domingo, 28 de setembro de 2014

Os muçulmanos franceses se mobilizam pela primeira vez contra o Califado – Por Carlos Yárnoz

Entre 1.500 e 2.000 pessoas participaram do protesto diante da Grande Mesquita de Paris, que teve a presença de líderes de diferentes religiões.

Entre 1.500 e 2.000 muçulmanos se manifestaram depois da oração da sexta-feira (26/09), diante da Grande Mesquita de Paris, para demonstrar sua oposição ao denominado Estado Islâmico (EI) e para mostrar sua repulsa pelo assassinato do francês Hervé Gourdel na Argélia, na quarta-feira (24/09). 

A primeira mobilização dos muçulmanos da França (cinco milhões de pessoas, 7% da população) contra o EI, que foi significativa mesmo não tendo sido numerosa, contou com representantes católicos, judeus, protestantes e com a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, mas também com o repúdio de grupos que entendem que a islamofobia cresce ultimamente porque os muçulmanos estão sendo apontados como “suspeitos”. Mais protestos estão sendo anunciados para os próximos dias.

“Não conheço o Islã que corta o pescoço de seres humanos”, comentava a este jornal Rabia Afraim, “francesa de origem argelina”. Junto dela, Saida, também de origem argelina: 

“Não há lugar para assassinos no meu Islã, e o digo porque durante 14 anos estudei o Corão e textos muito antigos”. Sua amiga Elisabeth, cristã, comenta que foi ao protesto porque todos devem se sentir “muito unidos frente ao terrorismo”. 

“Não use meu nome para praticar o terrorismo em nome de nenhuma religião”, acrescenta Myra Mahdy, que se manifesta com um pequeno cartaz no qual se lê #NãoEmMeuNome, o selo utilizado nas redes sociais, idêntico ao de #NotInMyName usado no Reino Unido.

As declarações dos participantes refletiram o espírito do ato, realizado aos pés do minarete de 33 metros da imponente Grande Mesquita, construída há um século em estilo neomudéjar em homenagem aos muçulmanos que participaram na I Guerra Mundial. 

O protesto, que não foi seguido por dezenas de fiéis que haviam acabado de orar, foi organizado por Dalil Boubakeur, presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), o mais representativo dessa comunidade na França.

Ao lado dele, na entrada do centro religioso, tomaram a palavra os dirigentes religiosos e políticos. “O Islã é uma religião de paz”, reiterou Boubakeur, também reitor da mesquita. “Não temos que nos justificar”, disse, “mas apoiamos os familiares de Hervé Gourdel”, assassinado “por homens sem religião nem lei”, afirmou a prefeita Hidalgo.

“Nós também somos franceses sujos”, afirmam dirigentes da comunidade muçulmana da França em um manifesto.

“Não tínhamos nos manifestado até agora porque nós também estamos aterrorizados”, conta o jovem Riadh. “Os muçulmanos são as primeiras vítimas dos jihadistas”. 

“O jihadismo não é muçulmano. São bandidos. O Islã é paz, não conhecemos a barbárie”, comenta Sow Abdel-Kabergous, senegalês de nacionalidade francesa.

A poucos metros deles, Gil Taïeb, vice-presidente do Conselho Representativo de Instituições Judaicas da França (CRIF), intervém para dizer ao jornalista:

“Um cidadão foi assassinado por ser um francês sujo. Dessa forma, para eles somos todos judeus sujos, muçulmanos sujos, cristãos sujos. Temos que estar unidos”.

“Nós também somos franceses sujos” é o cabeçalho de um manifesto em resposta ao termo usado na semana passada por um porta-voz do EI para conclamar ao assassinato de cidadãos da França. 

Entre os quinze signatários, a vice-presidenta do Senado Bariza Khiari, o cineasta Saad Kiari, a antropóloga Dounia Bouzar, o financista Abderahim Hamdani e Marwane Ben Yahmed, diretor do semanário Jeune Afrique. 

“Nós, franceses da França e de confissão muçulmana, denunciamos todas as ações cometidas em nome de uma mortífera ideologia que se esconde atrás da religião islâmica confiscando seu vocabulário”, afirmam.

A mobilização da coletividade muçulmana acontece quando diversos meios de comunicação a reclamavam há semanas. Os dirigentes muçulmanos se queixam de que a imprensa não divulga suas mensagens contra os radicais, mas também de que estão sendo excessivamente marcados ultimamente. 

A sensibilidade está à flor da pele. Ela cresceu no verão com as violentas manifestações de muçulmanos contra Israel por conta da guerra de Gaza e os ataques a judeus (600.000 pessoas na França).

Na quinta-feira, o jornal Le Figaro perguntou a seus leitores se eram “suficientes” os protestos dos muçulmanos franceses contra o EI. O diário teve de interromper a pesquisa de opinião diante da avalanche de críticas.






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