sexta-feira, 14 de março de 2014

Físico, matemático, poeta, pintor, teólogo: Pavel Florensky, o Leonardo Da Vinci russo - Por Enrique Chuvieco


Até 1991, ele era um total desconhecido num continente submerso em racionalismo, numa Europa que nega paranoicamente a compatibilidade entre fé e ciência apesar das muitas descobertas científicas cujos próprios protagonistas acreditam em Deus.


Naquele ano, porém, foram abertos os arquivos da KGB para revelar a vida e a obra de Pavel Florensky, cientista, matemático, escritor, pintor, poeta e padre, executado em 1937 depois de vários anos preso em um gulag. Ordenado sacerdote ortodoxo em 1911, um ano depois de se casar, ele faz parte da galeria dos sábios mais importantes de todos os tempos. Pavel Florensky é comparado nada menos que com Leonardo Da Vinci.

Nascido no Azerbaijão em 1882, ele se mudou para Moscou aos 18 anos. Quatro anos mais tarde, terminou a graduação em Matemática e em Física, o que lhe rendeu várias ofertas de cargos que ele recusou para se dedicar aos estudos eclesiásticos.

Durante o período de estudos na Universidade de Moscou, publicou: “O pilar e as bases da verdade: um ensaio de 12 cartas”, valorizado por grandes matemáticos como Egorov e Luzin como uma obra capaz de “devolver a vontade de viver”. A Princeton University Press publicou o livro em 2004.

Picasso, Einstein, geometria

Em 1910, Pavel Florensky se casou. Em 1911, foi ordenado sacerdote ortodoxo. Devemos a ele a noção de perspectiva inversa na arte. O cubismo de Picasso encaminhou Pavel a revisar os pressupostos científicos da perspectiva geométrica: com argumentos de óptica e com seu conhecimento enciclopédico da história da arte, ele mostrou que a perspectiva monocular, herdada do Renascimento, era uma “expressão simbólica” artificialmente construída. Em 1924, publicou monografias sobre dielétricos e arte russa antiga. Seu texto-base sobre engenharia elétrica foi usado durante mais de 30 anos.

“Números imaginários em geometria” é o título de um dos seus trabalhos científicos mais importantes, em que apresenta uma interpretação geométrica da Teoria da Relatividade de Einstein.

No começo dos anos 1930, desenvolveu um aparelho capaz de fotografar os raios infravermelhos e ultravioletas além do espectro visual. Deportado para a Sibéria, seu poderoso espírito inquieto o levou a estudar os gelos perpétuos e sua cristalização: ele criou uma câmara especial para o seu microscópio, transformando-se em um dos pioneiros da microfotografia. De quebra, inventou um líquido anticongelante.

Teólogo, filósofo, místico, poliglota

Pavel Florensky desenvolveu estas e outras facetas do seu talento criativo sendo sacerdote ortodoxo. Ele sempre se impressionou com a religiosidade cristã de Leon Tolstói, o que o levou à faculdade de teologia: durante anos, dedicou-se aos estudos da bíblia, da filosofia, da história da filosofia, da mística, da lógica matemática, do hebraico… 

Fundou a Fraternidade Cristã de Luta, motivo de prisão em várias ocasiões, embora tenha deixado a militância de lado em 1907. Licenciou-se em teologia em 1908 e, no mesmo ano, se tornou catedrático em história da filosofia.

Conquistou grande reputação no mundo universitário moscovita lecionando aquelas disciplinas. Ao explodir a revolução russa em 1917, passou a ocupar a cátedra de espacialidade na obra de arte e, mais afastado da política, conseguiu conviver durante algum tempo com a revolução. Mas os problemas não demoraram muito para surgir.

O Leonardo Da Vinci russo

Apesar de reconhecido como uma das mentes mais privilegiadas da Rússia nos âmbitos intelectuais, a ponto de ser chamado de Leonardo Da Vinci russo, Pavel Florensky foi tachado de contrarrevolucionário e monarquista. 

As atas do seu interrogatório mostram claramente que ele culpou a si próprio inventando uma absurda conspiração da qual faria parte em cumplicidade com o Vaticano. Seu objetivo, com isso, era livrar outros prisioneiros, mesmo ao preço de morrer executado em 8 de dezembro de 1937, muito perto de Leningrado.

Com a eficácia do regime soviético para fazer seus inimigos “desaparecerem”, não sobrou de Florenski nem sequer a certidão de batismo. Sua figura só permaneceu na memória de alguns discípulos e familiares; ainda hoje, grande parte do seu pensamento e da sua obra continua desconhecida.

Apaixonado por tudo, Pavel Florenski encarnou uma religiosidade aberta à beleza de toda a realidade. Por isso, ele previu já em 1917 o fim da ideologia comunista no seu país: 

“Eu tenho certeza de que, quando o niilismo se esgotar e mostrar a sua incapacidade, todos estarão fartos e despertarão do ódio. E depois que esta ignomínia tiver fracassado, os corações e as mentes, renovados, se voltarão para a ideia russa, sem olhar para trás, famintos…”.






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