domingo, 30 de março de 2014

Arábia Saudita: cercada e assustada - Por Immanuel Wallerstein

O regime saudita sente-se cercado e teme as consequências que a convulsão no Médio Oriente pode trazer para a sua sobrevivência.

O regime saudita é considerado há muito um pilar da estabilidade política no Médio Oriente, um país que impunha respeito e prudência a todos os vizinhos. Já não é assim, e os primeiros a reconhecê-lo são importantes protagonistas internos do regime. Hoje, sentem-se cercados por todos os lados e bastante temerosos em relação às consequências que a convulsão no Médio Oriente pode trazer para a sobrevivência do regime.

Esta reviravolta deriva da história da Arábia Saudita. O reino em si não é muito antigo. Foi criado em 1932 através da unificação de dois reinos menores da península arábica, Hejaz e Nejd. Era uma parte pobre e isolada do mundo que se libertara do domínio otomano durante a Primeira Guerra Mundial, e ficou então sob a égide paracolonial da Grã-Bretanha.

O reino foi organizado, em termos religiosos, por uma versão do Islão sunita, o wahabismo (ou salafismo), uma doutrina muito estrita e puritana, especialmente intolerante não só em relação a outras religiões diferentes do Islão, mas também a outras versões do próprio Islão.

A descoberta do petróleo iria transformar o papel geopolítico da Arábia Saudita. Foi uma empresa americana, mais tarde chamada Aramco, não uma empresa britânica, que conseguiu obter os direitos de prospeção em 1938. A Aramco procurou assistência do governo dos Estados Unidos para explorar os campos.

Como consequência do interesse da Aramco, combinado com a visão do presidente Franklin Roosevelt sobre o futuro geopolítico dos Estados Unidos, realizou-se uma reunião hoje famosa, então pouco notada, de Roosevelt e do monarca da Arábia Saudita, Ibn Saud, em 14 de fevereiro de 1945, a bordo de um destroyer dos EUA no Mar Vermelho. 

Apesar da grave doença de Roosevelt (morreria dois meses mais tarde) e da falta de experiência anterior de Ibn Saud com a cultura e a tecnologia ocidentais, os dois líderes conseguiram forjar um genuíno mútuo respeito. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill tentou desfazer esta relação numa reunião que promoveu logo depois, mas esta demonstrou-se contraproducente, porque Churchill foi visto como “arrogante” por Ibn Saud.

Apesar de grande parte da discussão privada de cinco horas entre Roosevelt e Ibn Saud ter sido dedicada à questão do sionismo e da Palestina, acerca da qual tinham pontos de vista muito diferentes, a consequência real a longo prazo foi um arranjo prático no qual a Arábia Saudita coordenava e controlava as políticas de produção petrolífera em benefício dos Estados Unidos, e em troca os Estados Unidos ofereciam garantias de longo prazo sobre a segurança militar saudita.

A Arábia Saudita tornou-se uma dependência paracolonial de facto dos Estados Unidos, que permitiu, porém, que a muito extensa família real enriquecesse e se “modernizasse”, não só na sua capacidade de usar tecnologia, mas até mesmo num sentido cultural, contornando, nas suas próprias vidas, muitas das restrições do Islão wahabita. 

Foi um arranjo apreciado e alimentado pelos dois lados. Funcionou bem até a última metade da primeira década de 2000. Dois importantes acontecimentos vieram abalá-lo. Um foi o declínio geopolítico dos Estados Unidos. O segundo foi a chamada Primavera árabe e aquilo que os sauditas encararam como sendo as suas consequências negativas para todo o mundo árabe.

Do ponto de vista da Arábia Saudita, a relação com os Estados Unidos azedou por uma série de razões. Primeiro, os sauditas sentem que a anunciada reorientação “Ásia/Pacífico” dos Estados Unidos, substituindo a orientação dominante por muitos anos “Europa/Atlântico”, implicou uma retirada do envolvimento ativo na política do Médio Oriente.

Os sauditas viram mais provas desta reorientação na vontade de os Estados Unidos entrarem em negociações com os governos da Síria e do Irão. Da mesma forma, ficaram assombrados diante do anúncio da retirada das tropas do Afeganistão, e da clara relutância de se envolverem noutra “guerra” no Médio Oriente. 

Sentiram que já não podiam contar com a proteção militar dos EUA, se ela fosse necessária. Decidiram, por isso, jogar as suas cartas independentemente dos Estados Unidos, mesmo contra as preferências dos EUA.

Entretanto, as relações dos sauditas com outros grupos islâmicos tornaram-se mais e mais difíceis. Eram extremamente cautelosos com quaisquer grupos ligados à Al-Qaeda. E, por boas razões, já que a Al-Qaeda há muito deixara claro que procurava derrubar o regime saudita existente. 

Uma coisa que os preocupava especialmente eram os cidadãos sauditas que foram para a Síria envolver-se na jihad. Temiam, recordando a história passada, que estes indivíduos voltassem à Arábia Saudita dispostos a subvertê-la por dentro. Na verdade, em 3 de fevereiro, por decreto real do próprio monarca (o que raramente acontece), os sauditas ordenaram o regresso de todos os cidadãos. Procuraram controlar a forma do regresso, com a intenção de dispersá-los pelas fronteiras, para minimizar a sua capacidade de criar organizações no país. Parece duvidoso que estes jihadistas vão obedecer. Consideram este édito um abandono por parte do regime saudita.

Além dos potenciais aderentes à Al-Qaeda, o regime saudita tem há muito uma relação difícil com a Irmandade Muçulmana. Apesar de a versão do Islão que esta última professa ser também salafista, e em muitos aspetos semelhante ao wahabismo, houve duas diferenças cruciais. 

A principal base da Irmandade Muçulmana tem sido no Egito, enquanto que a do wahabismo é a Arábia Saudita. Por isso, a sua relação tem sido sempre, em parte, uma competição para se afirmar como a força geopolítica dominante no Médio Oriente.

Há uma segunda diferença. Devido à sua história, a Irmandade Muçulmana sempre teve um pé atrás em relação aos monarcas, devido à estreita relação do wahabismo com a monarquia saudita. Por isso, o regime saudita não vê com bons olhos a expansão de um movimento que não iria importar-se caso a monarquia saudita fosse derrubada.

Embora antes mantivesse boas relações com o regime baathista na Síria, agora isso tornou-se impossível devido à polarização crescente entre sunitas e xiitas no Médio Oriente.

A falta de apreço dos sauditas por laicos, simpatizantes da Al-Qaeda, partidários da Irmandade Muçulmana e pelo regime xiita baathista não deixa qualquer grupo para apoiar obviamente na Síria de hoje. Assim, o regime saudita envia algumas armas a alguns poucos grupos e finge que faz muito mais que isso.

O grande inimigo é realmente o Irão? Sim e não. Mas para limitar os danos, o regime saudita está secretamente envolvido em negociações com os iranianos, cujo resultado é ainda muito incerto, já que os sauditas acreditam que os iranianos querem incentivar um levante dos xiitas na Arábia Saudita. Embora o número total de xiitas seja incerto (provavelmente em torno de 20% da população saudita), eles estão concentrados no sudeste do país, precisamente na área de maior produção de petróleo.

O único regime com o qual os sauditas se dão bem hoje é o israelita. Ambos se sentem cercados e assustados. E ambos utilizam as mesmas táticas políticas de curto prazo.

O facto é que o regime saudita tem pés de barro. A elite interna está em transição da chamada segunda geração, dos filhos de Ibn Saud (os poucos filhos sobreviventes estão muito idosos), para os netos. São um grupo grande e inexperiente, que pode ajudar a deitar abaixo a casa real devido à competição pelos espólios, que ainda são consideráveis.
Os sauditas têm um bom motivo para se sentirem sitiados e temerosos.


Immanuel Wallerstein - Sociólogo e professor universitário norte-americano. Wallerstein interessou-se pela política internacional quando ainda era adolescente, acompanhando a actuação do movimento anticolonialista na Índia. Obteve os graus de B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque, onde ensinou até 1971. Tornou-se depois professor de Sociologia na Universidade McGill, Montreal, até 1976, e na Universidade de Binghamton, Nova York, de 1976 a 1999. Foi também professor visitante em várias universidades do mundo.



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