quarta-feira, 9 de março de 2016

Má sorte ter sido... (Dia da) Mulher - Por Paulo Mendes Pinto



É longo e continua a ser dramático o percurso do lugar da mulher na sociedade dos países ditos “ocidentais”. 

Passado que é mais um dia 8 de Março, fazemos o balanço e fomos bombardeados com os números que colocam verdadeiramente a nu aquilo que somos: uma sociedade machista, que diz ser igualitária mas que mata, rouba e trata de forma desigual as mulheres.

Mas o problema é muito mais profundo e complexo. E sigamos apenas duas das possíveis linhas de pensamento. Por um lado, a mulher é tratada de forma inferior, a não ser que, muitas vezes, use dos seus atributos de beleza ou sexuais para conseguir o sucesso, sofrendo, assim, uma dupla violentação por terem de se render a uma lógica de trocas sexuais numa sociedade que as olha constantemente como objecto.

Mas, por outro lado, esta catadupa de dados e factos, de valores, de números que nos mostram o quanto a sociedade é apenas igualitária nas intenções, é a demonstração de que, pior que fazer-se a discriminação, fazêmo-la tendo dela pleno conhecimento e valorizando-a como negativa. Isto é, nada fazemos apesar de se conhecerem ao pormenor as mecânicas da discriminação, como se ter um Dia da Mulher fosse um bem superior, uma catarse e uma demonstração de valores que fizesse alguma diferença. Não, não faz nada enquanto não se mudarem as mentalidades.

E é para o campo do que muda muito lentamente na História que nos devemos voltar para tentar compreender em que camisa de forças parece estarmos retidos, pouco fazendo para alterar o estado de coisas. De facto, é devido a um misto de aspectos antigos e muito consolidados de mentalidade, especialmente de origem religiosa, e falhanços muito graves da nossa sociedade em termos políticos e de protecção social, que vemos diariamente mulheres a serem mortas, assim como outras a serem empurradas para uma prostituição não desejada para conseguirem sobreviver.

Mas mais que aspectos simplesmente religiosos, que são aqui fortíssimos, estamos perante aspectos de mentalidade profundamente consolidados em milénios de discriminação de uma sociedade que desde, pelo menos, as idades dos metais, Calcolítico e Idade do Bronze, se tornou fundamentalmente guerreira, valorizando as qualidades do homem nessas funções.

A linguística mostra-nos um sem número de casos significativos, como uma das formas mais comuns para, em inglês, designar a mulher: «female» e «women». Sendo consensual a diferente origem etimológica entre «male» e «female», assim como entre «women» e «men», não deixa de ser brutalmente significativo que a evolução das diferentes raízes ao longa da Idade Média tenha evoluído para esta aparente oposição em que a palavra referente ao feminino parece ser construída pela aposição de um prefixo à palavra que representa o masculino, criando como que uma dependência de um sexo em relação ao outro.

Mas muito mais se poderia apontar, como a ainda mais inconsciente realidade de em quase todas as situações de substantivos neutros ser a forma masculina que os representa, ou, mais interessante, ainda, o plural, desde que integre um único masculino, torna-se quase sempre masculino: numa turma de 20 meninas e um único menino, todos são «alunos» ou «meninos».

Se o nosso olhar for para o universo religioso, os dados são menos subtis mas mais dramáticos. Quantas religiões e tradições proíbem a entrada nos espaços sagrados a mulheres menstruadas? Quantas mais vedam os sacerdócios ao género feminino?

Obviamente, na construção da nossa mentalidade, aqui neste rectângulo europeu, a realidade cristã é muito importante. E essa está repleta de verdadeiros mitos que lançaram a mulher para uma situação que nos deixou profundas marcas na estrutura de pensamento, mesmo depois de décadas de lutas e depois de já termos corpos legais praticamente igualitários.

De facto, desde que se lançou para o quadro genesíaco a ideia de queda, de pecado original, vendo-se em Eva o papel mais activo, que tudo se encaminharia muito mal para as fêmeas desta espécie. Obviamente, a caracterização daquela que viria como que desfazer o que Eva fizera perder, sendo a mãe do Messias, em nada ajudou: virgem, sem pecado, ela é mulher mas é tudo menos comum, é um modelo inatingível. Numa instituição feita e comandada por homens que cada vez mais recusam a prática sexual, com Maria coloca-se num patamar de impossibilidade a perfeição que se quer para a mulher.

E se a questão da virgindade de Maria é, no texto bíblico hebraico que profeticamente a fundamenta, nada consensual, a caracterização de Maria Madalena como prostituta ou resultou de crasso e grosseiro erro de um Papa, ou foi, então, propositada montagem para reter no medo uma população de Roma num momento de convulsões, de fomes e de doença. De facto, no Novo Testamento, Maria Madalena nunca surge como prostituta, tendo sido Gregório Magno (apara na passagem do séc. VI para o VII) que, num sermão proferido num quadro de fomes e doença generalizada em Roma, o afirmou.... O facto desta mentira ter sido tida por verdade por quase milénio e meio mostra como estava, e está, formatada a nossa cabeça.

A verdade é que pouco melhorou na concepção da mulher, antes pelo contrário. Mais que rejeitado o papel da mulher nas funções eclesiásticas cristãs, o que em nada corresponde à verdade dos textos mais antigos, foi toda a noção de corpo e de vivência da sexualidade que foi agrilhoada numa sociedade que foi complexificando os mecanismos de autorrepressão, as formas de censura e o desejo de fuga e uma ideia de pecado omnipresente. Só muito recentemente a Igreja Católica abriu espaço para que a prática sexual, sem conduzir directamente à procriação, pudesse ser algo de direito.

Citando a peça de John Ford que uso como base no título neste texto, parece que, mesmo numa sociedade que tende a ver e a tratar a mulher como igual ao homem, a via da afirmação sexual continua a ter uma força tremenda e a ser uma marca de uma certa infantilidade de que não saímos.

Será preciso que nos dispamos completamente das identidades herdadas, das tradições dos nossos antepassados para conseguir, finalmente, conviver com as mulheres como simples e vulgares seres humanos?

De facto, eu diria que é preciso ir a esse absurdo de ruptura, não apenas em relação aos preconceitos contra a mulher, mas como em muita outra coisa. É que são as próprias palavras que traem as tentativas de avançar e de mudar.

No limite irónico, dizemos com satisfação que uma mulher é virtuosa, elogiando-a. Ora, sintomaticamente, a palavra "virtude" vem do latim virtus, palavra criada com base em "vir", "varão", a raíz da nossa palavra "viril", também. O que nos vai na cabeça? Simples: para uma mulher ser virtuosa, é preciso ser... homem.

Com este léxico não vamos lá...

Paulo Mendes Pinto - Coordenador da área de Ciência das Religiões na Universidade Lusófona.






Nenhum comentário: