quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Choque de civilizações ou choque de ignorâncias? – Por José Carlos Janela


Na sequência dos atentados contra o semanário satírico “Charlie-Hebdo”, contra o supermercado “casher” na Porte de Vincennes e ainda da grande Marcha Republicana muitas são as vozes que se têm feito ouvir. 

Entre estas avulta a de Claude Dagens, membro da Academia Francesa, “Agrégé” de Letras e Bispo de Angoulême.

Entrevistado pelo semanário “La Vie” (n° 3620, de 15 a 20 de Janeiro de 2015, p. 29) declara que o primeiro sentimento provocado pelos atentados é o horror e logo a seguir, o medo, medo esse que traz a divisão entre os Seres Humanos, dando-lhes a impressão que são inimigos uns dos outros, sobretudo entre Judeus e Muçulmanos. E continua sublinhando a necessidade de cultivar a confiança entre as pessoas. 

Para isso, diz textualmente:

“É preciso recusar a ideia de uma guerra de civilizações […] porque não se trata de um choque de civilizações mas de um choque de ignorâncias. […] A perversão terrorista, diz, não é uma deriva da religião, é um projecto de destruição. […] O terrorismo é uma perversão da própria guerra, porque mata pessoas sem defesa. Estamos perante o horror do mal, o nihilismo mais radical, muito embora, travestido de formas místicas”.

O mesmo periódico (n° 3621, de 22 a 28 de Janeiro de 2015, p. 25) entrevista esta semana Malek Chebel, antropólogo das religiões e autor de: “L’Inconscient de l’Islam”, CNRS Éditions.

Este especialista traz-nos alguma informação histórica sobre a representação da figura de Maomet. Passamos a transcrever, traduzindo.

“Não há nada no Corão nem nos hadiths (as palavras de Maomet) que proíba a representação da figura do Profeta. Os Muçulmanos foram influenciados, neste ponto, pelo conflito iconoclasta no Mundo Bizantino, nos sécs. VIII–IX quando rebentou a guerra entre cristãos: uns favoráveis à representação de Deus e dos Santos e outros a ela contrários. A questão fundamental, entre os Bizantinos, era a da idolatria. Ora, o Corão menciona a proibição da idolatria”.

E esta não é sinónimo da representação de imagens, acrescentaremos.
À pergunta: “Mas o Islão permite o humor sobre o Profeta?”, Malek Chebel responde textualmente:

“A decisão, o humor sobre o Profeta é uma problemática contemporânea. Maomet foi ridicularizado ainda em vida. A sua mensagem era escarnecida pelos seus detractores. Hoje é difícil fazer humor sobre a religião. Os fundamentalistas levantaram ao máximo a fasquia da intolerância. Até aos finais do séc. XIX, o humor religioso era frequente, no Império Otomano: o alvo [das ironias] eram os imãs e a hierarquia religiosa. Com a queda do Império, em 1923 e o fim de uma autoridade central, cada tendência fez a sua própria interpretação [do Corão]. E os fundamentalistas levaram a melhor”.

O entrevistado conclui desta forma:

“Para mim, todo o Islão político se situa fora do campo do sagrado. O Islão proíbe o suicídio. A morte de outrem só é admitida em caso de legítima defesa. Estas pessoas usam a noção de sagrado para atingir os seus fins. Utilizam o vocabulário religioso […] para dar uma coerência aparente, às acções mortíferas que levam a cabo. É um caso de poluição da religião pela política e pela ideologia”. 


Conhecer o Outro é fundamental. 




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