sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A concórdia, dever a efectivar-se nas diversas formas de religião – Por Cunha Sério*.

Nas informações que, todos os dias, nos chegam das lutas e guerras vividas, neste mundo, sobressaem, hoje, as terras do Médio Oriente, onde se cruzam ódios e rivalidades entre os fiéis pertencentes às chamadas Religiões do Livro: judeus, cristãos e muçulmanos.

Ora estas crenças cuja origem se enxerta no mesmo tronco: Abraão, o grande patriarca apontado, no primeiro livro da Bíblia, que judeus e cristãos têm como revelação divina e é indicado, no Alcorão, a leitura dos muçulmanos (a palavra Alcorão significa Leitura) como antepassado dos seguidores das religiões monoteístas seguidas ainda hoje por milhões e milhões de crentes.

Da parte da Igreja Católica existe hoje um anseio de entendimento recíproco entre todos os homens mormente entre os que aceitam a fé num único Deus verdadeiro, Criador de todas as coisas.

Textos conciliares do Vaticano II, ao mencionarem estas três famílias que fundamentam a sua fé na existência de um só Deus, depois de citarem o cristianismo indicam as outras duas:

“Em primeiro lugar, aquele povo que recebeu a aliança e as promessas e do qual nasceu Cristo segundo a carne...Mas o desígnio de salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm, em primeiro lugar, os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão e connosco adoram o Deus único”.

Infelizmente, ao longo da história, entre os seguidores do monoteísmo surgiram não poucas controvérsias até por causa de ensinamentos julgados divinos misturados com critérios e desequilíbrios humanos. Nasceram mesmo guerras civis por motivos que deveriam ser fonte de unidade e concórdia entre quem se considera nascido do único Senhor.

Ao falar destas rixas entre os seguidores de Cristo e os discípulos de Maomé escreve o Concílio: 

“E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este Sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens”.

É que em numerosos aspectos da vida humana, todos seguem mandamentos cujas raízes defendem: a concórdia entre os povos, o respeito por todos os filhos de Deus que compõem a humanidade, a paz universal do mundo inteiro. 

Nos nossos dias, os mentores e dirigentes destas religiões apregoam continuamente, com gestos e palavras, o dever da unidade e da paz a estabelecer entre todas as raças, doutrinas, nações, respeitando a liberdade de todos numa tolerância benévola e caridosa.

Recordemos os diferentes encontros iniciados por São João Paulo II, em Assis e estendidos até aos dias de hoje, sobretudo quando se temem os horrores de conflitos sinistros, destruidores de vidas humanas, populações indefesas, monumentos da história¸ organizações do presente, construções para o futuro e uma série imensa de  engrenagens estruturais para as gentes vindouras. 

Por entre os acontecimentos que agitam sobretudo as nações onde os muçulmanos vivem, em grandes colectividades, provocando mal-estar e desordens até à morte, apraz escrever algumas palavras de seguidores de Maomé, de Cristo e de Moisés, para sabermos não nascerem estes factos tremendos na fé dum único Deus.

Ibn’Arabi, muçulmano espanhol de século XIII, afirma: 

“Houve tempo em que eu rejeitava o meu próximo, se a sua religião não fosse a minha. Agora o meu coração tornou-se receptáculo de todas as formas religiosas: é pradaria de todos os animalejos,  claustro de monges cristãos, templo de ídolos, abrigo de peregrinos, Tábuas da Lei e Folhas do Alcorão, porque professo a religião do Amor e vou onde correr o seu corcel, pois o Amor é o meu credo e minha fé”.

S. Bento deixa exalçado na sua Regra: 

“A todos os hóspedes que se apresentem no mosteiro hão-de acolher-se como ao próprio Cristo em pessoa, porque Ele dirá, um dia: ‘fui peregrino e acolhestes-Me’. Aos peregrinos sair-se-á a receber com nossa sincera caridade, saudando-os com humildade profunda. Uma vez acolhidos, ler-se-á, diante deles a Lei divina e logo se lhes obsequiará com todos os sinais da mais humana hospitalidade”.

Abraão, patriarca de todos os crentes, o pai do Povo Escolhido Israel, foi registado pelos israelitas como o exemplo do hospedeiro, porque, sem o saber, recebeu o mesmo Deus: 

“Abraão ergueu os olhos e viu três homens de pé em frente dele. Imediatamente correu à entrada da tenda ao seu encontro, prostrou-se por terra e disse: ‘Meu Senhor, se mereci o teu favor, peço-te que não passes adiante, sem parar em casa do teu servo. Permite que te traga um pouco de água para te lavar os pés; e descansai debaixo desta árvore. Vou buscar um pouco de pão e, quando as vossas forças estiverem restauradas, prosseguireis o vosso caminho, pois não deve ser em vão que passastes junto do vosso servo’. Eles responderam: ‘Faz como disseste’”. 

Tal disponibilidade que levou o patriarca a preparar um lauto banquete granjeou da parte de Deus, presente nos transeuntes, a promessa de um filho na sua velhice.

Entre os homens paira o ditame antigo: “Faz aos outros o que queres que te façam a ti” ou noutra versão: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”.

Ao pensar nas guerras e revoltas actuais, não vamos julgar ser a religião que provoca tantos males. Muitos homens não seguem as suas crenças, mas seus apetites. 


Nada de confusão na análise destes acontecimentos e saibamos estabelecer a paz entre todos os homens, firmando-nos na compreensão que gera a caridade.

Cunha Sério* - Padre.



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