domingo, 2 de março de 2014

A igreja e o dinheiro - Por Thamyris Fernandes

Fundamental para o sustento das religiões, dinheiro deixa, aos poucos, de ser tabu. Representantes de instituições religiosas falam das formas de administração financeira dentro do Cristianismo.

Não adianta negar, o capitalismo é forte e já tomou conta de boa parte do mundo e de suas relações. Até mesmo as igrejas, que lutaram tão veementemente contra a influência do dinheiro, já começam a abrir mão de seus tabus. Prédios, funcionários, equipamentos e líderes religiosos precisam ser sustentados e dependem de quantias, mesmo que pequenas, de dinheiro para se manterem na sociedade atual.

De acordo com dados da Receita Federal, igrejas de todo o País, católicas e evangélicas em sua maioria, arrecadam diariamente cerca de R$ 60 milhões, em média. Conforme os últimos números levantados pelo órgão federal, com referência a 2012, os templos brasileiros receberam mais de R$ 21 bilhões.  Segundo comparação com a arrecadação de 2011, equivalente a R$ 20,6 bilhões, a quantia nos cofres religiosos cresceu 4,3%.

Se você está se questionando de onde advém tanta prosperidade, a resposta é simples. Embora não tenha uma fonte fixa e mensal de faturamento, as igrejas, independente da religião, vivem, basicamente, de donativos. Conforme mostrou o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE), 56,2% de tudo que o 'setor religioso' arrecada é proveniente de doações dos fiéis.

O dízimo é a segunda maior fonte de renda das igrejas e representam mais de 15% das arrecadações. As demais contribuições são provenientes de venda de bens e prestação de serviços (13,1%), aplicação de renda fixa (1,4%), ganhos de renda variável (0,2%) e outros recursos (13,3%).

Suporte popular

Especialista em História Religiosa e professor do Núcleo de Estudos Avançados em Religião e Globalização da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás, Eduardo Gusmão comenta que essa forma de sustento das igrejas, doações e dízimo, é um resquício dos primeiros anos do Cristianismo. Segundo ele, por ter começado muito pobre, as religiões da doutrina cristã, especialmente a Católica, sobreviviam de doações dos animais e alimentos que os fiéis criavam e plantavam. Só depois o dinheiro começou a entrar em cena.

"Antigamente, as grandes doações que as igrejas recebiam eram provenientes dos últimos desejos dos fiéis. As pessoas acreditavam que na hora da morte o mal estaria à espreita para pegar a alma dos pecadores e, na intenção de se redimirem, muitos acabavam doando tudo ou boa parte de seus imóveis e bens materiais valiosos", contou o professor.

Conforme Gusmão, as igrejas recebiam ajuda até do Poder Público há alguns anos, normalmente com a doação de terrenos que não estavam sendo usados. "Também é comum igrejas do interior contarem com a renda de casas alugadas."

A mesma coisa, segundo o especialista, aconteceu no começo das atividades da igreja evangélica. De acordo com Eduardo Gusmão, a história do protestantismo é ainda mais marcada pelos donativos dos fiéis, especialmente na forma do dízimo. "Que, no início indicava a décima parte ou 10% do sustento das famílias e, normalmente, era pago com produtos da colheita", explicou o pastor Weberson Cristiano da Silva Lopes.

Tabu

Embora as religiões tenham repudiado o dinheiro por muitos anos e pregado contra ele, evocando seu aspecto sujo e mundano, a relação com ele está se desmistificando. De acordo com Gusmão, ao longo dos tempos, as religiões começaram a perceber a necessidade da moeda no sustento, principalmente nas grandes cidades.

"Com certeza o assunto não é mais tratado como nos escritos de São Francisco, por exemplo, que tinha a visão de que o dinheiro só traria corrupção às almas", comentou Gusmão. De acordo com ele, há uma passagem na Bíblia, livro de Pedro, que reforçava essa perspectiva negativa do símbolo do capitalismo dizendo que o amor ao dinheiro seria a raiz de todos os males.

A relação com o dinheiro só começou a ficar mais aberta quando o imperador Constantino, em 313 depois de Cristo (d.C), assinou um decreto que permitia que cada um cultuasse seu próprio Deus. "Nesse decreto, ele também dizia que tudo o que havia sido retirado dos cristãos deveria ser restituído. Essa foi a primeira abertura aos bens materiais para a igreja."

O especialista acredita que seja por esse motivo que as igrejas tenham dificuldades em conversar abertamente sobre o assunto. O professor diz que, por ser ligada ao bem material e por ter um passado tão turbulento dentro do Cristianismo, a abordagem sobre o dinheiro bate de frente com a espiritualidade que as igrejas precisam transmitir aos fiéis.

Nova simbologia

Ainda de acordo com o especialista em História Religiosa, Eduardo Gusmão, essa nova maneira de lidar como dinheiro dentro das religiões também trouxe novo significado à moeda. Para o professor, a abnegação do dinheiro perante a igreja está ligada à ideia de sacrifício, algo feito para agradar a Deus. "Antes as pessoas dividiam a comida da família. Hoje, no entanto, o que representa valor é a moeda", comentou o educador.

Conforme Gusmão, há ainda a possibilidade de interpretar o dinheiro como uma nova linguagem. Segundo ele, quando uma pessoa que frequenta igreja e que segue uma vida regrada consegue comprar bens materiais, carros, eletrônicos, casas, entre outros artigos da vida moderna, ela interpreta e ostenta esse acontecimento como uma permissão de Deus ao seu sucesso. "É também uma maneira de interpretar a benção divina, uma forma de aprovação", conclui.

"Nós procuramos ser claros com a forma que gastamos o dinheiro porque existe uma mudança de perfil das pessoas que frequentam os templos, sempre mais letradas e mais atentas para a forma como o patrimônio da igreja está sendo conduzido”. Weberson Lopes, pastor.

"O dízimo, ofertas, doações e o que provém das festas de padroeiros são convertidos para ações sociais, pastorais, manutenção e melhoria da Igreja e sustento básico do sacerdote no desempenho de sua função”.

Arquidiocese de Goiânia

"Sem dúvidas o dinheiro é essencial para a evolução. Ele, por si só, não é ruim. Nós que precisamos procurar o equilíbrio entre o material e o espiritual”. Sirley de Souza Nascimento, tesoureira do Centro Espírita Grupo André Luiz.






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