quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Especialista critica famosos na Cabala: "não têm noção" – Por Aline Lacerda

Em visita ao Brasil, a israelense Rachel Elior explicou o que é a Cabala, falou sobre judaísmo, feminismo e criticou a posição do Brasil em relação ao aborto

Madonna faz parte do time de celebridades que segue a Cabala (lê-se Cabalá) e a definiu como sua religião, tendo-a descrito como algo “punk rock” porque a fazia ter “pensamentos libertadores”. 

Junto dela, as atrizes Gwyneth Paltrow e Demi Moore também seguem os ensinamentos. No Brasil, a atriz Fernanda Souza e os apresentadores Luciano Huck e Glória Maria também são fieis à teoria. 

Mas segundo a israelense Rachel Elior, chefe do Departamento de Pensamento Judaico da Universidade Hebraica de Jerusalém e considerada uma das maiores especialistas do mundo em misticismo judaico (Cabala), a religião que estes famosos e várias outras pessoas dizem seguir tem muito pouco a ver com a essência real da Cabala. 

“Estas pessoas pegaram uma ou duas sentenças de um total de 18 mil livros e disseram 'agora estamos fazendo a Cabala'. Isso não tem nada a dizer ou muito, muito pouco a dizer sobre o que a Cabala realmente é”, disse em entrevista exclusiva ao Terra durante sua segunda visita ao Brasil. 

Mas o que a Cabala realmente é? Para começar, não é religião. Chamada também de misticismo judaico, é uma corrente de estudo que dá total liberdade de imaginação e interpretação das obras e ensinamentos do judaísmo tradicional. 

“A Cabala é esta linha que todo judeu era convidado a participar, em que era permitido imaginar o paraíso, o inferno, o futuro, o presente. Esse é o segredo da Cabala: a liberdade de imaginar dentro do contexto religioso”, explica. 

Ou seja, os cabalistas também segue à risca os mesmos mandamentos do Velho Testamento (Torá) que rege a vida de todos os judeus. E, aliado a isso, são mais livres para interpretar os estudos mais antigos.

Para explicar melhor, enquanto os mais tradicionais liam a Torah e levavam tudo ao pé da letra, os cabalistas criavam detalhes mais enriquecedores. 

“Se está escrito lá que o paraíso tem um jardim com um rio no meio, os cabalistas já falam que é um rio de luminosidade, que chega sempre à meia-noite e inunda suas vidas. É isso que fazem, uma leitura imaginativa, uma alternativa intelectual diferente em busca de redenção”.

E tanta imaginação tinha um motivo: era a alternativa encontrada por eles para superar uma realidade de perseguição. “Era a literatura de pessoas desesperadas, perdidas, que queriam formar um mundo alternativo”. Por isso, a Cabala surgiu e ganhou força justamente nas comunidades judaicas que viviam em êxodo ao longo dos últimos milênios, especialmente nos séculos 11 e 12 durante as Cruzadas, quando foram perseguidos pelos cristãos na Europa.

E, aqui, outra divergência da visão de Rachel Elior em relação à Cabala feita hoje em dia, principalmente pelas pessoas que não são judias. Elas não passaram por perseguição, não viveram profundo sofrimento e, portanto, não precisariam de redenção.

Aliado a isso, como tudo o que rege o judaísmo, a Cabala era acima de tudo um estudo feito em comunidade e voltado para a salvação de um povo. Assim, aplicar os ensinamentos para salvação única e exclusivamente pessoal também passa longe dos princípios originais do misticismo judaico. 

“Dizer que eu sento na minha varanda, pego uma Coca-Cola, acendo um cigarro e estou aprendendo a Cabala é nonsense. Ela é feita para ser integrada em comunidade e não para a salvação individual”.

Mas, segundo Rachel, este comportamento segue um fenômeno surgido após a II Guerra Mundial, quando as pessoas de diversas correntes, não só judeus, não queriam se comprometer com religião, mas estavam muito interessadas em encontrar a espiritualidade. 

Foi aí que pequenos princípios do hinduísmo, budismo, Cabala, entre outros, caíram nas graças de muita gente, especialmente na América. E apesar de saber destas mudanças sociais e até da modernização da religião, Rachel considera importante abraçar os princípios básicos e principalmente o estudo destas correntes que as pessoas escolhem seguir em suas vidas.

Feminismo e aborto

Feminista assumida e defensora de causas que ajudam as mulheres em Israel, Rachel é a primeira em defender a modernização da religião e a criticar leis religiosas que ainda se baseiam em livros tão antigos. 

“Hoje em dia, nem todos os judeus seguem todos os mandamentos sugeridos. Eles guardam o sétimo dia, respeitam a vida, mas muitos não conduzem sua vida pessoal e sexual de acordo com a religião. Não é natural dizer para manter o celibato por causa de religião, ainda mais hoje que as pessoas se casam mais tarde”, avalia.

"Sou feminista. Eu condeno totalmente (as mulheres não poderem decidir sobre o aborto), não por religião, mas pelos direitos humanos".

Segundo ela, os judeus, cerca de 13 milhões de pessoas no mundo, das quais 7 milhões vivem em Israel, não fazem grandes alardes sobre temas polêmicos comuns da sociedade de hoje, mas “deixam a vida acontecer”. 

"Claro que sugerimos que você se case e tenha uma família, mas ninguém vai falar uma palavra se você for morar com um alguém ou nunca se casar”. Segundo ela, o mesmo se aplica às relações homossexuais.

Perguntada sobre o posicionamento dos judeus em relação ao aborto, ela comentou a falta de legislação brasileira ampla em relação ao assunto. 

“É muito horrível e triste o que fiquei sabendo sobre o Brasil porque as mulheres são seres humanos, nem um pouco menos que um homem. E se ela sentir que não pode levar uma gravidez adiante, seja por questões emocionais, físicas, financeiras ou qualquer outra, ela tem direito de tomar a decisão sobre seu próprio corpo”.

De acordo com ela, em Israel, as mulheres que não querem levar uma gravidez adiante têm que procurar um fórum, explicar o motivo por questão de praxe e são autorizadas a fazerem o procedimento em hospitais públicos. 

“A mulher é definitivamente a prioridade e não o bebê. Eu condeno totalmente o contrário, não por religião, mas pelos direitos humanos”, completa.


Rachel cita ainda a principal luta feminina em seu país natal: a lei do divórcio local, que proíbe as mulheres de pedirem a separação. Elas precisam esperar a vontade e pedido do marido em fazer isso. 

“Isso acontece porque não temos leis civis sobre casamento, só religiosa. Esta realidade de discriminação nos desagrada muito, mas estamos lutando”, comenta.




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