quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Falecimento de João Batista Libanio

Lamentamos profundamente em anunciar a morte de pe. João Batista Libânio, de infarto, há poucas horas.

Aguardamos informações sobre o velório e o sepultamento.
Vai em paz, mestre Libânio.

Missão cumprida. 
Demos graças ao Pai!

Afonso M.L. Soares


Biografia de João Batista Libanio
Por que sou jesuíta?
J. B. Libanio

Há conversões e vocações que nascem de grande choque. São Paulo se tornou o paradigma maior. Perseguidor dos cristãos se viu circundado por luz divina e de dentro dela saiu o apóstolo das gentes. Que vida de enorme zelo pela jovem fé cristã! Assim alguns entram para a vida religiosa, para ser  jesuíta, depois de forte e estremecida experiência.

João, o apóstolo, bem jovem ouve seu mestre, também ele João, o Batista, dizer-lhe que aquele homem que lá caminhava pelas margens do Lago de Genesaré era o Messias. Na inocência dos anos juvenis, deixa pai, rede, barco e se põe a seguir a Jesus e morrerá, em alta idade, na fidelidade do mesmo Mestre. Paradigma de vocações que se desenvolvem de maneira quase natural, sem sobressaltos, nascidas por algum encontro casual na linguagem dos fatos e providencial sob o olhar da fé. 

Ainda criança, um padre jesuíta perguntou-me que queria ser. Naqueles idos, facilmente, sem hesitar, era comum responder diante de um padre que se queria ser padre. Nada de formal nem decisivo. No entanto, tudo começou aí. Da resposta até ir para o Rio estudar com os jesuítas já tendo no horizonte tornar-se um dia um deles foi um pulo.

Os longos dos anos de contacto e formação com os jesuítas me foram forjando numa vocação bem plural como é a deles. Missão no estrangeiro, colégio, universidade, missões populares, vida intelectual, numa palavra, um leque amplo se me abriu diante dos olhos. E embarquei-me para valer nessa nau na qual estou até hoje.

Conjunturas e coincidências conduziram-me para a teologia. A nova trajetória iniciou com a função de diretor de estudos do Colégio de seminaristas brasileiros em Roma. Aí me concentrei na orientação das matérias teológicas que me levaram ao doutorado e depois à docência da teologia até o dia de hoje. Agradeço imensamente a Deus por essa jogada, imprevista, de lançar-me na peleja das Letras Sagradas.   

Mais: não estudei teologia para ficar adscrito a uma Faculdade ou Universidade européia. Corri tal perigo e quase fiquei no Velho Continente. De novo, o pequeno aleatório me salvou. A casa de estudos de teologia dos jesuítas do Brasil me tinha solicitado antes e o povo de Roma respeitou tal pedido. E então voltei para o Brasil depois de mais de 10 anos na Europa.   

Aqui fazer teologia é outra coisa. Estava nascendo a teologia da libertação. E logo me engajei nela. E faz parte dela não se dedicar unicamente à academia, ao estudo trancado no gabinete e sim imergir-se na realidade pastoral para a partir dela pensar a teologia.

Nos primeiros anos de volta da Europa dediquei-me a circular pelo Brasil, pelo Continente e alguns países da  Europa falando da teologia da libertação, mas também bebendo experiências, sobretudo nos países da América Latina. Foram anos muito ricos e me fizeram mergulhar na realidade latino-americana.

Depois aterrissei mais no Brasil. Circulei por todo ele, do Rio Grande do Sul ao Acre. E finalmente acampei em Vespasiano. Aí bebo da seiva gostosa da vida paroquial. Tive a felicidade de encontrar uma paróquia viva e prestar então algum serviço concreto à comunidade em sintonia e em colaboração com o pároco Pe. Lauro. São já anos que aqui venho e dou um pouco de mim nas celebrações, cursos, visitas, atendimentos. A pastoral se alimenta da teologia e me alimenta a teologia. Existe uma circularidade que enriquece. Sou imensamente grato por tudo o que recebi e recebo do contacto com a vida paroquial. Como jesuíta, ajudando um padre diocesano, percebo duas coisas: confluência e complementaridade. Nossas intenções e propostas pastorais convergem e se pautam pelas decisões colegiadas das Assembléias. E pelo fato de eu ser jesuíta e teólogo contribuo com algum toque, por mais simples que seja, que soma ao conjunto da paróquia.

Que tem de fascinante uma vida de jesuíta? Por que ela me reteve tantos anos? E por que espero nela terminar os meus dias? A ordem jesuíta oferece excelentes oportunidades para boa formação espiritual e intelectual. E depois de formados, lança-nos no mundo, dando-nos ampla liberdade de ação apostólica. A missão recebida dos superiores delimita-nos o campo, mas dentro dele existe enorme o espaço de criatividade e originalidade. E, sobretudo cria dentro de nós consciência crítica e livre para “em tudo amar e servir”. 

A fonte da vocação encontra-se no desejo, no entusiasmo e na alegria de servir o povo de Deus. Nada faz o ser humano ser tão feliz como colaborar no crescimento interior e espiritual das pessoas. Além desse nível estritamente pessoal, o trabalho pastoral estende, por diversas maneiras, a influência para campos mais vastos. No meu caso, lanço as sementes da palavra de Deus por muitos rincões quer por escrito nos livros e artigos, quer nas pregações e palestras. E o Mestre maior, o Senhor Jesus, aproveita de nossas pequenas e simples palavras para fazer avançar o seu Reino. E na fé participar desse empreendimento apostólico carrega-nos a vida de sentido. Se algum jovem leitor, ele ou ela, sentir tocado/a pelo desejo de empreender aventura semelhante, que o Senhor lhe dê força e coragem!    

Mais elementos para Biografia de JB Libanio: Entrevista de JB Libanio ao Jornal de Opinião

Tema: 70 anos de um Teólogo - Junho 2002

1.   Um teólogo, aos 70 anos de idade, tem uma visão mais clara da vida?
A clareza e a serenidade não se medem pelo número de anos, mas pelo trabalho interior. Se este acontece ao longo de uma vida, então os anos contam. A existência foi generosa comigo e permitiu-me que pudesse estar sempre à volta com análises, reflexões sobre a realidade social e eclesial. Vivendo numa ordem religiosa de certa exigência intelectual e convivendo com pessoas lúcidas, terminamos por adquirir vivencialmente certa clareza de visão.

2.    Fale um pouco sobre sua família, seus pais eram pessoas religiosas? Como surgiu sua vocação?

Sou imensamente grato à minha família. Meu pai conjugava um conjunto de qualidades que me marcou. Com enorme sensibilidade humana e literária, passou-me desde cedo o gosto pela beleza cultural. Tinha enorme biblioteca de literatura. No mundo profissional, era médico e também professor catedrático da Escola de Medicina, como se dizia então. Combinava a vida de clínico com a docência. Pelo relatos que ouvimos de seus alunos, era professor responsável e capaz. A religiosidade, que herdara da família, não se manifestava em nenhuma prática eclesial. Embora irmão de um bispo, ia conosco à missa somente no dia de seu aniversário. A formação religiosa fora entregue à minha mãe. Ela foi alguém que espiritualmente me transmitiu uma religiosidade profunda e discreta. Como meu pai morreu cedo - eu tinha 11 anos - minha mãe procurou que cada filho recebesse a formação religiosa nalgum colégio católico. Assim o caçula esteve com os salesianos, o mais velho com os agostinianos, minha irmã com as filhas de Jesus e eu com os jesuítas.         

Responder pelo nascimento da vocação é difícil. Funcionou com os olhos da história, como diria J. Monod, pela lei do “Acaso e necessidade”. Nada programado, sensacional. Nenhuma descoberta misteriosa. Tudo tão pequeno e imperceptível, como o formar dos átomos e moléculas até chegar à maravilha do ser humano. P. Moutinho, jesuíta, conhecia no Rio uns Libanios que ajudavam o novo tipo de seminário menor que ele fundara. Sabia que o forte da família morava em Belo Horizonte. E procurou visitá-los. Assim foi à casa de um tio meu. Lá estávamos, nós crianças, a fazer a maior bagunça. Dado momento, o padre volta-se para mim e pergunta-me: que v. vai ser quando crescer? Não hesitei: padre. Claro que não sabia de que realmente se tratava. O padre, segundo a pedagogia da época, não hesitou um momento. Foi atrás da minha mãe, etc. etc. E vários meses depois, fui terminar o curso de admissão no Colégio Santo Inácio do Rio. Daí para frente foi seguir naturalmente um caminho que se desdobrou sem muitos sobressaltos. Do colégio para o noviciado, do noviciado para as diferentes etapas de uma vida religiosa extremamente regular nos moldes do antigamente. E aqui estou até hoje. 

3. Por que fez a opção pelos jesuítas?  

Não fui eu que escolhi ser jesuíta, como estivesse diante de uma série de congregações religiosas e optasse por ser jesuíta. Aquele encontro, a que me referi, levou-me a estudar e a viver num colégio interno vocacional dos jesuítas. E aos poucos fui conhecendo teórica e praticamente quem eles eram e fui continuando com eles e depois entrando na Ordem até tornar-me hoje um veterano. Os longos anos de jesuíta e o amplo contacto que tive com a Ordem, em muitas partes do mundo, com suas enormes diferenças, sempre me confirmaram na simplicidade e naturalidade de minha vocação.

 4. Quem foram seus grandes mestres na sua vida de padre e teólogo?

Temos dois tipos de mestres. Os da vida e os dos livros. Na vida, tive no meu pai, de maneira inconsciente e primária, o primeiro mestre. Coincidentemente os inícios na língua latina tive com ele. Quando eu estava ainda no curso primário aconteceu a reforma de ensino no Brasil e o Latim foi introduzido. Minha irmã devia já começar a estudá-lo e recebia de meu pai pequeno reforço. Aproveite-me dele e comecei a balbuciar as primeiras palavras latinas. Parece que eu tinha alguma facilidade e meu pai numa hora de espanto e gozação - ele era muito gozador, herança comum dos filhos - disse-me: você será um bom padre. Nada tinha que haver com vocação, mas com o estereótipo que liga padre e latim. Mas a vida o levou cedo e fiquei sem este primeiro mestre. Passando toda a minha vida de formação intelectual como jesuíta foi aí que encontrei os mestres. P. Antônio Aquino, que morreu faz alguns anos, durante longos e longos anos estabeleceu comigo uma amizade epistolar e por ela recebi grande influência. Ele tinha enorme talento metodológico. Meu livro “Introdução à vida intelectual” encontrou nessa amizade seus primórdios.  Do P. Aquino aprendi a disciplina e a organização intelectual, o rigor do método, a escolha por um campo humanístico, a importância da leitura, a necessidade de começar a escrever cedo. Assim já durante os estudos de filosofia, com a vaidade juvenil, vi artiguetes meus saírem numa revista canadense e depois um artigo mais substancioso na Revista Verbum da PUC-Rio. Durante meus estudos na Europa, ele me pedia artigos que eu lhe mandava para um revista dirigida por ele. Se hoje não tenho inibição em escrever, muito devo a esse mestre que bem cedo me levou a perder o medo e vencer a preguiça de escreve.Estudando teologia na Alemanha, conheci um alemão, Franz Lennartz, colega meu mais velho e muito mais experiente. Tinha estado no Japão como missionário. Hoje reconheço que ele me foi mais que um amigo, um mestre. Sua marca indelével também está no meu livro “Introdução à vida intelectual”. Abriu-me os olhos para o universo da psicologia profunda, da personalidade, do conhecimento humano, da vida como experiência existencial. Era todo um campo muito novo para um mineiro que ao deixar o Brasil aos 26 anos apenas conhecia o mundo externo. Uma formação extremamente fechada e um ano passado na Espanha, ainda mais fechado, cobrira com o véu uma personalidade curiosa, sedenta da aprender e de abrir-se ao mundo da verdade, da beleza, de horizontes maiores. A Alemanha, na mão desse meu amigo, foi o palco da descoberta. Terminada a teologia, fui destinado a fazer doutorado na Alemanha, onde terminara a licença - correspondente ao mestrado de hoje -. A obediência jesuítica modifica-me os planos. Devendo substituir o P. Marcello Azevedo em Roma, assumo a direção de Estudos do Colégio Pio Brasileiro. Naquela época eram mais de 80 seminaristas brasileiros que eu deveria orientar nas lides intelectuais. Apenas havia terminado os estudos, sem ter feito ainda o doutorado. Lá encontrei outra pessoa extraordinária: P. Oscar Mueller. Falar dele seria um nunca acabar. Numa palavra, ele aprofundou em mim um traço que trouxera de meu pai, mas que a formação tradicional daquela época quase apagara: um sentido agudo pela liberdade pessoal e pelo respeito aos caminhos dos outros, sem escandalizar-me, sem impor minha posição. Liberdade e respeito. K. Rahner foi meu maior mestre teológico por meio dos livros. Conheci-o pessoalmente em palestras em Frankfurt e em Roma durante o Concílio. Lembro-me do prazer intelectual enorme, ao poder ler um primeiro artigo dele, em alemão, no mês de janeiro de 1960, cinco meses depois que chegara a Alemanha para estudar teologia. Daí em diante li e ainda leio e releio textos desse pensador maravilhoso. Ensinou-me sobretudo a integração do humano e do divino, da graça e da natureza, da história e da escatologia.Por brevidade termino aqui. 

5. Fale de sua amizade com o padre Vaz, que faleceu recentemente

Como v. tinha feito esta pergunta especial sobre o P. Vaz não o mencionei na pergunta anterior. O P. Vaz é o pensador que mais cito em meus escritos. Falar dele seria interminável. Na década de 50 foi o mestre jovem. Inteligente, extremamente atualizado me seduziu imediatamente. Dentro das estruturas rígidas de então, ele logo tornou-se,  pela abertura de suas idéias, suspeito diante de inteligências extremamente conservadoras que ocupavam cargos de formação na Igreja e Companhia. Mas, ao mesmo tempo, causava-nos uma atração irresistível. Tenho até hoje um cadernetinha de 1953, onde anotei os livros que ele me aconselhava a ler. Entramos os dois na biblioteca dos professores, onde estavam os melhores livros, mas a que não tínhamos acesso. Ele percorreu comigo as estantes e ia, como mestre, apontando para seu discípulo os livros importantes com rápido comentário e eu com a avidez jovem os anotava sagradamente. Já tinha um roteiro para a vida de estudo.Depois de minha volta da Europa, em 1969, morei sempre na mesma comunidade dele, exceto alguns poucos anos no Rio. A amizade que nos uniu toda a vida não tirou momentos de tensão no campo da discussão das idéias. Ele tinha muitas críticas, sérias e profundas à teologia da libertação, de cujo grupo fazia e faço parte. Ele me respeitava muito, mas a sua honestidade intelectual interpelava, e sempre com justeza, os fundamentos do meu pensar. Esse convívio foi extremamente importante para meu desenvolvimento intelectual. O mundo das idéias enchia nossas conversas. Longas e múltiplas. Sempre o considerei meu mestre maior no campo da inteligência e amigo-irmão extremamente querido. Nunca lhe escondi minha enorme admiração. Ele ficava bravo comigo porque lhe dizia na sinceridade e espontaneidade elogios que ninguém tinha coragem de dirigir-lhe. Na sua modéstia me achava exagerado. Mas era a pura verdade. Nunca em minha vida, em país nenhum, encontrei uma inteligência mais completa que a dele, desde a profundidade até a singeleza e clareza na exposição.

6. Por que a opção pela Teologia da Libertação?

Opção pela teologia da libertação foi um desabrochar de toda uma vida. Sempre tive uma atitude crítica. Não o era mais por ignorância. Nos primeiros contactos com o P. Vaz aprendi a ter abertura crítica diante da realidade social e eclesial. Estava na Europa quando do golpe militar. À distância formei-me logo uma postura crítica fundamental diante da situação sócio-política. Nunca tive a ilusão de que “Deus salvara o Brasil do comunismo” nem que o maior perigo da América Latina era a infiltração comunista. Chegando ao Brasil, pertenci a um grupo de reflexão teológica que meu primo Frei Betto e os outros dominicanos tinham arquitetado na prisão e implementaram depois de sua saída. Nele estavam, além dos dominicanos recém saídos da prisão, Frei Leonardo, Frei Mesters, Pedro R. de Oliveira, Luiz Alberto, Jether Pereira, J. O. Beozzo e tantos outros. Juntos construímos um pensar teológico na linha da libertação. Evidentemente também me nutrimos dos teólogos que já estavam na arena com suas teses da libertação: Gutiérrez, Assmann, Comblin e outros. Enfim é uma opção que se foi construindo, aprofundando e ampliando horizontes. 

7. O que o leva a ficar tão antenado com o dia-a-dia da sociedade, a política e a cultura como podemos observar em sua coluna "O Olhar do Teólogo", no JO? 

Pertenço a uma tradição espiritual que tem uma experiência fundante: discernimento espiritual. Alguns jesuítas ficam principalmente no campo das moções interiores das pessoas, como Santo Inácio nos ensina nos Exercícios Espirituais. E o fazem bem. Dentro do círculo de teólogos da libertação, que freqüentava, pensei esta estrutura para os acontecimentos sócio-políticos. No livro “Discernimento e Política” estão as intuições fundamentais que me criaram essa atitude permanente de discernir os movimentos internos da realidade social e buscar desmascará-los. Buscava penetrar os jogos ideológicos, conhecer os engodos dos discursos. Trabalho mais com a dialética do sim e não em vez do sim ou não. Habituei meu olhar para captar na ambigüidade da realidade as tendências do sim e do não.

 8. Qual sua impressão do povo e dos políticos brasileiros?

Povo é realidade-raiz, mas não mito. Realidade a que nos remetemos. E nela encontramos um espelho do que somos nas suas riquezas e limites. Não é mito que se diviniza e se desistoriciza. Isto significa passear entre os extremos de uma elite que se separa dele e o despreza, e uma esquerda ingênua que o canoniza e absolutiza. Povo implica compromisso, opção por suas riquezas e consciência de seus limites. Os políticos são pessoas que caem sob dois tipos de juízo. Há um nível estritamente pessoal que só indiretamente interessa ao eleitor. Por ele respondem diante de sua consciência e de Deus. É somente quando essa vida pessoal tem influência direta sobre o agir político que nos toca conhecer e levar em consideração tais aspectos. Certamente vale do político o que sabemos das pessoas humanas. Há as de todas gamas espirituais, desde pessoas extremamente virtuosas e dedicadas até salafrários federais. Nem sempre na mesma proporção.  Mais importante é seu agir na política. Aí as filiações partidárias são significativas. O fato de o político escolher e viver num partido fisiologista, camaleão do poder, já o desacredita muito diante de nossos olhos. Há partidos no Brasil, cuja atuação normal, é vergonhosa.  Suas opções diretamente contra os interesses daqueles que sustentam o próprio partido desacreditam os políticos, além de condutas pessoais e individuais. Era sabido que durante o regime militar o partido que o apoiava se alimentava precisamente dos votos das regiões mais pobres e atrasadas do país. Isso desabona a política e os políticos.

9. Quais os principais desafios da Igreja Católica nesse início do século XXI? 

 A Igreja terá os desafios que a própria humanidade enfrentará. Resumem-se numa palavra: sua sobrevivência diante da insânia incompreensível de uma razão enlouquecida pela ganância e pelo poder, além de surtos fanáticos. A ameaça mais grave contra essa sobrevivência é a violência em todas as suas formas. Ela está a destruir o cosmos, a convivência entre as pessoas até o seu mais íntimo. Sobressaem entre todas as guerras e guerrilhas, alimentadas principalmente pela indústria armamentista e pelo comércio da droga. A cruzada pela paz divisa-se-me como a maior tarefa da Igreja. Luta incansável para desarmar radicalmente o mundo, para desmontar toda indústria de armas e encontrar um caminho inteligente para o problema do comércio e consumo da droga. A violência exerce-se também em relação à natureza. Estão aí os movimentos ecológicos, despertando-nos a consciência. Cabe à Igreja assumir, com todas as suas possibilidades, essa causa.Para não estender-me demais cito mais um desafio maior. O diálogo inter-religioso e ecumênico. Implica por parte da Igreja uma liberdade que está longe de ser-lhe possível por estar ainda muito amarrada ao direito romano. Se João Paulo II reconhecia no ministério petrino um impedimento para o ecumenismo, é-nos permitido pensar que na raiz desse ministério está uma concepção jurídico-canônica que engessa a Igreja. Só uma leveza de um Espírito que sopra onde quer e como quer tem força de fazer deslanchar um processo de abertura ecumênica e de diálogo inter-religioso de amplitude tal que todas as religiões comunguem numa única direção da construção da paz, da convivência humana entre os povos. 

10. Como consegue conciliar a vida de pároco, professor, escritor e palestrante? 

Penso na semelhança com um professor de medicina que exerce sua profissão. Na sala de aula e no consultório ou no hospital é o mesmo médico que elabora e pratica sua medicina. Assim com a teologia. O professor comunica seu saber teológico. O conferencista amplia seu raio de comunicação. O escritor formula para si e para outros nas letras pensadas seu saber. Na pesquisa penetra o mundo desse saber. Na pastoral confronta esses conhecimentos com a realidade. Recebe inspiração e corretivos. Motiva-se e anima-se. O ser humano é essa complexidade que não produz contradição, antes permite integração. Para conciliarem-se as diferentes facetas, requer-se, sim, uma dose de disciplina de vida. Os meus alunos estão cansados de ouvir uma frasezinha que repito: “O que não está no horário, não existe”. O horário, o plano de vida é o nosso tabuleiro. A questão é dispor aí as peças segundo as prioridades que vão sendo discernidas ao longo de nossa vida. Encontrando uma posição de equilíbrio, conseguimos enriquecer-nos de todas as atividades sem que uma anule a outra.





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