terça-feira, 8 de outubro de 2013

A Igreja é feminina – Por Carlos Ayala Ramírez

No mundo do trabalho, também a presença da mulher aumenta, a pesar de que esse acesso ainda é limitado e acontece em condições de iniquidade quanto ao tipo e à qualidade do emprego, ao contrato e à estabilidade laboral, aos sistemas de benefícios e segurança social. 

Hoje em dia, se reconhece que muitas mulheres adquiriram uma consciência do que significa ser para si em contraposição, em alguma medida, a ser para outros (como mãe, esposa ou filha), como tradicionalmente lhe foi imposto desde a perspectiva social e cultural. 

Há, portanto, uma busca da própria identidade, e o âmbito da Igreja (entendida como Povo de Deus ou como instituição com leis, doutrinas e ministérios) não escapa a esse propósito.

No que se refere ao mundo da fé católica, é óbvio que a Igreja é feminina. Pelo menos a metade do número de fieis é composta por mulheres; em geral, sua participação em atividades litúrgicas ou de catequese é superior a dos homens; as religiosas, organizadas em diferentes ordens, representam 61% frente aos 39% (de sacerdotes, bispos, religiosos e diáconos). 

No entanto, o governo eclesial, a tomada de decisões e a visibilidade da instituição estão quase que exclusivamente em mãos dos homens. O documento da V Conferência Episcopal da América Latina e Caribe (Aparecida) ressalta que é lamentável que inúmeras mulheres de toda condição não sejam valorizadas em sua dignidade, nem suas contribuições na transmissão da fé e na edificação da Igreja sejam reconhecidas. Daí sua proposta de que todas as mulheres possam participar plenamente na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam sua maior inclusão.

O papa Francisco, em uma de suas mais recentes declarações, também insistiu na necessidade de ampliar os espaços para uma presença feminina ativa na Igreja. Algumas de suas frases têm um caráter programático: 

"a Igreja não pode ser ela mesma sem a mulher e o papel que esta desempenha”; "a mulher é imprescindível para a Igreja”; "temos que trabalhar mais até elaborar uma teologia profunda da mulher”; "nos lugares onde as decisões importantes são tomadas, é necessário o gênio feminino”; "atualmente, enfrentamos esse desafio: refletir sobre o posto específico da mulher, inclusive onde se exerce a autoridade, nos vários âmbitos da Igreja”. 

Em cada uma dessas formulações, expressa-se a vontade de garantir a presença da mulher nos ministérios eclesiais, inclusive nas instâncias de planejamento e decisão pastorais. São um reconhecimento de que, de fato, a Igreja é feminina.

Em termos mais provocativos, o papa disse que Maria, uma mulher, é mais importante do que os bispos. E, em seguida, explica que "não devemos confundir a função com a dignidade”. 

Esse argumento do papa Francisco é um ponto central para enfrentar a discriminação da mulher dentro da Igreja. O reconhecimento da dignidade é a razão pela qual qualquer ser humano tem direito à vida, à livre formação de consciência; à livre expressão e quantos direitos possam estampar-se nas distintas declarações e convenções. O apreço da igual dignidade é a condição indispensável para uma Igreja inclusiva.

Hans Küng, em seu conhecido livro: ‘La mujer en el cristianismo’, propõe que a Igreja do futuro tem que ser uma comunidade de pessoas, homens e mulheres, radicalmente iguais. De nenhuma maneira pode aparecer como uma Igreja de homens, de classes, de raças, de castas ou de hierarquias. 

Essa igualdade deveria plasmar-se na configuração da própria comunidade eclesial, de modo que, sem chegar a um igualitarismo mecânico que nivele a multiplicidade de dons e serviços, garanta a igualdade fundamental dos diversos sujeitos e grupos. Uma Igreja que seja espaço de igualdade e, ao mesmo tempo, advogada da igualdade no mundo.

Esse modelo de relações não hierarquizadas, de alteridade e de reciprocidade é exposto no documento de Aparecida de forma clara, ao afirmar "que a antropologia cristã ressalta igual dignidade entre homem e mulher, em razão de ser criados à imagem e semelhança de Deus”. 

E agrega que "em uma época de marcado machismo, a prática de Jesus foi decisiva para ressignificar a dignidade da mulher e seu valor indiscutível: falou com elas (Jo 4,27); teve singular misericórdia com as pecadoras (Lc 7,36-50); as curou (Mc 5, 25-34); as reivindicou em sua dignidade (Jo 8, 1-11); as elegeu como primeiras testemunhas de sua ressurreição (Mt 28, 9-10), e incorporou mulheres ao grupo de pessoas que mais próximas (Lc 8, 1-3)”. 

Em outras palavras, em Jesus não encontramos atitudes nem expressões depreciativas para com as mulheres. Ao contrário; observa-se respeito, compaixão e simpatia para com elas, que põe abaixo os estereótipos vigentes naquela sociedade.


Uma sociedade que discrimina e não valoriza a contribuição da mulher é uma sociedade injusta. O mesmo podemos dizer das congregações que mantêm estruturas e práticas de exclusão para com a mulher. Não somente são injustas, mas contrárias às origens da Igreja. 

Há tempos as mulheres já não aceitam o modo como a Igreja as trata. Hoje, as mulheres já não se deixam degradar a meros objetos de mandatos, proibições, regras e atribuições de papel formulados por homens. Da mesma forma que na família e na sociedade em geral, um número crescente de mulheres reclamam também na Igreja possibilidades de desenvolvimento igualitárias; bem como os direitos que lhes correspondem. 

Há consciência de que a Igreja é feminina e que o homem tem que se re-situar nela; e isso, longe de roubar-lhe protagonismo, devolve-lhe sua verdadeira humanidade.



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