segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

“O Grego de Toledo” está de regresso

Esteve centenas de anos esquecido e foi recuperado no século XX, elevado a ícone da cidade da região de Castilla-La Mancha. É ela que agora volta a homenagear El Greco e a sua obra singular.

Em 2014 passam 400 anos sobre a morte do pintor Domenikos Theotokopoulos, que conhecemos como El Greco, e a cidade espanhola que guarda algumas das suas obras mais notáveis não vai deixar passar a data em branco.

Segundo o diário espanhol ABC, a fundação criada para marcar este aniversário já tem o programa completo e promete dar destaque, entre outras coisas, ao restauro recém-terminado da obra do pintor para a sacristia da catedral de Toledo.

“El Greco é, entre os mestres de todos os tempos, o que mais influenciou a pintura do século XX”, defende Gregorio Marañón y Bertrán de Lis, presidente da Fundação El Greco 2014, nas páginas do jornal espanhol. 

“E esta surpreendente sobrevivência de um pintor do século XVI, cuja memória se perdeu no esquecimento durante quase 300 anos, só se explica pela sua modernidade genial, uma das chaves que mais destacaremos ao longo do ano.” 

Um ano que começa a 18 de Janeiro com um concerto conduzido pelo músico e compositor espanhol Llorenç Barber envolvendo os sinos de 25 igrejas da pequena cidade junto ao Tejo onde o pintor chegou aos 36 anos.

A música continua em Abril, com Riccardo Mutti a dirigir o Requiem de Verdi (dia 12) e Michael Noone a conduzir o de Morales (a 7), entre muitos outros, mas o prato forte são as exposições no Museu de Santa Cruz, o principal da cidade, e a do Prado, em Madrid, que tem na sua colecção obras extraordinárias deste pintor que fugiu à corte e nunca perdeu as suas influências grega e italiana.

Santa Cruz propõe, de 14 de Março a 14 de Junho, uma viagem no tempo à Toledo de El Greco, alargada a outros cinco espaços da cidade em que a pintura e a escultura do mestre ocupam os lugares para onde foram criadas há mais de 400 anos. 

Uma das estrelas desta exposição será Vista de Toledo, pintura que pertence ao Metropolitan Museum, de Nova Iorque. De 8 de Setembro a 9 de Dezembro, o museu volta-se para o atelier do artista e para alguns dos mistérios que ainda rodeiam a sua produção.

A pinacoteca madrilena vai cruzar a sua obra com a de mestres do século XX, para demonstrar a sua “modernidade radical”, diz ainda Gregorio Marañón, num pólo que garante a este aniversário uma montra internacional, a que se juntarão, ao longo no ano, congressos de musicologia e história para mostrar o que de mais recente se tem feito no que toca à investigação científica em torno do “Grego de Toledo”.

Pintura dramática

Domenikos Theotokopoulos (1541-1614) nasceu em Creta, onde recebeu formação como pintor, e mudou-se para Roma em 1570, abrindo o seu próprio atelier, definindo o seu estilo e ganhando grande reputação. Sete anos mais tarde, trocou Itália por Toledo, onde permaneceria até à morte, produzindo as suas obras mais aclamadas para as igrejas e conventos da cidade. Entre elas destacam-se, por exemplo, O Espólio (1579), O Baptismo de Cristo (1595-1600) e A Ressurreição (1608-10).

O seu tratamento das figuras, esguias e com grande dramatismo, combinando as influências da arte bizantina e do maneirismo italiano, tornou-o um pintor singular e, para muitos, absolutamente intemporal, embora na sua época tenha recebido duras críticas de facções mais conservadoras da igreja.

Gregorio Marañón espera que este programa de aniversário que incluirá ainda a encomenda de três instalações à artista plástica Cristina Iglesias venha reforçar a presença de Toledo no mapa turístico, a cidade é hoje muito visitada graças ao seu património histórico edificado, mas apenas 2% dos que ali chegam vão à procura de El Greco. 

A esmagadora maioria quer ver a cidade que foi município romano, capital dos visigodos, praça forte muçulmana, bastião da resistência dos reinos cristãos da península no século XVI (capital de Castela e Leão a partir do século XI) e sede, ainda que por pouco tempo, do poder de Carlos V, o sacro imperador romano-germânico. 

A convivência de religiões e de fortes tradições culturais foi, aliás, um dos motivos mais fortes para que recebesse da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) a classificação de património mundial em 1986.







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