quinta-feira, 12 de junho de 2014

Até à 5ª Casa: Adeptonatismo - Por Sérgio Diamantino

Existe no mundo do futebol uma espécie de lavagem cerebral assustadora porque a razão deixa-se ultrapassar constantemente pelo sentimento e, nem sempre, esse sentimento é bom. 

Muitas vezes, o sentimento de cegueira é tão evidente que a falta sobre o nosso jogador é caso para expulsão e quando é o nosso jogador a fazer falta não é nada mais do que "ir à bola".

E os adeptos não vão apenas "à bola". Há todo um ritual à volta do jogo que vai desde a indumentária, até ao apito final, passando pelo caminho que se faz até ao estádio, onde se estaciona antes de ir a pé ou apanhar o metro. “Ir à bola” implica todo um planeamento desde o encontro de amigos até às bifanas nas roulotes.

É uma religião em que, dentro da mesma religião, se odeiam as diferentes igrejas. Onde os traidores de uns são os heróis de outros, onde nunca se desculpará nada até ao momento em que o traidor marca golos e que o herói das nossas cores passa a Judas com as cores do adversário. Desculpa-se o indesculpável e o indesculpável é compreensível.

O futebol é assim. E neste momento em que as pessoas se juntam em torno de um Campeonato Mundial, esquece-se que quem organiza o evento faz trafico de influências, troca favores e altera legislações para seu benefício.

Existe uma “regra” na Economia que nos diz que o custo de algo não é apenas o que se gasta para o conseguir mas também a outra hipótese. Ora no Brasil, o custo não são apenas os estádios para o Mundial, mas também o facto desse dinheiro não estar a ser aplicado em educação e hospitais.

Talvez este evento deva ser o momento em que as pessoas não devam esquecer o que ele custa. Não o desporto em si, mas o facto de haver quem beneficie com ele exactamente por causa do fanatismo dos adeptos. Há quem tenha percebido esta paixão há muito tempo e se esteja a aproveitar disso mesmo para seu belo prazer.


Isso não nos impede de cantar o hino de pé e com a mão no peito quando a Selecção Nacional entrar em campo, mas deixa-nos atentos para os meandros do futebol jogado fora do relvado. Qualquer dia, o relvado está estéril.



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