sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A Angola proibiu o islamismo? – Por Guilherme Dearo

Uma polêmica tem dominado a pauta angolana e do mundo islâmico nos últimos dias: teria sido o país africano o primeiro do mundo a banir a religião islâmica? 

Após diversos veículos de imprensa africanos noticiarem o fato, o governo angolano negou a informação, mas também não explicou muita coisa.

O site Ango Notícias já noticiara, em setembro, que a comunidade islâmica no país reclamava de perseguição religiosa. Contudo, a polêmica só ganhou força em novembro. 

Tudo começou no dia 22, quando o jornal marroquino La Nouvelle Tribune, em francês, trouxe uma fala da ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva. Segundo ela, “o processo de legalização do islamismo não foi aprovado pelo Ministério da Justiça e Direitos Humanos. As mesquitas poderão ser fechadas”.

Pouco antes, em outubro, o governo angolano indeferira os pedidos de 194 organizações religiosas para serem reconhecidas, entre eles o da Comunidade Islâmica de Angola (COIA). No país, a legislação determina que cada organização se registre junto ao Ministério da Justiça. Para isso, precisa provar a existência de 10 mil fiéis.

Logo em seguida, diversos sites internacionais reproduziram a notícia, chegando aos ouvidos de nações islâmicas. O líder religioso do Egito, o mufti Shawqi Allam, disse que o fato “seria uma provocação não somente aos muçulmanos angolanos, mas a todos os 1,5 bilhão de muçulmanos espalhados pelo mundo”, conforme noticiou a AFP.

O jornal angolano O País denunciou que 60 mesquitas já tinham sido fechadas e que só restavam os templos de Benguela e Luanda. A fonte do jornal relatou que todas foram fechadas sem aviso prévio.

Ao site RTP, David Já, presidente da Comunidade Islâmica de Angola, disse que desde 2006 as mesquitas estão sendo destruídas. Em 2011 e 2012, os casos diminuíram, mas voltaram em 2013.

Por fim, a notícia ganhou ainda mais força quando, no domingo (24), o jornal nigeriano Osun Defender trouxe uma fala do presidente angolano, José Eduardo Dos Santos. “Esse é o fim da influência islâmica em nosso país”, teria dito. A maioria da população angolana é católica, mas cerca de 80 mil são muçulmanos. 

O governo desmente tudo

À Agência AFP, o diretor do Instituto Nacional para Assuntos Religiosos, Manuel Fernando, negou as informações. “Não há em Angola guerra alguma contra o islã ou outra religião. E não temos posição oficial sobre o fechamento e destruição de mesquitas”, disse à AFP.

O Ministério da Cultura afirmou ao site que as mesquitas fechadas não tinham os registros de terra adequados, licenças de construção ou outros documentos oficiais.

Internacional Business Times também relatou que a embaixada angolana em Washington DC, Estados Unidos, negou as informações

“A República de Angola é um país que não interfere na religião. Temos muitas religiões e há liberdade de escolha”, disse a embaixada ao site. “Estamos lendo tudo isso só na Internet, como vocês. Não temos nenhuma prova de que essas notícias sejam verdadeiras”, completaram.

O Internacional Business Times levantou a suspeita de que as informações dos jornais angolanos e africanos e de muitos sites de notícias voltados para o mundo islâmico, podem não ser tão confiáveis assim.

Uma foto de uma mesquita sendo destruída está sendo usada repetidamente por vários sites africanos. A foto é descrita como a destruição de um templo angolano em outubro de 2012.


Contudo, uma pesquisa no Google Images revela que a foto é usada na Internet desde 23 de janeiro de 2008, pelo menos, e que seria de uma mesquita em Israel. A notícia teria se espalhado rapidamente no mundo árabe graças ao site On Islam.

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