terça-feira, 3 de março de 2015

Rio de Janeiro lidera em casos de discriminação religiosa, aponta SDH



Há oito meses, mãe Conceição de Lissá, de 53 anos, vê seu terreiro, o que sobrou dele, com cada vez menos fiéis. 

Antes de um incêndio destruir o barracão no Jardim Vale do Sol, em Duque de Caxias (cidade na Baixada Fluminense), cerca de 100 pessoas participavam dos rituais. 

Agora, em média, 20 aparecem. O medo, após o oitavo ataque em oito anos, é um dos motivos para a debandada. Também influi o fato de o barracão ainda estar destruído, o que limita os rituais à área externa do terreiro. Quando chove, as atividades são suspensas.

Episódios de intolerância como esse colocaram o Rio de Janeiro na primeira posição entre os Estados brasileiros no número de denúncias sobre discriminação religiosa em 2014. De acordo com levantamento da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, o Rio de Janeiro teve 39 queixas no último ano e ultrapassou São Paulo como Estado com mais relatos de intolerância ao Disque 100 (número disponibilizado pela Secretaria como canal de denúncias).

Os registros paulistas caíram entre os dois anos, de 50 para 29, enquanto o índice do Rio de Janeiro se manteve o mesmo. O índice nacional também caiu: de 231 para 149.

Desde o incêndio, mãe Conceição faz terapia e agora tenta reconstruir o terreiro. Ela conta que ainda faltam R$ 150 mil para concluir a reforma. "Tivemos uma perda considerável, ficamos muito fechados para nós mesmos. A gente precisa renascer, a gente precisa retornar as nossas atividades normais, as nossas festividades." Segundo ela, várias vítimas de intolerância contra religiões afro não denunciam "porque as casas ficam desacreditadas". "Vai acontecer o que aconteceu com a minha casa."

Para Janayna Lui, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, a liderança do Rio de Janeiro no ranking se deve à força das instituições que defendem a liberdade religiosa. 

"De uns dois, três anos para cá, há um movimento no Rio para impulsionar a criação de políticas públicas contra a intolerância religiosa", diz, citando o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) e a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR).

A segunda razão, diz a pesquisadora, é que o ensino religioso no Estado é controverso e pode ter gerado denúncias ao Disque 100. Lei estadual de 2000 estabelece que o modelo adotado no Rio de Janeiro é o confessional, ou seja, cada aluno deverá ter aulas ministradas conforme seu credo. O problema é que faltam professores de religiões de matrizes africanas, por exemplo. 

"As escolas afirmam que não há demanda. E aí a criança acaba sendo colocada em uma sala de aula da religião que não é a sua." De acordo com o Censo de 2010, 45,81% da população fluminense é católica e 29,37%, evangélica.

O preconceito é uma das memórias que a cigana Miriam Stanescom, 77, guarda dos tempos de escola. "Eu brigava muito no colégio. Se sumia uma borracha, a culpa era minha. Me formar foi o maior milagre da minha vida", relata. A discriminação acompanhou sua rotina acadêmica.


Vitórias da equipe de vôlei da qual fazia parte, por exemplo, eram fruto de "feitiçaria" para os colegas. "Quando passei no vestibular, muita colega minha que não passou falava: 'ah, mas a cigana é feiticeira'. Dá para fazer um livro com as histórias de preconceito".




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