domingo, 2 de março de 2014

Bispos indonésios preocupados com crescente islamização na ilha das Flores

Os bispos católicos indonésios mostraram-se hoje preocupados com a islamização das Flores, a única ilha indonésia maioritariamente cristã, queixando-se do envio de funcionários públicos que professam o Islão e a edificação de escolas muçulmanas.

O bispo de Ruteng, Hubertus Leteng, refere que o número de muçulmanos na ilha tem aumentado nos últimos anos, devido à chegada de funcionários públicos e de homens de negócios que professam o Islão e devido ao crescente número de escolas islâmicas.

O sistema de educação da Indonésia, sob responsabilidade do Ministério da Educação e do Ministério dos Assuntos Religiosos, exige que cada estudante tenha aulas de religião de acordo com a fé que professa, mesmo que frequente uma escola de outro credo.

A crescente islamização constitui "um desafio. Talvez seja também uma oportunidade para dar força à nossa fé. Se não tivermos desafios, ficamos preguiçosos", realça. Questionado sobre se considera que o governo não protege todas as religiões de igual modo, o bispo de Ruteng respondeu que, "na prática", a situação "não é tão boa", classificando de injusta "a distribuição do financiamento para as escolas".

Já o bispo de Maumere, Gerulfus Kherubim Pareira, recorda que os muçulmanos, "a maioria na Indonésia", têm como "sua missão divulgar a religião".

Quanto à proteção das minorias religiosas, Gerulfus Kherubim Pareira considera que ela existe apenas "formalmente", até porque o sistema filosófico na base da criação da Indonésia, a `Pancasila`, promove a tolerância religiosa. No entanto, na prática, "a influência muçulmana é muito forte atualmente".

O bispo de Larantuca, Franciscus Kopong Kung, prefere não falar em islamização, mas reconhece que "o número de muçulmanos está a crescer cada vez mais" e que os grupos radicais representam um problema para o governo.

"Eu não sei se há algo escondido por trás", afirma, acrescentando que, ao abrigo do programa governamental de distribuição de professores e tendo em conta a predominância de muçulmanos na sociedade (cerca de 87 por cento), também "a maioria" dos professores que chegam às Flores são muçulmanos.

Apesar da tolerância religiosa predominante entre os cerca de 237 milhões de indonésios, o Instituto Setara, de defesa dos direitos humanos, somou em 2012 371 atos de violência religiosa, um aumento de 25 por cento em relação a 2011.

Segundo o Padre Philip Tule, especialista em assuntos islâmicos, nas Flores "o diálogo inter-religioso é baseado na cultura", que abarca "todos os valores e elementos", e a organização social assenta na posse da terra e na celebração de rituais, que normalmente unem católicos e muçulmanos.

Ainda que os conflitos nas Flores sejam principalmente motivados por "disputas de terra", Philip Tule reconhece que existe "islamofobia", sobretudo desde 1994, em que uma pessoa foi morta pela população depois de ter partido a hóstia com a mão, um incidente que tem sido atribuído a um muçulmano, embora o autor fosse "protestante".

"Não podemos fechar os olhos ao novo desenvolvimento, com a reforma islâmica em Java, nos países árabes e em todo o mundo (...) Alguns reformistas islâmicos dizem: `os muçulmanos não precisam de apreciar a cultura pagã. Tu não deves associar-te com a cultura local, mas antes envolver-te com a lei islâmica`", diagnostica.

O sacerdote vinca que tem igualmente proliferado a ideia de que os muçulmanos devem ter as escolas próprias, em vez de estudarem em estabelecimentos de ensino católicos, mas há locais nas Flores onde esta postura não agrada aos fiéis da Igreja Católica.

Vários representantes do Catolicismo nas Flores sublinham que a ilha é um exemplo de diálogo inter-religioso e está imune à entrada de radicais, mas o especialista lembra que alguns elementos do grupo radical Frente de Defensores do Islão nasceram aqui.

Nos censos de 2010, na província de Nusa Tenggara Timur (Ilhas do Sudeste Oriental), onde se incluem as Flores, Sumba e a parte ocidental da ilha de Timor, entre outras de menor dimensão, foram contabilizados 2.535.937 católicos, 1.627.157 protestantes e 423.925 muçulmanos, para além de outras minorias.





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