segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Como escolher uma religião – Por Welliton Carlos

Você está interessado em uma guinada espiritual? Deseja ter um encontro com o sagrado? Quer acreditar ou tem sido levado a acreditar em algo mais do que comprar bens materiais, fazer sexo, viajar, usufruir das criações humanas? 

Então, chegou a hora de você ter uma religião. Por mais que igrejas e templos sejam instituições amplamente questionáveis, é possível congregar ao lado de inúmeras pessoas em busca de uma experiência pessoal com o lado santo do mundo. Além do mais, ter fé, comprovadamente, produz otimismo e boas emoções nas pessoas, motivando-as e despertando o progresso.

Mas ter fé é fácil? Sob o ângulo religioso, não. Exige esforços, dedicação, unção e muitos outros predicados. Aqueles que acreditam na predestinação, por exemplo, avisam: não é o homem que escolhe Deus, mas Deus que escolhe o homem. Daí que ter fé seria um segundo passo, mais complexo e difícil. Todavia, dizem os defensores do livre arbítrio, fazer parte de uma igreja, sim, é uma questão de autonomia de vontade. 

Para isso, basta querer. Escolher uma religião é algo que exige uma reflexão mais complexa do que torcer para um time de futebol, entrar para a faculdade ou decidir que estilo de música ouvir. Sua escolha religiosa pode modificar sua relação com a família, seus hábitos, normas de conduta e o mais importante: seu interior. 

Não faltam religiões no mundo: do protestantismo ao catolicismo, existem inúmeras denominações e padrões culturais de aproximação com forças maiores, entidades, deuses e espíritos. A religião é um fato social. Conforme Emile Durkheim, trata-se de experiência coletiva. O sociólogo francês parte do pressuposto de que os homens possuem uma natureza religiosa e que todas sociedades formularam para si alguma religião.

Daí a primeira crise da ciência com a religião: quem cria a religião é o homem. Para demonstrar como isso acontece, portanto, Durkheim fez inúmeras incursões nas sociedades totêmicas e mostrou como surgem os rituais e personagens sagrados, conforme, claro, a visão científica.

Os primeiros sistemas de representação que o homem produziu de si e do mundo são de origem religiosa. Entretanto, nesta visão de mundo, não é o divino que cria a religião, mas o homem através de sua experiência.

A crença surge exatamente aqui: se você acredita que esse sistema (religião, igreja e mistério) são criações divinas, então, você tem fé e está apto a aceitar crenças referentes às coisas sagradas. Antes de prosseguir na escolha, um alerta: apesar de algo bastante difícil, você pode buscar a espiritualidade sem a religião. 

O filósofo Mário Sérgio Cortella alerta que as pessoas podem ter ou não religiosidade. Conforme Cortella, o ser humano pode “canalizar a religiosidade” para uma forma institucional, que chamamos de religião. “Todavia, há muita gente com intensa religiosidade que não tem religião”, explica Cortella.

Mas se você deseja conhecer uma religião, siga na leitura das próximas linhas e veja aquela que mais se adequa ao que você pensa e procure se informar sobre a liturgia e rituais, além do conjunto de crenças.

Todos os santos

A Igreja Católica é a primeira religião a se impor universalmente. É também uma das mais poderosas instituições que existem. Basta verificar a quantidade de eventos suscitados na Jornada Mundial da Juventude, que ocorreu em julho no Brasil. Milhares de pessoas se debruçaram em um sistema de crenças produzido ao longo de quase dois mil anos. 

Padre César Garcia explica que a igreja Católica é fundada no cristianismo, um sistema de crenças que surge a partir das práticas e vivências de Jesus Cristo, sujeito histórico que existiu e modificou significativamente a forma de pensar na antiguidade. “Um sujeito que, de fato, existiu, portanto, histórico, um homem santo, que também era o Deus”.

A principal característica da Igreja Católica é sua subordinação à autoridade suprema do papa, o bispo de Roma considerado sucessor do apóstolo Pedro. Não bastasse, a Igreja Católica é um governo, que se institui por meio do Estado do Vaticano. 

A igreja Católica está inserida em um contexto de proximidade com a Igreja Católica Ortodoxa e demais igrejas protestantes e cristãs. E padre César faz questão de ressaltar, inclusive, sua influência cultural e sincrética em outras religiões, como as africanas, que não devem ser desvalorizadas ou menosprezadas.

A doutrina católica é diferente, todavia, das protestantes em detalhes considerados relevantes para os adeptos: enquanto os católicos devem obedecer a autoridade do papa e dos padres, os protestantes seguem a orientação de seus pastores ou reverendos.

A Igreja Católica estabelece um sistema de crenças, fundado em encontros de religiosos (os concílios) que decidiram também pela intermediação divina realizada por meio de santos. Os católicos, logo, acreditam que a intercessão por meio dos santos é algo possível. Daí toda uma cultura de festejos, como festas juninas, uso de novenas para agradecer a uma graça conseguida por um dos santos ou mesmo a oração à Maria, a mãe de Deus, vista com parcimônia pelos protestantes.

Os evangélicos, por sua vez, citam passagens da Bíblia para negar que exista esta possibilidade de oração a outras entidades sagradas que não seja o Deus único. Uma das citações dos protestantes é retirado de Atos (8:26): “Porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os Homens, Jesus Cristo Homem”. 

Os católicos respondem com outros trechos bíblicos, caso de Provérbios 15 (8,29): “O Senhor está longe dos maus, mas atende à oração dos justos (santos)”. Justificam ainda sua busca pelos santos através de outra leitura: “Eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me.” (Daniel 10:13).

 A Igreja Católica explica que seu sistema de crenças foi revelado por Deus através dos tempos. Como os protestantes, faz uso de um livro escrito pela comunidade judaica, o Antigo Testamento. O ápice das crenças, entretanto, é o Novo Testamento, em que aparece literalmente a figura de Jesus Cristo, que instituiu o Evangelho à humanidade.

Culto sem intermediários

Uma das culturas religiosas que mais tem crescido em Goiás é o culto ao Islâmico Alá, expressão em árabe utilizada para se referir ‘Deus’. Existem mesquitas e espaços de ritualização em Goiânia, Jataí, Anápolis, Trindade, Nerópolis, dentre outros municípios.

Na visão islâmica, Alá é único, a única divindade, o criador do universo e onipotente. Então, como se diferenciaria do Deus cristão? Antônio Gueiros Bezerra Júnior explica de forma mais restrita: “Basicamente, é que nós adoramos somente a Deus, sem intermediários. Diretamente. Tudo que fazemos é para Deus. Ele é único, não tem filho nem nenhum semelhante”. 

Ou seja, Jesus Cristo, figura reconhecida pelos islamitas como um profeta, não ocupa o cargo de filho de Deus ou Deus. E nem Maomé ocuparia esse espaço, como se costuma confundir. 

“Ele é o último mensageiro. Um ser humano assim como Jesus, todavia extremamente importante para nossa religião devido os ensinamentos”, explica Antônio, da Juventude Muçulmana de Goiânia.

No ritual muçulmano, diz Antônio, o iman é o encarregado pelas práticas espirituais. Tem o dever de dirigir as atividades superiores da mesquita e realizar intervenções de paz na comunidade. O sacerdote muçulmano realiza casamentos e rituais fúnebres, bem como forma novos xeques em entidades reservadas para o estudo do Corão. 

Antônio Gueiros explica que Malcom X, o pugilista Muhammad Ali (que se chamava Cassius Clay Jr.) e o músico Cat Stevens são alguns dos mais celebres ocidentais que comungam com os ideais muçulmanos.

Religiões para todos os gostos

Outras religiões existentes que se adequam às diversas espécies de personalidades. Algumas toleram e aceitam gays, as mais tradicionalistas, por sua vez, são rígidas.

Igreja Adventista do Sétimo Dia

Surgiu em 1863, de linha protestante, mas que tem como diferencial a observância e respeito do sábado. Não trabalham nem estudam neste dia, portanto. É a décima segunda maior doutrina religiosa do mundo. Tem relativa dedicação aos estudos e ensino, assim como os presbiterianos e batistas. 

Uma das maiores personalidades da medicina internacional, o neurocirurgião Ben Carson, é adventista. Pregam a separação do Estado e igreja, desencorajando a política entre seus integrantes.

Cientologia

Igreja Cientológica é uma das denominações mais polêmicas e excêntricas. Não tem uma representante em Goiânia. Trata-se de conjunto de crenças e práticas criada por um roteirista chamado L. Ron Hubbard (1911–1986). Teve início com um sistema de autoajuda ‘dianética’. Atores famosos como Tom Cruise fazem parte da igreja, que não é das melhores em termos de rituais e boa fama.

Testemunha de Jeová

É uma denominação cristã reconhecida pela atuação persistente de evangelização de casa em casa. Diferente dos evangélicos, procuram primeiro o fiel em sua casa, onde oferecem uma série de estudos gratuitos da Bíblia. Utilizam uma revista, ‘A Sentinela’, como elemento propagandístico de sua doutrina. Realizam amplamente o serviço voluntário e leituras específicas e mais fechadas da Bíblia. Maior polêmica: a questão da transfusão de sangue, rejeitada como um dogma.

Igreja Anglicana

Surgiu de forma inesperada: a Igreja da Inglaterra se separou da Igreja Católica quando o rei Henrique VIII pediu a anulação de seu casamento e não foi atendido. Assim, a igreja se separou mais por motivos políticos do que por discordância com a base da doutrina. Se diz católica reformada. Detalhe: tem maior tolerância ao homossexualismo. Existe uma igreja em Goiânia (Paróquia São Felipe).

Seicho no-ie

Devido à presença japonesa no Brasil, a filosofia ou religião sincretista e monoteísta de origem japonesa tem crescido entre os brasileiros. É contrária ao sectarismo e a ideia de que outras religiões são incorretas ou concorrentes de suas ideias. Mistura ensinamentos do budismo e cristianismo, com forte apelo moral. Está espalhada em várias cidades.

Budismo

É uma filosofia milenar e de incidência religiosa. É não-teísta, ou seja, não prega a existência de um Deus. Os ensinamentos são atribuídos a Buda, que viveu no século VI a.C. Prega a prática de boas ações e ações virtuosas, que produzem resultados positivos na vida. Trata-se de doutrina completamente diferente do cristianismo, com percepções místicas a respeito do sofrimento e do carma humano. Dignifica a sabedoria.

Especialistas explicam como chegar mais próximo de Deus

Brasil é o país do espiritismo

Uma das denominações religiosas mais populares do Brasil, o espiritismo, cresceu 65% no Brasil em dez anos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirma ainda que os adeptos do espiritismo possuem as maiores proporções de pessoas com nível superior completo (31,5%) e taxa de alfabetização (98,6%). Por outro lado, é a religião com as menores percentagens de indivíduos sem instrução (1,8%) e com ensino fundamental incompleto (15,0%).

Os números já revelam, assim, uma denominação diferenciada. Como as igrejas protestantes, existem vertentes que muitas vezes estão em lados quase que opostos. A doutrina espírita kardecista foi organizada pelo pedagogo Allan Kardec, que inspirou uma corrente de ensinamentos que se espalhou no Brasil.

Além da Bíblia, os espíritas se baseiam no ‘O Livro dos Espíritos’, ‘O Livro dos Médiuns’, ‘O Evangelho segundo o Espiritismo’, ‘O Céu e o Inferno’ e ‘A Gênese’. Uma das diferenças centrais do espiritismo de Kardec com as demais crenças monoteístas é seu fundamento científico. Funde-se, assim, ciência, filosofia e religião, numa prática que tem muita semelhança com outras denominações, como a católica e protestante. 

Assim como os protestantes, os espíritas usam a música, teatro, dança e uma série de manifestações para reverenciar aspectos da moral cristã e suas doutrinas filosóficas. Espiritualmente, acredita-se na reencarnação, o que é uma heresia para os demais cristãos. 

Como os católicos, existe um grande apreço para a realização de obras e o bem. Assim, doações e caridades se destacam entre as práticas dos espíritas. Uma das ações controversas da doutrina é a realização de sessões mediúnicas, existe a crença em poderes paranormais para a realização de cura, revelação de obras literárias e mesmo músicas de personalidades que morreram. 

Escolha difícil entre protestantes

Se você não concorda com os dogmas católicos, com a liturgia nem mesmo com as ideologias por trás da igreja, é possível que esteja mais próximo da igreja ortodoxa católica ou anglicana. Ou mais ainda próximo dos protestantes.

A questão é saber qual igreja protestante melhor se encaixa em seu perfil. Existem denominações barulhentas, onde pastores gritam como se fossem narradores de futebol e demonstram profunda e visível emoção. Entretanto, existem cerimônias serenas e calmas, como se os reverendos e pastores buscassem uma comunicação mais intimista com os fiéis.

As igrejas protestantes variam de clássicas e tradicionais às pentecostais e neopentecostais. As clássicas seguem um apego maior ao estudo da Bíblia e baixo interesse em política e rituais de efeito. Ora-se mais, o volume sonoro das bandas de louvor é mais modesto, existe uma discussão mais teológica. Já as igrejas neopentecostais se destacam pela gritaria, uso da palavra pelo fiel e estilo mais agitado. Saber diferenciar estas correntes é essencial. 

Enquanto as igrejas tradicionais seguem um culto mais voltado para o ensino uniforme da Bíblia, os neopentecostais pregam uma teologia da prosperidade, que escuta e diz respeito às necessidades mais imediatas e terrenas. Geralmente é dessas denominações o típico fiel que compra um carro e logo plota “Presente de Deus”, como forma de agradecer o financiamento. Tais igrejas acreditam que Deus atende seus pedidos de bens materiais e prosperidade. 

As tradicionais se voltam para questões mais metafísicas e introspectivas, tornando o discurso religioso mais elitista e de difícil entendimento para fieis menos adeptos da leitura.

Línguas estranhas

Do lado das igrejas tradicionais, pode-se listar a Presbiteriana, a Metodista, Luterana, Batista, dentre outras. Já as igrejas pentecostais mais populares são a Assembleia de Deus, Igreja Deus é Amor e Congregação Cristã. 

As neopentecostais são a maioria das mais recentes, geralmente com nomes semelhantes às denominações originais, como é o caso da Igreja Batista Renovada ou Presbiteriana Renovada, consideradas entidades pós-modernas, que sincretizam ensinamentos bíblicos e práticas. 

As novidades denominativas, como Igreja Universal, Igreja Internacional, Videira, Sara Nossa Terra, são as principais exemplificações das neopentecostais, cuja característica mais próxima das pentecostais é o ato de falar línguas estranhas.

O pastor Antônio Almeida afirma que as igrejas evangélicas, em sua maioria, não se obrigam a seguir uma entidade maior, um concílio, uma reunião de igrejas. “É o caso da expressão ‘Assembleia de Deus’, que pode ser usada por qualquer interessado”, diz. 

Almeida quer dizer que muitas vezes uma assembleia nada ter a ver com outra, apesar de usarem termo semelhante para identificar o templo. A mesma desorganização não se repete dentre os protestantes tradicionais, ligados à denominações já antigas.

Almeida explica ainda que as populares marchas, para Jesus e em defesa de temas morais evangélicos, costumam ser realizadas pelas demais denominações. “Os tradicionais não participam. São mais discretos. Também não costumam se envolver com política”. 

Uma Igreja Católica diferente

Ao contrário de outras denominações ‘católicas’ não reconhecidas ou desaprovadas pelo Vaticano, a Igreja Católica Ortodoxa mantém viva uma história aproximadamente de dois mil anos. Ela surge da divisão do estado romano, devido a interferências políticas. Teve atritos com o Vaticano, mas é historicamente reconhecida.

Por abranger tanto tempo, é uma das denominações que se diz herdeira da igreja primitiva, a primeira que esteve ativa entre 30 e 325 d.C. da mesma forma que a Igreja Católica do papa Francisco, ela preserva o respeito às imagens e uso de vestes litúrgicas, na verdade, a pompa da vestimenta é ainda maior.

Padre Rafael Magul, da Igreja São Nicolau, de Goiânia, explica ao DM que sua igreja tem também na Bíblia o principal objeto de intermediação e exercício de fé. Sua igreja também obedece aos sete sacramentos católicos, batismo, confirmação (ou crisma), eucaristia, reconciliação (ou penitência), unção dos enfermos, ordem e matrimônio.

“Uma das características fundamentais é a espiritualidade. A teologia traz uma luz para o pensamento. Tentamos ensinar a pensar com o coração. E na prática é ser um espelho vivo de Cristo. A Igreja Ortodoxa traz a reflexão da obra, da alegria, da humildade, tem uma forma de serviço”, explica padre Rafael Magul.

A diferença mais aparente e fácil de identificar com a Igreja Católica refere-se exatamente a sua disposição política de não reconhecer a autoridade do papa. Com o tempo, a partir da separação dos estados, a cultura de cada comunidade interferiu na solidificação de seus rituais.

O voto de castidade é opcional para padre ortodoxo e obrigatório para bispo. Os católicos, ao contrário, pregam a castidade absoluta. Outras diferenças dizem respeito ao calendário, sendo que a quaresma para os ortodoxos dura 47 dias, sete a mais do que para os católicos do Vaticano. Outra diferença de calendário: os ortodoxos comemoram o Natal no dia 7 de janeiro.

Facilitadora da fé

Ninguém precisa de religião para ser ‘salvo’. Muito menos a religião significa uma instituição absolutamente séria. Todavia, é o local mais fácil para praticar a fé, cientificamente considerada necessária para o homem.

Pesquisa

Estudo de 2009, demonstra que 29% das pessoas que frequenta cultos religiosos pelo menos uma vez por semana aumentaram sua expectativa de vida se comparada com quem não frequentou nenhuma cerimônia. Foram estudadas 126 mil pessoas.

Abuso de drogas e álcool

Pesquisa do Centro Nacional de Adição e Abuso de Drogas dos EUA comprova: adultos que não frequentam cerimônias religiosas apresentam cinco vezes mais possibilidade de se dedicar ao uso de álcool e drogas, prejudiciais para a saúde.

Hipertensão

Cerca de 40% das pessoas que frequentam igrejas apresentam menor incidência de hipertensão do que os não religiosos. Para aqueles que frequentam igrejas, é possível aumentar em 7 anos a expectativa de vida. Para os não adeptos da fé, diminui o tempo na mesma proporção.





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