segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O teatro do engano – Por Carolina Rossetti de Toledo

A esposa colérica, o escravo astuto, o jovem apaixonado sem dinheiro, a meretriz, o parasita social. 

Esses são alguns dos personagens mais notórios da comédia de Plauto, dramaturgo romano nascido no século III a.C., cuja obra está entre os textos literários mais antigos preservados em latim. 

As comédias de Plauto foram retrabalhadas por escritores como William Shakespeare, Molière, Luís de Camões e, no caso brasileiro, Ariano Suassuna, que em 1957 usou como subtítulo de sua comédia O santo e a porca a frase “imitação nordestina de Plauto”.

A pesquisadora do núcleo de Letras Clássicas do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp), Isabella Tardin Cardoso, estuda a Comédia Nova Romana, da qual Plauto é um dos principais representantes. 

Em 2006 ela publicou uma tradução para o português da peça: Estico (Editora da Unicamp) e orienta duas alunas que lançarão este ano dois outros títulos de obras do autor. O movimento em torno do autor romano deverá levar a leituras dramáticas de suas comédias em São Paulo.

Pouco se sabe da vida de Tito Mácio Plauto (em latim, Titus Maccius Plautus). Sua biografia é conhecida apenas por testemunhos indiretos. Ele teria nascido em Sarsina, na região central italiana da Úmbria, por volta de 255 a.C. Há registros de que foi para Roma ainda jovem, possivelmente para trabalhar em bastidores de teatro, e tornou-se ator. 

Perdeu todo o seu dinheiro em um empreendimento náutico malsucedido, o que o teria arruinado por completo e o forçado à escravidão por dívida. Um texto do século II d.C. sugere ainda que Plauto começou a escrever peças de teatro justamente para escapar da penúria financeira. Nenhuma das versões pode ser atestada com segurança, diz Isabella.

O que se conhece do dramaturgo sobrevive por meio das peças que escreveu. Ao todo, atualmente há 21 comédias de sua autoria. A produção de Plauto faz parte da chamada Comédia Nova Romana, ou comédia paliata. 

O gênero faz parte do período inicial da dramaturgia latina, entre os séculos III e II a.C. da república romana, um momento de florescimento cultural e literário. O nome vem de pálio, um pequeno manto usado pelos atores nas encenações, em imitação ao vestuário usado pelos gregos.

Já se imaginou que Estico seja uma de suas primeiras produções; as notas de produção informam que a peça foi montada em 200 a.C. Para Isabella Cardoso, autora da tradução anotada em português, essa é uma peça de fato singular, pois vários blocos de cenas, diferentemente de outras produções romanas do período, não apresentam uma conexão direta entre si, atuando mais como esquetes independentes do que como um enredo coeso. 

“Nessa obra fica mais evidente uma característica de Plauto: ele privilegia o efeito humorístico de cada cena. Não está tão concentrado na progressão do enredo, e sim no efeito cômico”, explica a pesquisadora. O nome da peça é baseado em um dos personagens centrais, um escravo fanfarrão.

No momento, Isabella Cardoso está na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, onde, junto com os professores Jürgen P. Schwindt, Melanie Möller (Heidelberg) e Paulo S. de Vasconcellos (Unicamp), organiza a criação de um novo Centro de Teoria da Filologia, com sede dupla na Unicamp e na instituição alemã. 

Previsto para ser inaugurado este ano, o centro investigará sobretudo os métodos empregados pela filologia clássica para avançar no conhecimento de obras literárias da Antiguidade clássica, como as comédias de Plauto.

Entre os maiores desafios da tradução de Plauto, a pesquisadora aponta a dificuldade em manter as nuances de linguagem, a sonoridade do latim, as aliterações e os jogos de palavras. Sem falar no ritmo das peças, assunto que Beethoven Alvarez, da Unicamp, estuda sob a orientação de Isabella. 

“Traduzir qualquer comédia é um desafio e muitas vezes o tradutor acaba com a ingrata tarefa de ter de explicar a piada”, diz ela. Sua tradução de Estico recebeu em 2007 indicação ao prêmio Jabuti de Melhor Tradução e, em novembro de 2013, uma leitura dramática do grupo de teatro paulista Instituto Cultural Capobianco. 

“No Brasil, poucos estudiosos de teatro e literatura conhecem Plauto. Por isso, tem sido fascinante a experiência dos atores, que se mostraram surpresos com a atualidade e graça das peças.”

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