terça-feira, 2 de setembro de 2014

Hector Babenco leva religião a Veneza – Por Vanessa Wohnrath

O cineasta Hector Babenco, que estava longe das câmeras desde o lançamento do drama “O Passado” (2007), estrelado por Gael García Bernal (“No”), voltou às telas no Festival de Veneza. 

Ele é um dos diretores envolvidos na obra coletiva “Words of Gods”, antologia de curtas, que reúne obras de cineastas de vários países, tendo como ponto em comum a religião.

“Depois de sete anos afastado estou de volta ao jogo”, declarou Babenco em conversa com a imprensa. “Fazia tempo que estava fora da grande máquina que é o cinema internacional, mas ainda sou respeitado no exterior. É o contrário do Brasil, onde eu trabalho como se fosse um exilado que fez alguns filmes”, desabafou. 

“‘O Passado’ deixou um gosto amargo na minha boca, pois tentei exibi-lo em vários festivais, como Cannes e Veneza… Mas o convite para integrar ‘Words with Gods’ me devolveu o fôlego para enfrentar a maratona de novo.”

“Words with Gods” foi idealizado pelo cineasta mexicano Guillermo Arriaga, diretor de “Vidas que se Cruzam” (2008) e roteirista de alguns longas do diretor Alejandro González Iñárritu, como “Amores Brutos” (2000), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006). A produção foi filmada em oito países, é falada em dez línguas e explora nove religiões.

Além de Arriaga e Babenco, a antologia conta com curtas dirigidos pelo espanhol Álex de la Iglesia (“Balada do Amor e do Ódio”), o iraniano Bahman Ghobadi (“Antes das Lua Cheia”), o israelense Amos Gitai (“Ana Arabia”), o sérvio Emir Kusturica (“Zanet”), a indiana Mira Nair (“O Relutante Fundamentalista”), o japonês Hideo Nakata (franquia “O Chamado”) e o australiano Warwick Thornton (documentário “The Darkside”).

Dos nove cineastas, Iglesia foi quem preferiu contar sua história de forma cômica. Intitulada “A Confissão”, sua participação gira em torno do catolicismo e do ato de se confessar. 

“Acho o humor uma técnica de expressão que nos ajuda a abordar a realidade de forma mais livre, e isso foi muito importante para falar de religião”, explicou ele em Veneza. 

“Para mim, o perdão dos pecados é a parte mais importante da religião católica, que é definida justamente pela sua preferência pelo pecador arrependido em relação àquele que sempre faz o bem. Isso me enche de esperança.”

Babenco entrou no projeto graças ao diretor José Padilha (“RoboCop”). “Como ele estava ocupado filmando ‘RoboCop’, acabou me oferecendo a oportunidade de fazer ‘Words with Gods’”, contou o diretor de “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1981), “O Beijo da Mulher Aranha” (1985) e “Carandiru” (2003). “O filme traz uma discussão séria, que no meu caso passa pela experiência da fé brasileira.”

O curta de Babenco, “O Homem que Roubou um Pato”, gira em torno de um sem-teto (Chico Díaz, de “O Sol do Meio Dia”) abalado com a morte de seu filho. Sofrendo muito, ele participa de um ritual religioso em que os maus espíritos são exorcizados por meio da dança.

Arriaga comentou a trama de: “O Homem que Roubou um Pato”. “Babenco não acredita em Umbanda, mas ele mora no Brasil, ele tem amigos que seguem essa crença. Babenco ficou tão próximo desse universo, que só ele mesmo poderia contar essa história.”

Babenco afirmou que quando o diretor mexicano lhe deu detalhes do projeto, ele disse que queria evitar qualquer tipo de exotismo sobre a religiosidade. “O contato do personagem em sofrimento com a religiosidade lhe provoca uma catarse que o permite chorar e, em meio às lágrimas, tenta superar sua dor.”

“Quando criei a história, havia uma estrutura que estava neorrealista demais”, explicou o diretor. “Um dia, passeando pelo Parque do Ibirapuera, eu vi um pato andando. Então, eu percebi que minha contribuição ao filme poderia ter um toque de absurdo.”

A contribuição foi perfeita, segundo Arriaga, pois sua proposta com “Words with Gods” é focar nos seres humanos, no que eles pensam sobre religião e não em Deus. “O objetivo da produção é despertar um diálogo para que possamos nos entender melhor e nos tornamos seres humanos melhores”, explicou Arriaga. “É uma obra ambígua que deixa em aberto todas as interpretações sobre quem é Deus e se ele existe ou não.”


“Words with Gods” foi planejado por Arriaga para ser o primeiro de uma franquia de quatro antologias. “Há alguns temas que não temos permissão para falar à mesa, pois senão causaria brigas. Por isso vamos fazer mais três filmes, sobre sexo, política e substâncias.”



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