domingo, 5 de abril de 2015

Com maioria da população católica, Minas Gerais abre espaço para outras religiões


Outras religiões avançam sobretudo nos maiores centros urbanos. Marca da tolerância está impressa inclusive nos fiéis, que não raro frequentam mais de um tipo de culto

Em nome de Deus, de Jesus e de todos os santos. E sob as bênçãos de Alá, Javé e dos orixás, em caminhos guiados pelos espíritos de luz e inspirados nos ensinamentos de Buda. Minas, de maioria católica, 70,4%, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), abre espaço sagrado também para as demais religiões e doutrinas, que, em tempos de papa Francisco e crise econômica, sinalizam para o diálogo, pregam a paz universal e buscam formas de atenuar o sofrimento humano. 

Em muitos municípios a tradição fala mais alto, como ocorre em Camacho, na Região Centro-Oeste, onde quase 100% dos moradores têm o padre como líder espiritual. Em outros, o inverso se manifesta a olhos vistos. 

É o caso de Sarzedo, na Grande BH, que quase duplicou o número de evangélicos em uma década. O certo mesmo é que, independentemente do templo e do credo, os mineiros mantêm a fé em Deus, com baixo índice de ateísmo, embora superior, na capital, às médias nacional e estadual, todas inferiores a 1%. Não raro, muitos acendem uma vela para o santo de devoção na capela, enquanto recebem passe no centro espírita ou fazem oferendas nos terreiros de candomblé. 

Neste domingo de Páscoa, o Estado de Minas publica a primeira de duas reportagens sobre a religiosidade dos mineiros, mostrando um painel variado de experiências, práticas e iniciativas de cada religião para ganhar território e ampliar o rebanho. Para o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, o momento pede reflexão. 

“Nós, católicos, que representamos mais de 70% da população mineira, refletimos sobre o crescimento de outras confissões religiosas. Contudo, o que mais nos preocupa é o crescimento daqueles que não creem. Como Igreja, nos perguntamos: por que tantas pessoas deixaram de crer?”

Herdeiros do padre Alberto Camacho

As mãos deslizam suavemente sobre a barriga de quase nove meses e depois seguram com delicadeza a imagem de São Sebastião. Ao lado do marido, Ananias, a assistente social Melécia Luíza Vieira Moreira, de 37 anos, conta que até pensou em dar o nome do santo ao menino, mas uma tradição local falou mais alto e o casal decidiu: o menino vai se chamar Lucas Alberto. 

Para os moradores de Camacho, na Região Centro-Oeste de Minas, a escolha não é surpresa, pois está para nascer quem nunca tenha ouvido falar no padre Alberto Evangelista Marques Guimarães (1901-1979), natural de Morro Vermelho, em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que viveu na cidade durante 36 anos, deixando um legado de fé, obras sociais e fortalecimento da espiritualidade. 

“É uma homenagem ao sacerdote que me batizou. Todo mundo aqui gostava muito dele”, diz Melécia com um sorriso e o prazer estampado no rosto ao acariciar novamente a primeira “casa” do herdeiro.

Logo na entrada da moradia do casal, perto da praça denominada Padre Alberto e da Matriz de Nossa Senhora das Dores, padroeira de Camacho, pode-se ver um altar com mais de 10 imagens. A última do acervo foi a de São Sebastião, conquistada em um sorteio, da paróquia, com mais de 5 mil fiéis. 

“Nem acreditei quando anunciaram o meu nome no alto-falante”, revela a futura mamãe, ainda exultante.Vivemos numa cidade de fé, tradição que passa de geração a geração, e tenho certeza que continuará assim”, afirma a assistente social.


Do outro lado da praça, o pároco Gedler Henrique Breves Pereira conta que padre Alberto deixou bases sólidas de catequese, evangelização e trabalho pastoral. “Uma obra na qual moral e ética dialogam com o discurso religioso”, avalia o titular da paróquia e estudante de psicologia. “Padre Alberto nunca tirou a batina. Nem mesmo depois do Concílio Vaticano II”, afirma o sucessor, em uma referência ao encontro de bispos, em Roma, que promoveu a modernização da Igreja Católica, na década de 1960.

Com 3,3 mil habitantes e economia baseada na cultura do café, Camacho tem 97,3% de católicos e foi dos poucos municípios no estado que, entre 2000 e 2010, registraram crescimento do número de pessoas que professam essa fé (0,63%). Outro destaque foi Senador Firmino, na Zona da Mata, com 96,9% de católicos e aumento de 0,66%.

Essas cidades se enquadram perfeitamente em levantamento feito pelo Centro de Processamento de Informação e Pesquisas Pastorais e Religiosas (Cegipar) da PUC Minas, com base nos dados do Censo 2010 do IBGE e sob coordenação da geógrafa Izabella Carvalho. Conforme o trabalho de filiações religiosas, o número de católicos cresce nas áreas rurais de Minas, distantes, portanto, dos centros urbanos e industrializados e do maior fluxo de correntes migratórias e levas de trabalhadores.

Declínio

Na Grande BH, esse retrato fica bem nítido, pois todos os municípios apresentaram perda no número de católicos entre 2000 e 2010. A capital apresentava 87,2% de católicos em 1980 e caiu para 80% (1991) até atingir 59,8% em 2010, índice inferior ao nacional (64,6%) e ao estadual (70,4%). 

A porcentagem de evangélicos está na casa dos 25% ou 595 mil pessoas. Alto Caparaó, na Zona Mata, tem, em termos proporcionais segundo o Cegipar, a maior concentração de evangélicos: 55,9% em 2010.

No Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, por influência do médium Chico Xavier (1910-2002), nascido em Pedro Leopoldo, na Grande BH e falecido em Uberaba, é bem expressiva a comunidade espírita, que arrebanha 2% de brasileiros, 2,14% de mineiros e 20,24% dos moradores de Pratinha, no Alto Paranaíba, seguido de Campo Florido (17,1%) e Uberaba (15,5%), no Triângulo. BH (4%) reúne o maior percentual da região metropolitana, seguida de Pedro Leopoldo (3,9%) e Lagoa Santa (2,6%).





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