domingo, 28 de setembro de 2014

Midiatização do Papa é sinal de crise da Igreja Católica – Por Dario Citati


Durante o auge da popularidade do primeiro Sumo Pontífice sul-americano, muitos dos fiéis da Igreja romana vivem uma doença dissimulada por uma estratégia que pode mudar a forma e o conteúdo da sua fé.

À primeira vista, a grande popularidade do Papa Francisco na opinião pública internacional confirma um dos princípios essenciais do Catolicismo, cuja estrutura eclesiástica é baseada na primazia jurídica do Papa sobre os outros bispos. 

Na realidade, acontece o oposto: depois da sua eleição à sé romana, Jorge Mario Bergoglio ganhou muita popularidade não graças à sua ação doutrinária e à sua autoridade papal, mas devido à midiatização da sua personalidade e à imagem que ele cria de si próprio, de um Papa diferente dos seus antecessores.

Portanto, a veneração da personalidade de Francisco esconde um afrouxamento do instituto papal. Hoje em dia, a vontade de reforçar a imagem do Catolicismo entre os não católicos parece prevalecer sobre os assuntos internos e sobre os princípios morais. Contudo, a sorte do Catolicismo na história mundial dependerá desses assuntos e desses princípios.

No plano doutrinário, a “revolução” de Francisco é bastante significativa. Trata-se, primeiro, de uma mudança de modos e de conduta exterior: na mímica, nos gestos, na sua linguagem simples e elementar. Tudo isso parece contribuir para uma dessacralização da função papal, que atrai bastante os adversários do Cristianismo, criando a imagem não de um Papa autoritário, mas de um avô simpático e legal. 

Segundo, observa-se uma alteração na escala de prioridades nas intervenções públicas do pontífice.

O Papa Francisco insiste com frequência em temas que não se referem especificamente à fé, à moral. Muitas vezes ele faz discursos comentando a imigração, criticando o capitalismo, apelando ao respeito ao meio ambiente. 

No entanto, as questões propriamente religiosas restam na periferia e são sujeitas a uma mensagem de concordância civil e humanitária. 

Bergoglio nunca questionou nenhum dogma e nenhum princípio do Catolicismo, a sua “revolução” consiste em pronunciar discursos ambíguos ou em tolerar práticas heterodoxas sem manifestar-lhes o seu apoio abertamente.

A sua estratégia comunicativa descreve-se com a célebre frase: “Quem sou eu para julgar?”, usada pelos progressistas para justificar a aprovação de toda a transgressão. 

Dir-se-ia que ele prefere ficar ambíguo, desta maneira abandonando o estilo dos Papas anteriores e a exigência de Cristo de transmitir a doutrina claramente: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” (Mt, 5:37).

Os apelos para uma Igreja “pobre para os pobres” revelam bastante também. Nada podia ser mais midiático, visto que os abusos dos sacerdotes são muito chocantes para a opinião pública. É louvável condenar as riquezas pessoais dos sacerdotes, mas se a Igreja como instituição fosse “pobre” ela própria, ou seja, sem recursos, como ela poderia ajudar a combater a pobreza?

A midiatização da pessoa do Papa Francisco tem também o efeito de esconder os problemas interiores do Catolicismo, que são enormes. Na Igreja Católica existe hoje uma fragmentação quase incrível, há pequenos grupos cujas posições são incompatíveis entre si e até contrastam com a fé católica tradicional. Certos especialistas já falam da existência de igrejas distintas no interior da Igreja Católica.

Claro que há também elementos positivos que caracterizaram o primeiro ano do governo de Francisco. A Santa Sé tornou-se mais influente no estrangeiro graças ao Papa argentino. A sua posição contra a ameaça estadunidense de guerra à Síria, a sua sábia e equilibrada conduta em relação à Ucrânia, a carta que ele enviou em 2013 ao presidente russo, Vladimir Putin, todas estas decisões foram guiadas pelo bom senso.

O melhor resultado do trabalho diplomático do Vaticano durante o governo de Francisco é, sem dúvida, a “desocidentalização” do Catolicismo. Este movimento pode ser avaliado como positivo, porque ele viabiliza a possibilidade de um posicionamento geopolítico adequado aos problemas futuros.

No entanto, há questões que permanecem abertas. A Igreja Católica não é a pessoa de Jorge Mario Bergoglio, cuja existência terminará um dia, como a de todo ser humano. A sua popularidade sozinha não revitalizará a religião católica.


O Papa Francisco, na sua primeira homilia em 2013, afirmou que a Igreja não pode transformar-se em uma ONG: “filantrópica e de caridade”, o que às vezes parece ser o seu destino. 

O Catolicismo poderá, ao contrário, sobreviver na medida de que ele seja capaz de oferecer uma perspectiva alternativa aos modelos dominantes, de explicar o destino metafísico do ser humano em um mundo que pôs de lado Deus.





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