sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Deus é voto – Por Ricardo Mariano

Depois de quase um século sem se fazer notar, a mistura de religião com política hoje é essencial para o debate democrático.

Em sua reta final, a eleição de 2012 para a prefeitura de São Paulo se transformou em debate religioso. 

A discussão em torno da descriminalização do aborto e a distribuição de kits informativos contra a homofobia, criados pelo Ministério da Educação, tornaram-se armas eleitorais importantes e forçaram os candidatos José Serra e Fernando Haddad a pisar em ovos para não se arriscarem a perder votos nem dos religiosos nem dos progressistas. 

Na disputa do primeiro turno, a candidatura do apresentador da Rede Record Celso Russomanno, filiado ao Partido Republicano Brasileiro (PRB), ambos, rede televisiva e partido, são da Igreja Universal do Reino de Deus, foi criticada por instrumentalizar eleitoralmente a religião e por estar a serviço de um conglomerado religioso e empresarial.

Até o final da década de 1970, os pentecostais, de modo geral, eram vistos como apolíticos, sendo inclusive acusados de alienados. 

Já no contexto da redemocratização, em meados dos anos 1980, muitos dirigentes pentecostais estavam dispostos a participar da redação da nova Constituição e adotaram o lema “irmão vota em irmão”, lançando e apoiando candidaturas de religiosos. 

Alegavam que era preciso eleger seus próprios representantes parlamentares para defender sua liberdade religiosa, evangelizar a política, proteger a família, a moral cristã e os interesses de suas Igrejas, assim como para combater propostas antibíblicas e moralmente condenáveis, como a união civil de homossexuais, a descriminalização do aborto e do consumo de drogas, entre outras.

A mobilização surtiu efeito: os pentecostais saltaram de dois deputados federais em 1982 para 18 em 1986, sendo 13 da Assembleia de Deus. Feito considerável, dado que só cinco deputados federais tinham sido eleitos por eles entre 1910 e 1982. 

Nesse período, a representação parlamentar dos evangélicos no Congresso Nacional, iniciada com a eleição do metodista Guaracy Silveira para a Assembleia Constituinte de 1934, foi dominada por presbiterianos (36 deputados), batistas (25), luteranos (15), congregacionais (9) e metodistas (9). 

A partir de 1986, os pentecostais assumiram o protagonismo político entre os evangélicos. As outras denominações protestantes, somadas, elegeram 14 deputados naquele ano.

Nas eleições posteriores, as diversas igrejas evangélicas alcançaram 23 deputados federais em 1990, 30 em 1994, 49 em 1998, 59 em 2002, 48 em 2006 e 73 em 2010. 

A redução do número de representantes nos pleitos de 1990 e 2006 decorreu de escândalos envolvendo corrupção e troca de favores que atingiram principalmente deputados da Assembleia de Deus e da Igreja Universal do Reino de Deus. Mas, entre 1986 e 2010, o número de evangélicos na Câmara Federal mais que dobrou, acompanhando a vertiginosa expansão demográfica dos evangélicos, liderada pelos pentecostais.

Em 2005, Edir Macedo, fundador da Universal do Reino de Deus, criou um partido político, o PRB, pelo qual reelegeu em 2010 o senador Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal e seu sobrinho, desde março deste ano titular do Ministério da Pesca.

Cerca de metade dos deputados pentecostais é composta de pastores, cantores gospel e parentes de líderes de igrejas, tele-evangelistas e donos de emissoras de rádio e TV. Ainda assim, para serem eleitos, esses candidatos dependem fortemente do apoio eleitoral de pastores e líderes denominacionais. Essa dependência reforça o caráter corporativista e moralista de seus mandatos e seu compromisso de atuarem como despachantes de igreja.

A maioria dos parlamentares evangélicos no Congresso Nacional, 30 dos quais eleitos pelo Partido Social Cristão (PSC), pelo PRB e pelo Partido da República (PR), é filiada à Frente Parlamentar Evangélica (FPE), criada em 2003. 

A FPE apresenta grande heterogeneidade partidária e denominacional e não tem poder para uniformizar a atuação parlamentar de seus membros. Por isso, sua coesão ocorre apenas em casos que envolvem a defesa da moral cristã tradicional e de interesses materiais e institucionais de suas Igrejas. 

Em defesa da moral e dos bons costumes, a FPE une forças com deputados ligados a grupos católicos conservadores para lutar, por exemplo, contra o Projeto de Lei nº 122/2006, que criminaliza a homofobia, por considerá-lo um atentado contra a liberdade religiosa e de expressão. 

A Frente também se opõe radicalmente à descriminalização do uso privado de drogas, à legalização da eutanásia e de casas de prostituição e à interrupção da gravidez até a 12ª semana mediante atestado de médico ou psicólogo.

Hoje, o ativismo eleitoral e partidário dos pentecostais, a despeito de suas inclinações sectárias e fundamentalistas e de seu caráter moralista, é um dado da democracia e da cultura política brasileira. Viva e despudoradamente, essa prática tem sido estimulada por candidatos e partidos de todos os quadrantes ideológicos em busca de votos. 

Apesar disso, muitos crentes se opõem individualmente à manipulação eleitoral dos fiéis e à mistura entre religião e política; não se deixam transformar automaticamente em peças de currais eleitorais cegamente obedientes à orientação pastoral. 

A Congregação Cristã no Brasil e a Igreja Deus é Amor, por exemplo, abrigam 12% dos pentecostais e permanecem apolíticas. Denominações protestantes tradicionais, em geral, também não lançam nem apoiam candidatos oficialmente. Mas esta não é a postura da maioria dos pentecostais e neopentecostais, justamente as vertentes evangélicas que mais crescem no país.


Ricardo Mariano é professor da PUC do Rio Grande do Sul e autor de Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999).




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