sexta-feira, 11 de julho de 2014

Futebol, guerra, religião – Por Fernando Belo

O futebol parece ser um sucedâneo quer da lei da guerra, quer das religiões. As sociedades humanas parecem ser regidas por uma lei de rivalidade a todos os níveis, os superiores eclodindo mesmo em guerras.

O antropólogo francês Pierre Clastres explicou que as sociedades a que chamamos "primitivas" que se depararam aos navegadores, conquistadores, comerciantes e missionários ocidentais, sempre foram descritas como fortemente guerreiras em relação às suas vizinhas, as trocas cingindo-se adentro das fronteiras.

As sociedades agrícolas, por sua vez, tiveram guerreiros como castas "nobres" dominantes. Mas também a níveis internos, cidades e regiões, onde quer que haja "estranhos" aos costumes locais, mas mesmo familiares, entre irmãos e herdeiros, entre vizinhos de bairro, predominam sempre rivalidades de tipo diferente, como se as alianças sociais suscitassem delas mesmo irritações mais ou menos permanentes.

Esta lei da guerra é uma espécie de deslocamento da lei da selva que opõe os animais carnívoros aos herbívoros e estes às plantas como condição de sobrevivência, já que só alimentando-se de vivos se conseguem as moléculas complexas à base de carbono de que são feitas as células (as plantas recebem o carbono da fotossíntese) e justifica que as anatomias dos animais ganhem em músculos e astúcias quanto mais crescem as espécies.

Assim fortes e astuciosos os humanos. Quando deixaram de ser canibais, sobrou-lhes apenas a guerra. Eis onde reside o velho problema do mal, da violência.

Qual a sua "origem", onde se reconstitui constantemente? Creio que é no próprio processo da aprendizagem dos usos de cada tribo em que crescemos a partir de outros, em geral mais velhos, que se apagam progressivamente para que o aprendiz ganhe autonomia.

Todo o uso, de linguagem nomeadamente, é relacional aos outros e sucede com frequência que, no processo de recompensa e castigo que fomenta as aprendizagens, a vontade de aprender ganhe o sentido também de ser melhor do que os outros ao lado, o mais hábil e reputado, o capaz de ocupar os melhores lugares.

Aos vários níveis sociais, esta rivalidade de querer ser melhor e mais forte instaura a lei da guerra que se pode reconhecer com facilidade à nossa volta, lendo jornais ou vendo televisão. Hoje ainda há guerras aqui e ali, mas as "grandes" guerras do século XX parece difícil que voltem a haver, já que é ao nível económico, concorrência e competitividade, que elas hoje se travam, os nobres guerreiros substituídos pelos burgueses capitalistas na dominação social.

Também as religiões holísticas desapareceram, como os fundamentalismos minoritários atestam os resquícios delas, substituídas pela escola obrigatória (isto é, holística) e pelos media.

Ora o futebol, e outros desportos em alguns países menos futebolísticos, parece ser um sucedâneo quer da lei da guerra, quer das religiões. Da primeira, ele tem a competição como regra principal que serve para que haja campeões e equipas que o querem ser, mas com a vantagem de essas guerras serem organizadas com regras vigiadas por árbitros.

Da segunda,  tem a paixão clubística que se transmite em geral por parentesco e se vinca a "heróis", mas que é capaz de envolver vidas pouco interessantes e dar-lhes um "sentido" que de outra maneira poderia facilmente descambar em bebida ou droga; tem, por outro lado, as suas liturgias anuais, os seus campeonatos e outras taças entre clubes, além das selecções nacionais, propícias a um certo patriotismo que vai faltando noutras dimensões cívicas e políticas.


Se tiver razão, não há que barafustar contra o excesso da violência no futebol: não desejável, ela faz parte da competição, da paixão de ganhar. Mais vale violência organizada e com regras, que bem sabemos como a falta de controlo das competições financeiras têm consequências terríveis sobre todos nós.



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