segunda-feira, 13 de abril de 2015

Um ruído diferente se misturava aos atabaques e aos pedidos aos orixás no terreiro do Recôncavo Baiano. - Por Luiza Gould



Por trás da câmera, um frei. O alemão Thomás Kockmeyer é o responsável por uma coleção de 200 fotografias que retratam o candomblé baiano entre os anos 1930 e 1940 e que agora poderão ser estudadas.

O material inédito, contido em uma caixa de madeira com o nome do frei, foi descoberto no convento de Santo Antônio, no Recife, e levado para o acervo do Resgate Documental da Província Franciscana de Santo Antônio do Nordeste do Brasil, na mesma cidade. 

O projeto consiste na coleta de documentos e objetos históricos que são reunidos em uma única unidade no Recife, o Arquivo Provincial Franciscano. A busca é feita em conventos e igrejas dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas, Sergipe, Bahia e Pará.

“Já estamos com esse trabalho, criado pelo frei Roberto Soares, há nove meses e a grande importância dele é poder organizar, identificar e preservar esse patrimônio histórico, dando acesso à informação. É um arquivo eclesiástico, da história dessa ordem, e desvenda uma parte da vida do Brasil, já que os franciscanos atuaram fortemente aqui desde o período colonial”, explica Débora Mendes, coordenadora do projeto.

“Registro Etnográfico”

No caso do acervo do candomblé, as imagens revelam não só a religião, mas os hábitos da comunidade negra do interior da Bahia, o que, para o antropólogo Raul Lody, tem uma grande importância cultural, já que o Brasil é a segunda nação com a maior população de negros do mundo. Responsável por catalogar as imagens, o especialista em matriz africana no Brasil conta que se surpreendeu com o material:

“Acho que é uma das coleções mais importantes que temos hoje no gênero, tanto em Pernambuco quanto em âmbito nacional. As fotos têm qualidade, são fruto de um olhar extremamente respeitoso, imparcial. Não é um registro folclórico, mas sim etnográfico, que traz as festas, os objetos sagrados, as indumentárias, o cotidiano, os rostos. É um conjunto muito rico de temas recuperados”, analisa.

A imparcialidade ressaltada por Lody advém do fato de Kockmeyer, apesar de ser um frei, atuar também como historiador durante o tempo em que esteve no Brasil.

“Existiam os freis que cuidavam da Igreja, mas também aqueles que eram artistas, artesãos, além dos historiadores, que acompanhavam cotidianos e faziam seus relatos”, conta Débora.

Ordenado no Brasil em 1938, o religioso viveu por três décadas no país e tinha a fotografia como hobbie. Documentos da ordem trazem o registro de ao menos duas expedições dele, uma de 1950, cuja localidade não está definida, e outra, de 1958, época em que o frei passou sete meses com os índios Tirió, no oeste do Pará. 

Essa experiência faz os membros do projeto suspeitarem que Kockmeyer seja o autor de outra coleção também recentemente encontrada, composta de 202 imagens de índios do interior do Pará. Como o material não está identificado, no entanto, não é possível confirmar sua origem.

O frei morreu em 1978, aos 65 anos, em um acidente de carro, no Brasil. Ele foi enterrado em Rio Formoso, cidade do interior de Pernambuco onde era vigário havia 12 anos.

O projeto Resgate Documental reunirá em mostra prevista para maio as imagens do acervo do candomblé e outros materiais que já fazem parte do Arquivo Provincial. Depois do evento, tudo estará disponível para consulta. Um banco de dados está sendo criado, e pesquisadores poderão consultá-lo em terminais da sede.






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