construção de laços fraternos mais estreitos e de compromissos pela causa planetária comum.  O texto a seguir, destaca trechos dessa Declaração:

A outra encíclica se inicia com um preâmbulo que de forma resumida, que diz: ‘nosso planeta existe há bilhões de anos e as mudanças climáticas em si não são algo novo. O clima da Terra passou por períodos mais úmidos, mais secos, mais frios, mais quentes, em função de muitos fatores naturais. A maioria dessas mudanças foram graduais, de forma que as espécies e as comunidades de seres vivos puderam evoluir com eles (…) As mudanças climáticas do passado provocaram as imensas reservas de combustíveis fósseis que hoje, ironicamente, com um uso imprudente e míope dos mesmos, está resultando na destruição das condições que tornam possível a nossa vida na Terra”.

“Por outra parte, a mudança climática atual é induzida pelo homem, convertido em força dominante da natureza (…) O que dirão de nós as futuras gerações, através do legado que nós vamos deixar a elas, de um planeta devastado?”.

“No breve período transcorrido desde a Revolução Industrial até agora, os humanos consumiram grande parte dos recursos não renováveis que tardaram 250 milhões de anos em serem gerados, tudo em nome do desenvolvimento econômico e do progresso humano. Observamos os efeitos do aumento do consumo per capita (…), observamos a luta internacional para encontrar mais depósitos de combustíveis fósseis sob as capas de gelo das regiões árticas. Estamos acelerando nossa própria destruição”.

“Apesar das numerosas conferências realizadas sobre essa problemática, o estado geral da Terra continua se deteriorando de maneira constante (…) É alarmante que, apesar de todas as advertências e previsões, o sucessor do Protocolo de Kyoto, que deveria ser respeitado e se mantido vigente desde 2012, tenha sido abandonado. É essencial que todos os países, especialmente os mais desenvolvidos, intensifiquem seus esforços e adotem uma postura firme e empenhada o suficiente, e que juntos possam dar a prioridade necessária à contenção dos efeitos daninhos que se estão produzindo”.

A outra encíclica continua afirmando: “Nós não somos os criadores dos céus e da Terra (…) A catástrofe das mudanças do clima é o resultado da alteração humana no equilíbrio do planeta, devido à nossa incessante busca do crescimento econômico (…) Reconhecemos que não somos mais que uma minúscula parte da ordem divina, mas, dentro dessa ordem, somos seres excepcionalmente potentes (…) e nossa responsabilidade é tratar todas as coisas com cuidado e reverência (…) A criação dos céus e da Terra é um feito muito maior que a criação da humanidade, mas a maioria da humanidade não sabe disso”.

E esta outra encíclica, elaborada pouco antes de uma crucial Conferência de Paris, a Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, que acontecerá em Novembro e Dezembro deste ano, e que deve determinar um novo acordo internacional para manter o aquecimento global num nível abaixo dos 2ºC, depois de um apelo em favor do compromisso de todos os movimentos sociais e comunitários do planeta, ao setor empresarial, às nações e seus líderes, pedindo também que as contribuições de todos os líderes religiosos, inclusive citando um trecho do livro sagrado de uma delas, para reforçar essa união de crenças em favor de uma necessidade em comum:

“E não ande pela Terra com arrogância. Na verdade, você não pode atravessar a Terra nem alcançar a altura das montanhas” (Al Corão 17: 37).

Não me refiro à conhecida e celebrada a encíclica “Laudato si”, do Papa Francisco, mas sobre o recente simpósio, ocorrido durante quase todo o mês de Agosto, em Istambul, onde um grupo de acadêmicas e acadêmicos elaboraram o texto cujos trechos estão acima reproduzidos: a Declaração islâmica sobre a mudança climática.






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