segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Lista de livros mais vendidos imita divisão direita-esquerda dos EUA – Por Ricardo Mioto

A lista dos livros mais vendidos no Brasil mostra que o país vai incorporando a divisão tradicional americana entre "conservadores" e "progressistas". 

A diferença é que, se lá eles estão reunidos respectivamente nos partidos republicano e democrata, aqui as legendas não capitalizam esses autores e leitores.

Ligados à direita estão o jornalista Leandro Narloch, autor de "Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo" (Leya), que ocupa a quinta posição no ranking de não ficção da revista "Veja", e o filósofo Olavo de Carvalho, com "O Mínimo que Você Precisa Saber para Não ser um Idiota" (Record), em quarto.

À esquerda, aparece na nona posição o livro "O Príncipe da Privataria" (Geração Editorial), do jornalista Palmério Dória. A obra é crítica ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e herdeira de "A Privataria Tucana", best-seller do ano passado feito pelo jornalista Amaury Ribeiro Júnior e editado pelo mesmo selo.

Em todos os casos, utilizou-se a lista de mais vendidos da edição do dia 8 de Outubro  Ela mostra ainda, também lembrando os Estados Unidos, o crescimento no Brasil da influência religiosa, sobretudo evangélica.

Isso ocorre tanto de maneira mais proselitista, como no livro "Nada a Perder 2", do pastor Edir Macedo (pela Planeta, em primeiro lugar), quanto de maneira indireta, por uma interpretação da fé mais elogiosa ao lucro e ao sucesso, com livros como "Sonhos Não Têm Limites", sobre o empresário Carlos Wizard, que é ligado à igreja mórmon (pela Gente, no oitavo lugar).

Se os partidos republicano e democrata têm sucesso em representar essas tendências ideológicas de escritores e leitores americanos, isso não é automático no Brasil.

Pela esquerda, Dória, apesar do tom crítico ao PSDB do seu livro, nega identificação partidária: "Não sou peemedebista, pessebista, petista, redista. No geral, me sinto um socialista e humanista".

"Se querem fazer torneio Rio-São Paulo [entre direita e esquerda], basta ver a lista dos mais vendidos. A direita ganha de lavada. Quem mais compra livro neste país são os endinheirados, grupo em que a maioria incontestavelmente é de direita", diz Dória.

Na direita, entre os partidos grandes, a associação mais automática seria com o PSDB, Leandro Narloch, por exemplo, defendeu no ano passado, na Folha, a eleição de José Serra à Prefeitura de São Paulo-, mas os autores também não a compram.

"Como todos os partidos pregam mais funções e poder ao governo, não me identifico com nenhum. Acho que o Serra está mais à esquerda que o Palocci, por exemplo", afirma Narloch.

"O Brasil está vivendo a onda do livro-manifesto, para a esquerda e para a direita. É melhor haver dois polos de pensamento que um monopólio editorial dos estatistas, mas há o risco dos leitores se fecharem em guetos ideológicos", diz.

Olavo de Carvalho também critica as siglas: "No Brasil, existe a esquerda e existem os dinheiristas. Não tem mais nada. Quem é conservador não se deixa levar pelo PSDB".

"Se a lista dos mais vendidos fosse a sociedade brasileira, estaríamos numa democracia normal. Nas eleições americanas, as livrarias ficam superlotadas de livros a favor e contra os dois candidatos. No Brasil, na ausência de uma direita política, há apenas alguns fulanos dando palpite", completa Carvalho. 

No caso dos evangélicos, a identificação com partidos também não é clara. A bancada evangélica no Congresso, por exemplo, se espalha por mais de 15 legendas. Apesar da orientação conservadora vinculada à religião, especialmente em temas como aborto ou casamento gay, a maior parte dela é da base aliada ao governo do PT, partido tradicionalmente de tendência mais liberal nesses temas.





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