sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sobre tolerância e aceitação – Por Roberto Lacerda Barricelli

Dizer que é possível aceitar aquilo com o qual discorda sem que haja coerção para tanto, e neste ponto entra a padronização dos valores individuais, é uma contradição em si. O famoso argumento auto refutável, ao qual basta indicar o erro básico de lógica. 

Alguns dizem que aceitação não exige que se coloque o outro no mesmo nível de nossos valores individuais e ideias. Há aqui uma clara confusão entre tolerância e aceitação. 

Tolerar é justamente não colocar a opinião do outro, ou as atitudes, no mesmo nível de seus valores e ideias, contudo, não iniciando agressão contra esse outro por causa de tais atitudes e opiniões. 

Essa diferenciação básica entre tolerância e aceitação consta, inclusive, no livro: "Carta sobre a tolerância", de John Locke, quando faz uma defesa na qual defende que o indivíduo deve ter respeitado o direito de não aceitar a religião do outro, posto que para o primeiro a sua religião seja a ortodoxa, contudo, deve tolerar a religião do segundo, posto que para este a religião ortodoxa seja a sua. 

Para tal defesa, Locke fala sobre os pagãos, turcos e outros grupos religiosos, dizendo que os demais podem não aceitá-los (principalmente os cristãos), mas que devem ser tolerados. 

Neste ponto Locke afirma que jamais será possível entregarmos a um magistrado um poder de reprimir a religião de outrem por considerá-la não-ortodoxa, cujo tal poder o mesmo ou outro magistrado não possa utilizar para reprimir a nossa religião por ser diferente em determinado momento da dele e, portanto, naquele determinado momento considerá-la não-ortodoxa, ou considerar a própria religião dele (magistrado) a única ortodoxa.

O mesmo conceito se aplica a aceitação e tolerância entre quaisquer "diferentes", seja por questões de etnia, gênero, orientação sexual, condição física e mental, etc, conceito este que por si já demonstra a ilegitimidade do fomento à luta de classes como da própria teoria de luta de classes e estabelece também a ilegitimidade de se utilizar do poder coercitivo do Estado para promover fins de grupos de pressão organizados, em detrimento dos interesses de todos os demais grupos, visto que os interesses dos grupos de pressão iniciam agressão contra os direitos naturais, ou algum destes, ou os positivos que destes advém, dos demais grupos existentes, ou de boa parte destes.

(Roberto Lacerda Barricelli, jornalista, assessor de Imprensa do Instituto Liberal e Diretor de Comunicação do Instituto Pela Justiça (IPJ) - roberto@institutoliberal.org.br)





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