segunda-feira, 14 de julho de 2014

Religiões do futuro – Por Aparecida Andrade

A religiosidade tem evoluído juntamente com as mudanças da sociedade contemporânea.

À medida que a humanidade evolui através das transformações que ocorrem, seja devido à própria evolução humana, mudança de hábitos, novas descobertas, transformam-se, consequentemente, o meio em que vivemos. 

E a fé, as religiões também passam por transformações, rupturas e percepções de valores, de acordo com o tempo em que vivemos? Para entender essas realidades, especialistas apontam as causas dessas mudanças e tendência das religiões do futuro. 

Boa parte da humanidade, é fato, acredita em um único criador. Mas as formas e meios de reconhecê-lo e adorá-lo às vezes se divergem. Dentro de um contexto histórico, a primeira divergência ocorreu na Europa, quando passou por intensas transformações, marcadas pelo renascimento e pelo avanço do capitalismo. 

“Com o declínio da idade média e o surgimento do capitalismo, reformadores como Lutero, Calvino, Zuínglio e outros trouxeram a autonomia das Escrituras e dos homens”, descreve o teólogo pós-graduado em teologia sistemática, Cláudio Henrique.

Na época, a insatisfação com a Igreja Católica era geral, a vida luxuosa dos eclesiásticos, de acordo com o que diz a história, era alvo de ataques, assim como a venda de indulgências, o perdão automático dos pecados, como uma passagem para o paraíso. 

O marco inicial para a ruptura veio da Alemanha, em 1517, quando o monge Martinho Lutero escreveu uma lista de críticas, as 95 teses, contra o comércio de indulgências, surgindo assim a supremacia da Bíblia sobre as autoridades eclesiásticas. 

Com essa ruptura, nascia a Igreja Protestante europeia, que defendia que os cristãos poderiam perfeitamente exercer sua fé sem depender de intermediários, como padres, santos e rituais. De acordo com Cláudio, a nova religião implantou um dogma simples. “Doutrinas comuns atualmente, tais como a salvação pela fé, o batismo, acesso a Bíblia, revolucionando o cristianismo moderno”, define.

Segundo ele, nos últimos 100 anos as transformações se aprofundaram, o que trouxe rupturas às estruturas de controle sobre o homem centrado na igreja. “Nas últimas décadas, os impactos das transformações políticas, sociais, intelectuais e econômicas nos levaram a viver em um mundo cada vez mais dinâmico, automatizado e humanista, o que favoreceu as transformações e surgimentos de novas igrejas”, explica.

Fundamento 

O teólogo Cláudio pontua que a religião nasceu com a queda do homem, com o propósito de religar o homem caído à presença de Deus. “O termo 'religião' vem do latim religare, que é religar a Deus, pois, após a queda do homem e da mulher no Jardim do Éden, entrando assim o pecado na humanidade, a religião passa a ser a religação entre Deus e o homem”, narra.

A partir da queda, explica o teólogo, “como forma de preencher o vazio de suas almas, os seres humanos sentem a necessidade da crença ou de crer em alguma coisa que se apresente como solução, buscando-a em qualquer coisa. Para nós, cristãos, é a fé em Jesus Cristo, filho de Deus, e nas Escrituras como revelação de Deus para o homem”, ressalta.

Para ele, atualmente, a religião tem sido vista por muitos como algo retrógrado e representando atraso na alta modernidade. “Para a maior parte das pessoas, a visão de ter uma espiritualidade, acreditar em algo transcendente, é algo da moda, mas pertencer a uma religião e defender suas doutrinas passou a representar algo ultrapassado, 'politicamente incorreto'”, analisa.

A igreja do futuro

Para o teólogo pós-graduado em teologia sistemática Henrique, os precursores das religiões do futuro são a comunidade evangélica que surgiu na década de 70, em Goiânia. Que mudou, segundo ele, a forma de louvor brasileiro, trazendo também o movimento apostólico. 

“A dificuldade de alcançar esta resposta nos diz sobre a realidade das religiões em Goiânia e no Estado de Goiás, pois, a exemplo dos EUA de 20 anos atrás, existiram igrejas que eram televisivas, as pessoas se encontravam somente em frente a seus aparelhos de televisão, não havia contato presencial, havendo coleta de dízimos e tudo, mas isto é coisa do passado”, afirma. 

No Brasil, cita ele, começou há pouco tempo estes movimentos tipo RR Soares, Valdomiro Santiago e Silas Malafaia. 

“Apesar dos mesmos terem igrejas físicas, pode-se dizer que igreja do futuro é aquela que sabe usufruir da ampla tecnologia como forma de diferencial da igreja passada. As doutrinas não serão modificadas em si”, mas, acredita, por exemplo, que haverá pregação personalizada ao vivo por webcam, via smartphone ou tablet, escolha da pregação com votação via rede social com engajamento presencial.

Destaca que a segunda onda de modelos de igreja apontando para o futuro da igreja como cada vez mais segmentado, por exemplo, são as igrejas que só ministram libertação, outras apenas de cura divina, ministério da palavra para jovens, empresários, mulheres, casais, inclusivistas, definindo assim o rol membro e público alvo.

Homossexualidade aceita por Deus

Dentre as igrejas do futuro citadas por Henrique está a inclusiva, que, com base na definição da teologia, é uma igreja para todos que buscam verdadeiramente viver na graça de Deus que acolhe a diversidade humana. 

"A maioria das denominações cristãs que atuam hoje no mundo não tolera acolher gays, lésbicas, bissexuais e transexuais sem a pretensão de reeducá-los, incorporam na sua educação moral uma série de princípios heteronormativos que nada tem a ver com a essência da mensagem de Deus", define o manual da teologia inclusiva.

Pensando em encontrar um espaço acolhedor e de respeito mútuo, o pastor Edson Santana, 49 anos, após não ser aceito, enquanto homossexual, na igreja onde congregava, resolveu fundar, em 2009, a Igreja Renovada Inclusiva para a Salvação (Iris), em Goiânia, com aproximadamente 20 membros. 

"A Igreja Iris é cristã e tem uma base bíblica teológica para existir, toda sua documentação e registro foram legalizados em 2010, junto ao fórum de Transexuais de Goiás", assegura.

Edson conta à reportagem do Diário da Manhã que, antes de fundar uma igreja inclusiva, trabalhava na igreja tradicional em todas as áreas e sentia-se excluído até por ele próprio, devido às traduções da Bíblia e ao que lia sobre homossexualidade. 

"Sofri como todos os LGBTT (lésbicas, gay's, bissexuais, travestis e transexuais) evangélicos sofreram e sofrem. Todo tipo de violação de direitos humanos e falta de amor ao irmão em não aceitá-lo como ele é", lamenta.

Preconceito

De acordo com Edson, a igreja inclusiva é hoje considerada por muitos uma anátema ou uma dissidência de ex-evangélicos que fundaram uma doutrina. Mas a teologia inclusiva prefere, apenas, afirmar que são cristãos, discípulos de Jesus e ter a Bíblia como única fonte de fé.

Ele reconhece que enquanto pastor da Igreja Renovada Inclusiva para Salvação, Iris, já sofreu muitos preconceitos. "Coisas como: 'igreja de gay deve ser igual boate, um puteiro, uma depravação' e muitos outros desrespeitos", revela.

O pastor afirma que "a lição/missão/chamado que Deus deixou foi de amarmos o nosso próximo. Entendendo isso a nossa igreja começou desde o início um trabalho com todos os marginalizados pela sociedade. Realizamos com o reconhecimento das secretarias de Estado e município eventos e intervenções com travestis, profissionais do sexo e população LGBTT em geral (doentes, filhos colocados para fora de casa pela sua sexualidade etc) e ainda parcerias com diversas entidades de direitos humanos, conselhos como LGBTT e de saúde", descreve sobre o trabalho realizado pela igreja. 

Bíblia

A igreja inclusiva interpreta a Bíblia a partir de uma cultura muito diferente daquela na qual nasceu. “Ignorar esse fato ou esse princípio hermenêutico fundamental pode nos fazer cair em fundamentalismo, literalismos, leituras descontextualizadas e numa manipulação do texto bíblico. Ainda se a homossexualidade fosse um pecado, ela não nos afastaria do amor de Deus”, assegura.

Pontua ainda “casos como a mulher que hoje tem voz e antes não podia abrir a boca, tudo mudou no mundo e houve em muitas épocas das traduções conveniências para se culpar a homossexualidade”, menciona.

O pastor Edson Santana acredita que a igreja inclusiva poderá ser uma das religiões do futuro, a qual se tornará comum como as já existentes hoje católica e protestante. “Creio sim, talvez nem existamos mais ou o termo de igrejas inclusivas. Nos Estados Unidos, em 2013, o concílio da Igreja Presbiteriana determinou que todas as igrejas presbiterianas americanas tivessem a inclusão como bandeira”, salienta.

Para o teólogo Cláudio Henrique, a cada dia a igreja tende para uma religião mais tolerante e segmentada. Mas o que liga todas as religiões em um só propósito “é a busca de conhecer o transcendente que leve a conhecer a si próprio e a alcançar as grandes respostas da vida, tais como: para que nascemos, vivemos e morremos, para onde iremos após a morte, existência de um Deus criador de todas as coisas”, conclui.

Para o pastor Edson, igrejas como Bola de Neve, Trance Divino, Igreja da Maconha e Igreja Renovada Inclusiva para Salvação (Iris) podem ser consideradas as novas religiões do futuro desde que preguem o verdadeiro amor. “Fazer o bem, dar a quem precisa, vivemos em um mundo onde as pessoas são carentes de fé, amor, compaixão e muito mais, de uma palavra amiga e confortadora, consoladora”, declara.

Já para o teólogo Cláudio, existem muitas igrejas que não cumprem os requisitos básicos para serem consideradas como religião. “Tais como: sacramento, redenção, liturgia, doutrinas, salvação e doutrinas das últimas coisas, são fundamentos para atender necessidades específicas e seus argumentos são finitos”, conclui.

Outras religiões

Igreja do Trance Divino

A Igreja do Trance Divino foi fundada em 2005, na cidade de Alto Paraíso de Goiás, após o pastor Veet Prayas e missionário Gauthana receberem de Jáh (Deus) orientação para criá-la. A Igreja visa propiciar a seus membros uma vivência e experimentação indo profundamente por entre os caminhos da música eletrônica, mais especificamente o trance.

Além de ser destituída de qualquer forma de preconceito, adota como lema a verdade, a bondade e a beleza. Dentro da sua hierarquia possui membros que ocupam cadeiras eclesiásticas, sendo elas a de pastores do trance, bispado, monastério e missionários.

Tem como objetivo levar o Trance Divino por todas as partes do universo e o enriquecimento cultural de seus membros prezando pela paz e harmonia do planeta.

Igreja Bola de Neve Church 

É uma denominação evangélica pentecostal fundada no ano 2000 por Rinaldo Luís de Seixas Pereira, que tem por público alvo todos que quisessem crer na Palavra de Deus. Composto principalmente por pessoas de estilo alternativo.

O nome Bola de Neve vem da proposta dos fundadores que tinham por objetivo propagar o trabalho como uma bola de neve, aumentando de tamanho e alcance ao longo do tempo.

Igreja da Maconha

Surgida na década 30 na Jamaica, a seita messiânica sustenta que a maconha é sagrada e Deus é Jah. Aqui no Brasil, o religioso Geraldo Antonio Baptista é o líder da igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião do Brasil, chamada de Igreja da maconha.

Recebeu uma sentença de oito anos, 10 meses e 20 dias de reclusão, a serem cumpridos inicialmente em regime fechado. Após ser acusado de semear, cultivar e colher sem autorização a planta usada para a preparação da droga para ao consumo de outras pessoas, inclusive adolescentes.

Igreja de Satã


A igreja de satanás foi oficialmente criada por Anton La Vey em 1966. La Vey também escreveu a bíblia satânica. A sede da igreja fica em San Francisco, Estados Unidos. No Brasil, a igreja de satanás foi fundada em 1997 por Lord Ahriman, conhecido como Deacon Paulo. 




Nenhum comentário: