sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A crença, em muitos tamanhos e formatos – Por Samuel Silva

Israel é o território onde Natan Dvir fotografou, durante cinco anos, cerimónias de quatro religiões, mas também manifestações políticas e sociais. 

Com essas imagens construiu Belief, a série com que expõe pela primeira vez em Portugal: Encontros da Imagem, em Braga.

 “Perturbado”. Ao longo da conversa com o Ípsilon, Natan Dvir (Nahariya, Israel, 1972) repete esta expressão mais do que uma vez.

Nascido em Israel, mas radicado nos Estados Unidos desde há cinco anos, o corpo central do seu trabalho tem-se centrado nas diferenças culturais e religiosas, abrindo possibilidades de convivência que parecem arredadas do quotidiano daquela região. 

Esta característica do seu trabalho abre uma porta para que, além de fotografia, fale sobre temas políticos. E é nessa altura que começa a repetir a mesma palavra. 

“Perturbado”. Usa-a para falar da ameaça do Estado Islâmico e do fanatismo religioso, repete-a quando o assunto é a limitação que sente, no seu país de origem, para expressar a visão plural que tem para aquele território. 

Voltará a recorrer a ela para falar da última guerra em Gaza, no Verão deste ano.

Dvir é hoje um homem menos optimista do que há dez anos, quando começou a fotografar Belief, a série que expõe, desde há uma semana, na Reitoria da Universidade do Minho, no âmbito dos: Encontros da Imagem, até 31 de Outubro. E ainda mais depois do último Verão. A guerra (mais uma) em Gaza “acabou de matar a esperança”, diz.

Nasceu em Israel, agora vive em Nova Iorque. Por que se mudou?

Quando comecei a minha carreira era um auto-didacta. Comecei no fotojornalismo, mas o meu trabalho estava a ir, cada vez mais fortemente, para o mundo da arte e senti que precisava de expandir o meu conhecimento. Decidi entrar num Master em Fine Arts, na School of Visual Arts. Esta foi a desculpa para ir para Nova Iorque. Mas a razão principal é que  queria viver em Nova Iorque e expandir a minha inspiração visual. Sendo um país fascinante, Israel é limitado desse ponto de vista. E eu queria novos desafios para desenvolver a minha fotografia.

O facto de ser de Israel é uma marca no seu trabalho como fotógrafo.

Nem sempre. Tenho diferentes corpos de trabalho, que correspondem a diferentes temas. Tento explorar questões politica, sociais, culturais e económicas, de um ponto de vista humano.

As pessoas em Israel gostam de expressar as suas opiniões e gostam de debater sobre elas. No passado, senti que esta era uma troca de ideias ou opiniões mais frutífera, mas nos anos mais recentes tem-se tornado cada vez mais problemático. Algumas opiniões têm-se tornado ilegítimas, o que realmente me perturba ao pensar que Israel é um país democrático e que devia aceitar que todas as opiniões sejam ouvidas e partilhadas.

Mas crescer num país como Israel, onde as diferentes identidades religiosas e culturais estão bastante presentes, não é parte da explicação para o facto de ser tão aberto às diferenças entre culturas?

Definitivamente é parte da questão. Israel é uma sociedade muito heterogénea em termos de religião, de opiniões, de estatutos económicos e sociais. É um local pequeno, mas com muitas coisas a acontecerem. Ali, alguém pode escolher manter apenas uma opinião e defendê-la com muita força, ou, como é o meu caso, pode preferir abrir o espectro e ser mais interessado em pessoas que são diferentes de si. Não penso que essas pessoas sejam uma ameaça à minha existência ou que haja um problema por serem diferentes. Na verdade, interessam-me por isso. Israel é definitivamente parte deste ponto de vista pluralista.

É isso que encontramos nesta série Belief. Foi um trabalho longo?

Trabalhei nesta série por cinco anos. Os trabalhos mais antigos são de 2004 e o último foi fotografado em 2009. No início, não sabia que estava a trabalhar nele. Estava a fotografar em vários locais de Israel e, um ano ou dois depois, comecei a olhar para o meu arquivo e a perceber que havia várias fotografias em eventos políticos e religiosos que eram muito cinematográficas. Comecei a analisar qual era o meu interesse neste tipo de imaginário e percebi que estava fascinado com a forma como as pessoas praticam as suas crenças, os lados bons e os maus disso. E depois decidi começar a trabalhar de forma mais consciente, o que aconteceu algures no final de 2005 ou no início de 2006.

Todas as fotografias foram feitas em Israel? E que religiões são retratadas?

Sim, todas as fotografias são feitas em Israel. Há, obviamente, judeus, mas também cristãos, muçulmanos e samaritanos. São quatro religiões diferentes. Mas Belief não é apenas sobre religiões, é sobre crenças. É por isso que titulei a série desta forma. Podem ser crenças políticas, questões de género, ou qualquer coisa que esteja na nossa vida.

Há fotografias que têm uma aproximação claramente mais fotojornalística e outras que são mais pictóricas. 

Todas as fotografias foram escolhidas porque não descrevem um momento específico. Pode questionar o que está a acontecer aqui, mas não há muita informação, intencionalmente, porque isso não é importante. As fotografias devem criar um “mini-cosmos” para poderem ser contempladas, independentemente do evento específico. Estas imagens têm muitos mais sentidos e é isso que as torna arte. Não descrevem um evento, mas permitem a contemplação e um questionamento mais abrangente. A série adopta, intencionalmente, uma linguagem mais dramática e, uma vez que estamos a falar de religião, obviamente que há referencias à historia da arte, especialmente à arte religiosa. Além disso, a luz, a composição, a cor foram instrumentos muito importantes.

É mais do que um catálogo de crenças?

Não é um catálogo de crenças. De facto, a série trabalha em sentido contrário à possibilidade de falar-se de um quadro específico de crenças ou religiões. O que pretende é pensar acerca do que é mais comum entre as religiões e do que é diferente entre elas. Olho para a crença como uma necessidade de a pessoas acreditarem em alguma coisa. As crenças têm uma série de valores, como um sentido de tradição, de pertença a uma comunidade, de entendimento das questões mais importantes da vida, mas, por outro lado, podem empurrar-nos para situações extremas, como o fanatismo e para outras situações muito complexas. Tento explorar este eixo entre os lados bons e os maus. E uso as crenças políticas e religiosas apenas como exemplo, porque Israel é visualmente muito interessante desse ponto de vista. No entanto, podia facilmente fazer uma série como estas nos EUA acerca das crenças politica ou económicas. A crença vem em muitos tamanhos e formatos. Em Israel faz mais sentido falar sobre questões políticas e religiosas.

Como olha para fenómenos como o Estado Islâmico e o que está a acontecer na Síria e no Iraque?

Fico perturbado com o fanatismo na religião e com as várias formas de comportamento extremista. percebo de onde vem este fenómeno, mas isso é também parte daquilo que “Belief” está a discutir. É assustador pensar no que está a acontecer na Síria ou no Iraque, porque é uma ameaça sobre a forma como vemos a nossa vida moderna.

Por outro lado, as pessoas do Estado Islâmico também podem olhar para nós e dizer que é o mundo Ocidental que é uma ameaça à forma como as pessoas deviam estar a viver as suas vidas como muçulmanos. É sempre uma questão de ponto de vista. Mas penso que o comportamento fanático é muito problemático para nós, enquanto seres humanos.

Tem este ponto de vista equilibrado sobre as questões religiosas. Isso não lhe levanta problemas em Israel?

Provoca, em alguns casos. As pessoas em Israel gostam de expressar as suas opiniões e gostam de debater sobre elas. No passado, senti que esta era uma troca de ideias ou opiniões mais frutífera, mas nos anos mais recentes tem-se tornado cada vez mais problemático. Algumas opiniões têm-se tornado ilegítimas, o que realmente me perturba ao pensar que Israel é um país democrático e que devia aceitar que todas as opiniões sejam ouvidas e partilhadas. Também fiz alguns projectos acerca do conflito israelo-árabe.

Sim, Eigtheen, uma das suas séries mais recentes. 

Precisamente. Foca-se na população árabe de Israel. Pessoas que são cidadãos de Israel, mas têm origens palestinianas e que são 20% da população do país. Eu concentro-me em pessoas com 18 anos, porque queria pensar sobre o futuro. Estas são pessoas que estão a começar as suas vidas.

E esse é um momento onde começa a haver diferenças entre os jovens daquele território, uma vez que os árabes não vão para o exército, ao contrário dos judeus, que têm que cumprir o serviço militar. 

É exactamente isso. Foi aí que começou a minha ideia: É aqui que nós nos separamos. Eu fico perturbado porque, como muita gente, espero que se encontre algum tipo de solução onde toda a gente possa viver junta e ter uma vida próspera. Toda a região tem um potencial fascinante, mas, com o passar dos anos, fico cada vez menos optimista e cada vez mais perturbado, especialmente depois da recente guerra em Gaza.

Porquê?

Porque há opiniões radicais a serem partilhadas dos dois lados e a devastação foi incrível e acabou de matar a esperança. Neste momento há uma nova geração em Israel que odeia os palestinianos e uma nova geração em Gaza que odeia Israel. Houve uma destruição imensa que vai demorar anos e anos a reconstruir. Nada, absolutamente nada, mudou, apenas a esperança foi destruída.

Como é que se passa de trabalhos como Belief ou Eighteen para Coming soon, onde fotografa cartazes gigantescos em Nova Iorque? O mundo da publicidade também é um mundo de crenças?

Não há crença aí. A minha ideia aí era fotografar um tema diferente e usar uma linguagem fotográfica diferente. Eighteen é muito mais retrato, retratos muito confrontadores, que discutem a natureza da minha relação com aquelas pessoas. No caso de Coming soon sou muito mais um observador. Mudei-me para os EUA há cinco anos e não o mesmo que viver num sítio por 30 e alguns anos e poder chamar-lhe lar. Eu queria justapor o sonho nos cartazes com a realidade debaixo deles e queria discutir a paisagem urbana e comercial de Nova Iorque, a cultura comercial, pensando sobre os sonhos que existem nos Estados Unidos.

É o ponto de vista de um estrangeiro?


Ser estrangeiro ajuda, neste caso. Muitos americanos nem sequer reparam nos cartazes. Quando lhos mostrei, diziam: “A sério? Nunca tinha reparado nisso”. Às vezes, é preciso vir de fora para perceber coisas que, para as pessoas de lá, são muito comuns, outras vezes vé preciso estar por dentro para ir ao fundo das questões. São capacidades diferentes que ajudam em projectos diferentes. Ambos me interessam e estou no momento certo da minha vida para ser capaz de o fazer, em termos fotográficos, mentais e de interesse num tema, sendo capaz de o explorar do ponto de vista visual, filosófico e artístico.




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