segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O céu ao alcance de todos – Por Rafaela Toledo

Ciência e Religião sempre seguiram caminhos evolutivos distintos na história da humanidade. Enquanto a precisão científica buscou suporte na objetividade, a religião partiu para o lado subjetivo do ser humano, lidando com o etéreo, o impalpável. 
De acordo com Amit Goswami, Ph.D em Física Quântica, pela Universidade de Calcutá, Índia, conferencista, pesquisador e professor emérito do Departamento de Física da Universidade de Oregon, EUA, este dualismo é um dos grandes problemas na avaliação materialista da realidade. 
O cientista é referência mundial em estudos que buscam conciliar Ciência e Espiritualidade e afirma em seu último documentário, O Ativista Quântico: “Há evidências científicas bastante definitivas sobre a existência de Deus.”

Goswami é indiano e conta que, apesar de ter crescido numa casa religiosa, isto teve um efeito contrário nele. De acordo com Joseph Campbell, especialista norte-americano em Mitologia e Religião Comparada, as religiões orientais não lidam tanto com o dualismo quanto as ocidentais. Talvez por isso, Amit tenha encontrado mais facilidade de entender o que ele chamou de “Consciência Não-Local”.
Materialismo questionável

Segundo Goswami, a Física Quântica (FQ) propõe uma ruptura drástica com os conceitos de realidade por meio da “primazia da consciência”. O pesquisador sugere a troca da base do ser, do corpo material para a consciência. Para ele, esta realidade vivenciada pelos seres humanos no plano material é apenas uma das possibilidades dentre as quais a consciência escolheu. Partindo do pressuposto que em FQ um objeto não é algo determinado, mas apenas uma possibilidade, Amit questiona o materialismo como base da compreensão humana.
“Nós criamos gerações e mais gerações de crianças ensinando eles a acreditarem que tudo é material. E todas as nossas experiências emocionais, espirituais? Elas aconteceram, mas num nível mais sutil de existência”, explica. Para o cientista, a forma correta de avaliar as experiências humanas é aliar de maneira indivisível as vivências internas e externas ao ser.
Para ele, as experiências internas provam a questionabilidade da teoria materialista como base da Ciência. “Ao contrário do que todos os cientistas pensavam, de que a Ciência deveria ser praticada objetivamente, eu sabia que ela deveria ser feita de forma complementar entre a objetiva e a subjetividade. Eu sabia que uma nova Ciência surgiria”, comenta Amit.
Criando Realidades
Dentro desta lógica, Amit acredita ser possível determinar a própria realidade por meio das escolhas feitas pela consciência. “Se pudéssemos pensar o contrário. Que a consciência é a base do ser, não a matéria. E que a matéria consiste em uma das possibilidades que a consciência escolheu. Em outras palavras estamos dizendo que a consciência não é feita de cérebro, mas o cérebro é feito de consciência”, explica. O pesquisador esclarece que as escolhas da consciência acontecem num nível mais sensível, como por exemplo, em estado de sono.
Isto porque de maneira mais “rasa”, nossas escolhas são feitas no nível do ego. Sendo assim, não se fazem num plano coletivo, mas dentro de uma lógica individualista, talhada pela cultura materialista, como explica Goswami.
Morada do Sagrado

“Se você entende a mensagem da FQ, então tudo o que você tem que fazer em prol de entender que há evidências de Deus na ciência que estamos fazendo agora é reconhecer que o Bem é a forma como Deus está relacionado com a consciência”, explica Goswami. 
Ele acredita que enquanto seres energéticos, compostos de consciências, estamos apenas experimentando o corpo material dentre outras possibilidades de existência, e toda a humanidade é na realidade parte de uma consciência externa, “onipresente, onisciente”, segundo outro físico quântico, também pesquisador do assunto Michio Kaku.
“Estamos chegando à conclusão de que a escolha vem de uma consciência não-local. Essa consciência, que você pode chamar de quântica, é equivalente ao que os místicos chamam de Deus. Atrás de nossos olhares individuais, há uma consciência cósmica, interconectada. Isso é o que realmente somos”, afirma Goswami.
Ele pondera que esta é uma visão de Deus distante do ideológico dualístico que separa o céu da terra e coloca Deus num plano distinto e distante da humanidade. “Há uma unidade por traz de nós. Nós todos estamos conectados de alguma forma”, alega Amit.
O físico contou em seu documentário que diversas pesquisas foram feitas provando “que cérebros podem se comunicar não localmente”, ou seja, sem nenhum sinal interconectando as partes. 
Segundo o pesquisador, no México, pesquisas foram feitas monitorando a atividade mental de duas pessoas isoladas, ambas com intenção de se comunicarem. As respostas desta quanto de outras pesquisas da mesma linha foram unânimes, de acordo com Goswami. 
“A consciência não local colapsa eventos similares em ambos os cérebros porque as duas intenções estavam correlacionadas não localmente. Não há outro entendimento para este resultado”, avalia.
“A consciência que cria a manifestação do universo é, de fato, uma consciência não local. Você pode chamar de Deus, se quiser. Não é obrigado. Mas isso é objetivo. Objetivo e científico”, pondera o cientista.
Ele também relaciona consciência com Deus em seu aspecto criacionista e tem várias pesquisas relacionadas à criatividade. “Nós criamos nossa própria realidade. As intenções funcionam. Mas não no nível do ego. Mas se nós pudermos de alguma forma manifestar uma consciência coletiva, fazer nossas intenções com base numa consciência não-local, se nossa vontade individual se dissipa numa consciência geral, então intenções podem se tornar realidade”, esclarece.
Amit pondera que apenas Deus pode processar o novo. “Cada vez que criamos novas possibilidades, estamos convidando Deus, então ele vem à nós nos momentos em que não estamos processando conscientemente, em que não estamos convertendo possibilidades em eventos. Nestes momentos nós literalmente nos rendemos à Deus. Ele vem e processa, num criativo quântico processo de insight”, explica.
Ele acrescenta que tendo consciência dos insights de Deus, o ser humano pode promover mudanças na forma como se relaciona com as pessoas e propor um comportamento que coincida com sua verdade interior.
Teoria Popular

O especialista tem livros publicados, em nove idiomas, mas ficou bastante conhecido mundialmente após sua teoria se popularizar com o filme O Segredo. Apesar de válida a mensagem, segundo Amit em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, o documentário ‘sensacionalizou’ a ideia, exatamente por não esclarecer que a escolha da consciência acontece em nível sensível, acima do ego, que de acordo com o pesquisador é condicionado.
“As escolhas do ego são condicionadas. Dependem da sua vivência passada e de suas experiências. O ego a gente não pode escolher. A escolha da consciência é mais sutil”, esclarece acrescentando que o fator determinante do sucesso da intenção é a busca do bem coletivo.
Ativista Quântico

Partindo deste princípio, o físico propõe em seu documentário o conceito do Ativista Quântico. Para ele, este personagem é a pessoa que entende que a lógica materialista é um conceito falido e que para mudar a realidade atual, com mostras de esgotamento, é necessária uma revolução interior. 
“Nós temos que mudar primeiro. Temos que reconhecer que também temos o dualismo interiorizado. Nós também escolhemos energias negativas ao invés de positivas. Se nós estivermos com o coração aberto e nos aproximarmos de todas as coisas com amor, a moda pega”, comenta com bom humor o autor.
“Jesus dizia: ame seu inimigo. Amar seu amigo não é suficiente. Ele sabia que estamos conectados, então vamos estar nos matando se matarmos nosso inimigo. É por isso que amar seu inimigo é o único caminho”, comenta. Amit insiste que o bem é um conceito trazido por todas as linhas místicas, ou seja, todos concordam na importância da busca por um bem comum.
De fato, na opinião do padre Rafael, da Paróquia São Nicolau de Goiânia, o espírito se alimenta de boas obras. “Santo Agostinho disse: “Você escolhe o que planta, mas colhe o que planta”, observa o pároco. 
Ele acredita ser muito válida a união entre Ciência e Religião principalmente no aspecto crítico ao materialismo concreto. “Dizer que o corpo é simplesmente matéria, é errado na minha opinião. O ser humano é um equilíbrio geral. Não podemos separar o corpo, a mente e o espírito”, avalia.
Para o religioso, a busca da vida está exatamente na integração entre corpo, mente e espírito. “O objetivo final da Doutrina Cristã é a deusificação, ou seja, justamente encontrar o equilíbrio entre corpo e alma”, esclarece. Para o padre, “a fé são as asas que nos levam aos céus”.
Ideia semelhante à teoria da intenção de Amit, na qual o cidadão é autor de sua realidade partindo do princípio do bem comum e trazendo a criação de Deus (consciência não-local) para a manifestação do universo como é conhecido pela humanidade.
A presidenta da Federação Espírita do Estado de Goiás, Ivana Raisky, observa que a aliança entre Ciência e Religião começou aproximadamente quando Alan Kardec publicou: O Livro dos Espíritos
“O espiritismo tem caráter científico, mas boa parte da comunidade científica rejeita as provas de que somos mais do que matéria. Vemos com bons olhos esta aproximação entre Ciência e Religião. A FQ está despindo preconceitos, considerando a possibilidade de existência de uma inteligência superior, que está além e sobrevive à morte do corpo”, observa.
Para a religiosa, o conceito contribui muito com a evolução humana porque atinge até mesmo os céticos e os que são, de alguma maneira, avessos à religião. 
“Nós temos que evoluir em nossas mentes de forma a adaptar os ensinamentos da FQ em nossas vidas, a não localidade da consciência e a descontinuidade da criatividade. Isso é ativismo quântico. Temos que mudar de uma forma que acelere a evolução para que ela não possa mais ser ignorada. Isso é muito próximo do que os místicos nos dizem sempre. Comece por você mesmo. Somente se você mudar, o mundo poderá eventualmente mudar. Nós estamos apenas indo um pouquinho além. Você só precisa começar consigo mesmo, mas sempre se lembre dos outros, porque você e eu estamos conectados”, aconselha Goswami.
Para o físico, o contato com a consciência se dá por intermédio do meio ambiente. Ele também não acredita haver divisão entre os seres humanos e a ambiente. Sendo assim, se todos fazem parte da unidade, de um todo, o bem comum é a única opção plausível. 
“Estamos todos conectados. E todos nós queremos mudar nossa sociedade. Não há dúvidas de que nestes moldes nossa sociedade não está funcionando. Temos aquecimento global, terrorismo, e uma democracia muito mais influenciada pela mídia e pelo dinheiro. Nossa economia produz enormes diferenças entre as classes e é imperativo que precisamos mudar. Como mudar a sociedade sem entender o que está causando sua degeneração? Temos que reconhecer que é a visão de mundo materialista que comprometeu nossa conexão com a consciêncvia como um todo. Se entendêssemos que o meio ambiente e nós somos a mesma coisa, se víssemos unidade, veríamos a necessidade de proteger o meio ambiente”, avalia propondo a reforma íntima como base de uma revolução social.
Até o fechamento desta edição, nenhum representante da igreja evangélica quis se manifestar.



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