sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Facção radical Estado Islâmico consagra teologia do estupro – Por Rukmini Callimachi




Antes de violentar a menina de 12 anos, o combatente da facção radical Estado Islâmico (EI) explicou que o que estava prestes a fazer não é pecado. Como a menina pré-adolescente praticava uma religião que não era o islã, o Corão não apenas lhe dava o direito de estuprá-la, como concordava com o ato e o incentivava, ele insistiu.

Ele amarrou as mãos da garota e a amordaçou. Então ajoelhou-se ao lado da cama e se prostrou para orar, antes de estuprá-la. Quando o ato terminou, ele se ajoelhou novamente para orar, de modo que o estupro foi precedido e seguido por atos de devoção religiosa.

"Fiquei falando a ele que estava doendo, pedindo para ele parar", contou a menina. "Ele me disse que, segundo o islã, ele está autorizado a estuprar uma pessoa que não é crente. Disse que me estuprando, está se aproximando de Deus." A menina contou o que aconteceu em entrevista que deu ao lado de sua família em um campo de refugiados em Qadiya, para onde escapou após 11 meses de cativeiro.

O estupro sistemático de mulheres e meninas da minoria religiosa yazidi se entranhou profundamente na organização e na teologia radical do EI no ano passado desde que o grupo anunciou estar recuperando a escravidão como instituição. Entrevistas com 21 mulheres e meninas que escaparam recentemente do EI, além de um estudo dos comunicados oficiais do grupo, revelam como a prática foi institucionalizada, passando a figurar entre os dogmas fundamentais da organização.

O comércio de meninas e mulheres yazidis criou uma infraestrutura permanente, com uma rede de "depósitos" onde as vítimas são mantidas em detenção, salas de exposição, onde são inspecionadas e negociadas, e uma frota de ônibus usada exclusivamente para transportá-las.

Ao todo 5.270 yazidis foram sequestradas no ano passado, e pelo menos 3.144 continuam em cativeiro, segundo lideranças yazidis. O EI desenvolveu uma burocracia detalhada de comércio escravista para lidar com elas, incluindo contratos de vendas autenticados pelos tribunais islâmicos controlados pela facção. E a prática de escravização de mulheres virou uma ferramenta de recrutamento amplamente usada para atrair homens de sociedades muçulmanas profundamente conservadoras, onde o sexo casual é tabu e o namoro é proibido.

Um conjunto crescente de memorandos internos e discussões teológicas definiu diretrizes que regem a escravidão; ele inclui um longo manual de "como fazer" divulgado no mês passado pelo Departamento de Pesquisas e "Fatwas" (decretos) do Estado Islâmico. A liderança do EI enfatizou repetidas vezes uma leitura estreita e seletiva do Corão e outros textos religiosos, de modo a não apenas justificar a violência, mas também saudar cada agressão sexual como sendo ato espiritualmente benéfico, até mesmo virtuoso.

"Cada vez que ele vinha me estuprar, ele orava", contou F., de 15 anos, capturada no monte Sinjar um ano atrás e vendida a um combatente iraquiano na casa dos 20 anos. Como outras entrevistadas pelo "New York Times", ela pediu para ser identificada apenas por sua primeira inicial, devido à vergonha associada ao estupro.

"Ele me dizia a toda hora que isso é 'ibadah'", ela disse, usando um termo das escrituras islâmicas que significa adoração religiosa. "Dizia que me estuprar era sua oração a Deus. Eu disse a ele: 'O que você está me fazendo está errado e não vai aproximar você de Deus'. E ele falou: 'Não, é permitido, sim'", disse a adolescente, que escapou em Abril com a ajuda de traficantes, depois de passar quase nove meses escravizada.

Conquista Calculada

A adoção formal da escravidão sexual sistemática pelo EI data de 3 de Agosto de 2014, quando seus combatentes invadiram os vilarejos no flanco sul do monte Sinjar, um maciço acidentado no norte do Iraque. Seus vales e despenhadeiros são habitados pelos yazidis, pequena minoria religiosa que representa menos de 1,5% da população iraquiana, estimada em 34 milhões de pessoas.

A ofensiva na montanha foi deflagrada dois meses após a queda de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque. Inicialmente, pareceu que o avanço subsequente na montanha era apenas mais uma tentativa de ampliar o território controlado pelos combatentes do EI. Quase imediatamente, porém, surgiram sinais de que o objetivo do EI desta vez era diferente.

Sobreviventes contaram que os homens e as mulheres foram separados na primeira hora após sua captura. Em um povoado após outro, os homens e rapazes foram levados a pé ou de carro para campos das redondezas, onde foram forçados a se deitar no chão e fuzilados com armas automáticas. Mas as mulheres, meninas e crianças foram levadas embora em caminhões.

"A ofensiva na montanha foi lançada tanto para fins de conquista sexual quanto de ganho territorial", disse Matthew Barber, especialista sobre a minoria yazidi na Universidade de Chicago, nos EUA. Ele estava em Sinjar quando o ataque começou, no verão do ano passado, e ajudou a criar uma fundação que dá apoio psicológico às vítimas que conseguiram escapar, que passam de 2.000, segundo ativistas da comunidade.

F., de 15 anos, conta que sua família de nove pessoas estava tentando fugir em estradas vicinais da montanha quando seu carro, um Opel velho, ficou superaquecido. Ela, sua mãe e suas irmãs, de 14, 7 e 4 anos, estavam em pé ao lado do carro parado quando foram cercadas por um comboio de combatentes do EI fortemente armados.

"Na mesma hora os combatentes separaram os homens das mulheres", ela contou. Ela, sua mãe e suas irmãs foram levadas de caminhão, primeiramente para a cidade mais próxima no monte Sinjar. "Ali eles me separaram de minha mãe. As meninas jovens, solteiras, foram forçadas a embarcar em ônibus."

Seu relato é ecoado por uma dúzia de outras vítimas, meninas jovens, entrevistadas para esta reportagem. Elas descreveram um conjunto semelhante de circunstâncias, apesar de terem sido sequestradas em dias diferentes e em locais a quilômetros de distância um do outro.

F. disse que foi levada até Mossul, a seis horas de distância, onde foi levada com outras meninas para o Salão de Casamentos Galaxy. Mulheres foram levadas para escolas primárias e prédios municipais nas cidades iraquianas de Tal Afar, Solah, Ba'aj e Sinjar.

Elas seriam mantidas em cativeiro, algumas por alguns dias, outras por meses. Então, inevitavelmente, foram enviadas em grupos menores para a Síria ou outros locais no Iraque, onde foram compradas e vendidas para fins sexuais.

"Foi 100% planejado com antecedência", disse Khider Domle, ativista da comunidade yazidi que mantém um banco de dados detalhado sobre as vítimas. "Falei ao telefone com a primeira família que chegou ao Diretório da Juventude, em Mosul, e o salão já estava preparado para recebê-las. Havia colchões, pratos e talheres, comida e água para centenas de pessoas."

Relatos detalhados das organizações Human Rights Watch e Anistia Internacional chegam à mesma conclusão quanto à natureza organizada do comércio sexual. As meninas descreveram como três combatentes do EI entraram, segurando um bloco de anotações. Mandaram as meninas ficar em pé. Cada uma recebeu ordens de dizer seu nome, nome do meio e sobrenome, idade, cidade natal, se era casada e se tinha filhos.

F. foi mantida por dois meses no salão Galaxy. "Riam de nós e nos atormentavam, dizendo 'vocês são nossa sabaya'. Eu não sabia o que a palavra queria dizer." Mais tarde, o líder local do EI explicou que significava "escrava."

Tradição Religiosa

Do mesmo modo como trechos específicos da Bíblia foram usados séculos depois para embasar o comércio de escravos nos Estados Unidos, o EI cita versos ou relatos específicos do Corão ou das "Sunna", as tradições baseadas nos ditos e atos do profeta Maomé, para justificar o tráfico de pessoas, dizem especialistas.

Mas estudiosos da teologia islâmica discordam quanto à interpretação correta desses versos e em relação à questão de se o islã de fato sanciona a escravidão.

"No meio em que o Corão surgiu, era comum e corrente a prática de homens terem relações sexuais com mulheres não livres", disse Kecia Ali, professora associada de religião na Universidade de Boston, nos EUA, e autora de um livro sobre a escravidão no islã primitivo. "Não era uma tradição religiosa particular, era simplesmente a prática comum."

Core Bunzel, estudioso de teologia islâmica na Universidade Princeton, nos EUA, discorda, apontando para as numerosas referências presentes no Corão à frase "aqueles que sua mão direita possui", interpretada durante séculos como sendo indicativo de escravas mulheres. Ele também cita o conjunto da jurisprudência islâmica, que continua até a era moderna e que, segundo ele, inclui regras detalhadas sobre o tratamento a ser dado a escravos.

"Há muitos trechos das escrituras que sancionam a escravidão", disse Bunzel, autor de um artigo publicado pelo Brookings Institution (EUA) sobre a ideologia do EI. "Vocês podem argumentar que isso não tem mais relevância e já caiu em desuso. O EI argumentaria que essas instituições precisam ser recuperadas, porque era isso o que o profeta e seus companheiros faziam."






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