quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Em tempo de união, Natal é comemorado em várias religiões – Por Gabriela Lousada

O significado do Natal não se restringe às comemorações cristãs. 

O nascimento de Jesus, símbolo principal dos festejos natalinos, divide espaço entre os votos de alegria, paz e esperança de todos aqueles que, em diferentes religiões, comemoram a data e têm como principal objetivo celebrar a união na companhia da família e amigos.

Como exemplo disso, A Tribuna On-line reuniu alguns personagens, entre católico, evangélico, judeu, agnóstico, ateu, cristão e até do candomblé. Se as religiões são diferentes, em comum eles têm o respeito ao próximo e o sentimento de união como principal ingrediente da ceia de final de ano.

De acordo com o padre Antônio Paulo Ferreira de Castilho, professor de Filosofia da Universidade Católica de Santos (UniSantos), independente da religião, o Natal é uma festa importante por ocorrer no final do ano, quando uma etapa termina e uma nova se inicia.

“As pessoas se reúnem em busca de uma nova vida, alegrias, esperança e coisas boas. Sem falar na importância da data para as crianças, que vibram com as festas e os presentes, afetando positivamente os adultos. Para quem é cristão, é a encarnação do filho de Deus e o nascimento dele precisa ser comemorado. No geral, é a ideia de uma vida que se renova. Todos devem comemorar”, explica o padre.

Ainda de acordo com o pároco, o Natal é uma data que se destaca mundialmente e em muitas religiões por vários fatores, mas, principalmente, pela popularidade de Jesus, figura principal da comemoração cristã.

“Para quem tem fé, ele é o filho de Deus. Para quem não tem fé, Jesus sempre foi considerado e conhecido como uma pessoa muito boa e sábia, que foi injustiçada pelo império romano, movendo multidões. Como ser humano, Jesus é uma figura muito valorizada”.

No cristianismo, segundo explica Castilho, o Natal é a segunda festa mais importante. A primeira é a Páscoa, quando se celebra a morte e ressurreição de Cristo.

Mudança

Mas a comemoração do Natal, ao longo dos anos, mudou. Padre Castilho diz que as transformações foram gradativas e que o sentido religioso da data foi se perdendo com o passar das gerações. "A mudança é lenta. Hoje, o mundo está mais desligado da religião do que antigamente", afirma.

Segundo Castilho, isso afeta a todos, sejam cristãos ou não. “A ideia do consumismo foi plantada e, portanto, muitos acreditam que o Ntal seja exclusivamente tempo de consumo. Para quem é cristão, é mais um período de fé em Deus. Para quem não segue nenhuma religião, é tempo de confiança na vida, na bondade”.

Por isso, o padre reforça que a mensagem mais importante do Natal, independente da religião, deve ser a mesma ao longo dos anos. ”A importância da união entre as pessoas. O Natal é sinônimo de Deus com nós, nós com Deus e nós com nós”.

Religiões juntas na comemoração

A mensagem de união do padre Castilho se faz presente nas festas de fim de ano de Mari Cleber, de Santos. Ela é messiânica, mas define a família como uma "mistura de religiões". "Uns são católicos, outros evangélicos e espíritas. E nos damos todos muito bem, cada um respeita o espaço do outro”, afirma.

Segundo Mari, o Natal é a data mais importante para ela e a família. “Nós reunimos cerca de 60 pessoas, cada ano em um lugar diferente. Sempre viajamos ou alugamos uma casa e montamos uma verdadeira festa, com o Papai Noel chegando para entregar os presentes à meia-noite, aquela mesa gigante para a ceia e até fogos de artifício. No momento da ceia, damos as mãos, todos em volta da mesa, e oramos a Deus e Jesus pelo verdadeiro significado do Natal. É lindo e emocionante”, relata.

Sentimento renovado

A preparação para a noite de Natal começa com antecedência  na casa da administradora Juliana Neri Rodrigues, de 26 anos, também de Santos. Ela e a família são católicas e participam, ao longo do ano, das atividades pastorais e comunitárias da paróquia. No Natal, a devoção não é diferente. 

"Para nós, católicos, o Natal tem um grande significado. É a vinda do Messias, do filho de Deus, de nosso salvador", afirma.

A preparação espiritual ocorre através da Novena de Natal, quando os integrantes da igreja se reúnem, semanas antes da data. "Nos encontramos para rezar, cantar, estudar a palavra de Deus e compartilhar testemunhos de vida, durante todo o tempo do Advento. É um momento de muita fé, fraternidade e união", diz a administradora.

A véspera do Natal é celebrada com a comunidade religiosa e todas as famílias se unem na missa da Vigília. "Agradecemos e louvamos a Deus pelo nascimento de Jesus. Após a meia-noite, todos os meus familiares se reúnem para rezar um Pai Nosso e agradecer pelas bênçãos recebidas no ano", conta.

Ainda segundo a administradora, após as comemorações, a sensação é de renovação nos sentimentos de fraternidade e paz. "Nos sentimos mais fortes e preparados para seguir nossa missão como evangelizadores e instrumentos da Palavra de Deus", conclui.

Diaconisa Catia Sacco, que mora em São Vicente, conta que é evangélica e, apesar de não comemorar de fato o Natal, não deixa a data passar em branco.

 “Ser evangélica significa ser seguidora de Cristo. Não comemoro, mas me reúno com a família para agradecer a Deus pelas vitórias, pelas nossas vidas e até mesmo pelas lutas do dia a dia”. Segundo ela, a ação mais importante do dia de Natal é “louvar a Deus”.

Além do consumo

Odilon Ribeiro, que é de Santos, não segue uma religião, mas diz acreditar em Deus. Para ele, as comemorações do Natal vão além dos presentes trocados entre amigos e familiares. 

"Rezo todos os dias antes de dormir, agradecendo por mais um dia de vida. Acho que devemos comemorar sim (o Natal), pois é a época do ano para muitos em que a família se reúne e isso é o mais importante", afirma.

Maurício Magno é ateu, mas há anos se rende à tradição natalina e reúne familiares em Praia Grande. "Para mim é uma data comercial, de festa. Mas, pelo menos da minha parte, não há um apelo religioso. Dou e ganho presentes, além de participar da ceia com a família. Posso dizer, sim, que comemoro o Natal".

No exterior

Gilson Netto é mototista e vive há 13 anos na Europa. Ele cresceu no bairro Estuário, em Santos, e hoje mora com esposa e a filha de 5 anos em Stavanger, região oeste da Noruega. Netto, que é cristão e frequenta a Igreja Batista, conta que o Natal no país onde mora é "especial". 

"Além da neve que enfeita a paisagem, as pessoas passam o dia com suas famílias, comendo pratos típicos. Um deles é a riba, uma costeleta de porco defumada, acompanhada com batatas e salada".

A diferença nos costumes entre os países, segundo ele, também afeta a troca de presentes. Acostumado às celebrações no Brasil e em Portugal (nacionalidade da esposa e onde morou por 10 anos), a família Netto troca as lembranças à 0 hora do dia 25.

"Nós, brasileiros e portugueses, preferimos esperar virar a data para a entrega dos presentes. Os noruegueses entregam no dia do Natal ou durante as festas com a família e amigos. Partilhamos a comida e a companhia uns com os outros", diz o motorista.

Religioso, Gilson afirma que, para ele, a maior importância do Natal é o nascimento de Jesus. "As comemorações nesta época são uma reflexão familiar do nascimento Dele".  O santista ainda aponta uma curiosidade do país onde mora: em cada município da Noruega há uma árvore de Natal na região central das cidades e, na semana de Natal, as pessoas se reúnem ao redor dela, dando voltas e cantando músicas natalinas.

Religião que antecede o Natal

A vendedora Marcella Alves de Sampaio é candomblecista. Ela diz que, na sua religião, não há motivo para reconhecer ou comemorar o Natal. Moradora de Cubatão, diz que a religião surgiu na África, muito antes ao nascimento de Jesus.

“O Natal é comemorado por muitos que seguem o candomblé, mas, com certeza, é uma modificação brasileira. Para nós, não tem significado no sentido espiritual. Pesquisas mostram que o candomblé é uma das religiões mais antigas, que antecede a criação da data comemorativa”, explica.

Isso não quer dizer que Marcella não vá às festas de final de ano. “Celebro o momento com a família. Fazemos troca de presentes, mas sem o apelo do catolicismo. Para nós, é uma festa pagã e nada mais”. A vendedora ressalta que Deus é uma palavra de todos. “É importante lembrar que cada religião tem seu Deus. O dos católicos é Javé ou Jeová, o dos candomblecistas é Olódùmarè.”

Um casal e duas religiões

A diferença de religiões não foi empecilho para que o americano Joel El Torito Samuel e a santista Vivian Afonso-Samuel se casassem e ficassem juntos. O casal, que mora em Nova Iorque, nos Estados Unidos, participa dos costumes de cada cultura.

Joel é judeu. Vivian não assumiu o judaísmo e é católica. “O Joel também não assumiu o catolicismo. Apenas achamos importante respeitar as diferenças culturais um do outro, e desse modo, observamos e participamos das celebrações mais importantes das duas religiões”, diz.

Joel  conta que Jesus Cristo não é idolatrado na religião judaica e, por isso, seu nascimento não é comemorado pelos judeus. “Nós celebramos o Hanukkah, que ocorre por 8 noites consecutivas, em momentos diferentes a cada ano, com datas baseadas no calendário lunar, ao contrário do Natal, que é comemorado em 25 de dezembro de cada ano”, explica.

Segundo ele, o Hanukkah é uma das festas menos importantes da religião. “No entanto, a celebração se tornou muito mais popular na prática moderna por causa de sua proximidade com o Natal”.

O americano explica ainda que uma pessoa é considerada da religião se a mãe dela nasceu judia. “A religião do pai é importante, mas não um fator determinante se a criança é judia. No meu caso, meus pais são judeus, assim como meus avós, tanto do lado materno quanto paterno”.

Ele diz ter sido criado com os costumes judeus. ''Eu não sou um judeu ortodoxo, então eu não pratico a religião tão profundamente. Respeito a minha religião, assim como eu respeito o cristianismo e o catolicismo”.

Números

O Brasil ainda é a maior nação católica do mundo, apesar de, entre 1960 e 2010, o número de seguidores do catolicismo ter diminuído no País de 93,1% para 64,6%. A queda foi constatada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), durante o último censo, realizado em 2010.

A pesquisa mostra ainda que a queda na proporção de católicos foi acompanhada pelo crescimento dos evangélicos. Em 1960, eles eram apenas 4% da população. Em 2010, alcançaram 22,2%.

Ainda segundo a pesquisa, os católicos somavam 123,3 milhões de pessoas no País em 2010, e os evangélicos, 42,3 milhões. 

Outras religiões que também foram citadas no censo foram o espiritismo (2,8 milhões), umbanda (407,3 mil), candomblé (167,4 mil), budismo (244 mil), judaísmo (107,3 mil), islamismo (35,2 mil) e hinduismo (5,6 mil).

No total, 15,3 milhões de pessoas disseram não ter religião. Dessas, 615,1 mil afirmaram ser ateus e 124,4 mil, agnósticos.





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